Quem passa pela rua Cruz Machado, no Centro de Curitiba (PR), não consegue desviar a atenção de um imponente prédio abandonado, coberto de tapumes e portas tapadas por tijolos. O histórico Edifício Pires ocupa de uma ponta à outra a calçada em direção à Praça Tiradentes, marco zero da capital do Paraná. Em setembro de 2025, a prefeitura de Curitiba anunciou que transformaria o espaço no maior centro de economia solidária do Brasil – nada foi feito.
A estrutura tem cerca de 620 m² e quatro andares. Os últimos registros de uso são de 2017, quando poucas lojas ocupavam o térreo. Os andares superiores, que são residenciais, estão desocupados há mais tempo – o espaço residencial como um todo está desocupado há cerca de duas décadas, embora existam registros de 9 anos atrás que mostram pessoas habitando apenas a parte da esquina com a praça.
Em 2023, a Secretaria Municipal de Administração e Tecnologia da Informação, da prefeitura de Curitiba, declarou o imóvel como de utilidade pública e o desapropriou, indenizando o dono anterior em R$ 3,2 milhões. Em maio de 2025, a Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab) anunciou que o prédio passaria por reformas e depois seria destinado a programas sociais.
Em setembro de 2025, o prefeito Eduardo Pimentel (PSD) anunciou para a imprensa que o edifício histórico se tornaria o maior centro de economia solidária do Brasil, com o nome “Centro de Economia Popular Solidária e Criativa”. A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação passou a ser a responsável pela reforma.
A ideia fazia parte do projeto “Curitiba de Volta ao Centro”, de revitalização do centro histórico. No site da prefeitura, o senador Flávio Arns (Podemos) celebrou, na época, que a obra no Edifício Pires seria um marco do primeiro mandato de Pimentel.
A reforma nunca começou. Um ano depois, o prédio está coberto por tapumes, portas estão fechadas por paredes de alvenaria e há vários tipos de pichações. As janelas estão abertas, sem moldura – e a fachada parece deteriorada. O endereço fica numa posição estratégica do Centro, na esquina da alameda Doutor Muricy com a rua Cruz Machado, próximo também a pontos de ônibus e à rua XV de Novembro.
Prédio histórico, mesma história
O Edifício Pires foi construído na década de 1930. A obra terminou em 1941 e ficou marcada por ser estreita e comprida, como uma “fatia de bolo”. O térreo foi ocupado por estabelecimentos comerciais, como a relojoaria Progresso.
Para Madianita Nunes, pesquisadora do Observatório das Metrópoles Núcleo Curitiba e professora do departamento de arquitetura da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a subutilização de edifícios em áreas centrais, sobretudo de prédios que podem ser habitados, é sempre uma questão a ser enfrentada pelos governos municipais. O caminho, segundo ela, é a adoção de políticas urbanas que promovam a indução da ocupação, garantindo a efetivação da função social da propriedade.

Os dados mais recentes sobre o déficit habitacional em Curitiba são de 2024 e indicam o número de 90 mil famílias. Segundo a Prefeitura, o alto índice deve-se ao alto preço dos aluguéis. Em 2026, no estado, chega a aproximadamente 491 mil moradias, segundo a Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar). Também neste ano, Curitiba registrou mais de 4,5 mil pessoas em situação de rua.
“As áreas centrais são as regiões das cidades, em geral, dotadas de infraestrutura completa e que receberam mais investimento por parte do Estado. São também as regiões que concentram comércio e serviço, portanto, postos de trabalho, além de constituírem o ponto de maior acessibilidade em uma cidade”, conta Nunes.
O prédio, na Praça Tiradentes, marco zero da cidade, pode representar também objeto de disputa de imaginário por diferentes grupos sociais, segundo a professora. “São também lugares com grande importância simbólica, local de origem da cidade, onde se realizaram eventos com importância política, histórica e cultural”, explica Nunes.

A pesquisadora chama atenção para o histórico das políticas urbanas e habitacionais por parte dos governos que administraram Curitiba. “A utilização de imóveis públicos na área central não tem sido objeto de implantação de programas voltados às classes sociais mais empobrecidas ou ao movimento social organizado”, ressalta.
No caso dos programas de habitação de interesse social, os bairros periféricos são os que mais recebem essas construções.
Um ano depois: ocupação popular
Em setembro de 2026, o Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) no Paraná entrou no espaço com o intuito de chamar a atenção para o problema flagrante da questão habitacional em Curitiba. O objetivo era, também, oferecer um espaço para que trabalhadores da economia solidária, de Curitiba e Região Metropolitana, pudessem comercializar produtos, como café, pães, sucos, artesanatos, entre outros.
“Aquele espaço estava cedido para isso [economia solidária]. Não aconteceu. Nós decidimos ocupar, pensando nesse diálogo e construção que nós já temos com economia solidária”, afirma o Movimento.


A ocupação verificou que o edifício ocupa três terrenos. “Creio que sejam três prédios diferentes, com a mesma estrutura por fora. Tem pisos e escadas diferentes no interior. Está muito deteriorado por dentro, piso de madeira sede; muita sujeira, lixo, tintas descascadas. Gesso do teto totalmente quebrado, possivelmente já serviu de ocupação outras vezes”, conta uma militante que participou do movimento.
Batizada de “Pertencer”, a ocupação foi motivada pela contradição de haver prédios vazios na cidade, sobretudo no Centro, ao mesmo tempo em que há um número expressivo de famílias sem-teto e pessoas em situação de rua. “Espaço público abandonado é crime. Estamos dando uso social a um prédio abandonado”, declarou o grupo.
A ocupação não continuou no espaço, por pressão do poder público e pelas condições de risco da construção, que tem paredes apodrecidas e estruturas caídas. Apesar disso, o MTD mantém a reivindicação de ocupação desse e de outros espaços do centro pela classe trabalhadora.

A área central de Curitiba é, mais do que nunca, importante vetor de atividade imobiliária. O perfil dos novos empreendimentos que surgem no Centro mostra com clareza que não são destinados às classes populares. Segundo a pesquisadora, há um movimento do mercado imobiliário pela revalorização do centro, para garantir maior capitalização de investimentos e, portanto, maior extração de lucros, rendas e juros.
“O atual governo representa os interesses de quais grupos sociais? Que grupos sociais têm sido priorizados nas ações do poder público municipal? Quem tem sido beneficiado pelos investimentos promovidos pela prefeitura?”, questiona a pesquisadora da UFPR.
Desde março de 2020 até janeiro de 2023, cerca de 1,7 mil famílias sofreram despejos no Paraná. O dado foi publicado há 3 anos pelo Mapeamento Nacional de Conflitos pela Terra e Moradia, uma plataforma virtual organizada pela Campanha Despejo Zero.

O que diz a prefeitura
Segundo a gestão municipal, a implantação de um projeto de assistência social era em parceria com a UFPR, mas não vingou pela “indisponibilidade de recursos da universidade para executar a reforma”.
Em nota, afirma também que, “considerando a relevância do imóvel para a paisagem urbana e o patrimônio histórico da cidade, a prefeitura realiza estudos para viabilizar o retrofit da edificação, em consonância com as diretrizes de requalificação do Centro e com a proposta de implantação de uma área de baixa emissão de carbono, no âmbito do programa Curitiba de Volta ao Centro”.
A prefeitura pontua que analisa possíveis destinos do prédio, entre modelos de concessão de uso, outras possibilidades de ocupação e recuperação do imóvel.
Por outro lado, a UFPR declara que a proposta de parceria para a criação do centro não chegou a ser formalizada institucionalmente entre a universidade e a prefeitura e que segue aberta ao diálogo.
“As tratativas realizadas à época não avançaram para um entendimento entre os envolvidos quanto a uma forma viável de implementação do referido Centro. Dessa forma, não houve a formalização de um compromisso da UFPR para execução da reforma do Edifício Pires”, afirma em nota.



