Aécio Neves (PSDB) volta à disputa eleitoral em Minas Gerais carregando um extenso histórico de investigações judiciais. O ex-governador anunciou em agosto deste ano sua candidatura a uma das duas vagas do estado no Senado. Ao longo dos últimos anos, seu nome esteve relacionado a inquéritos e ações que apuraram suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, fraudes em licitações e irregularidades eleitorais. Parte dos casos foi arquivada, outros tiveram denúncias rejeitadas e, no episódio mais conhecido, envolvendo a JBS, Aécio chegou a se tornar réu e posteriormente foi absolvido em primeira instância.
O caso mais recente entre os que tiveram desdobramentos relevantes envolve justamente uma das obras mais emblemáticas de sua passagem pelo governo de Minas: a Cidade Administrativa. Em setembro de 2025, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) julgou recursos relacionados a uma ação de improbidade e, por maioria, julgou improcedentes os pedidos formulados no processo. O caso envolve acusações relacionadas às obras do complexo administrativo construído durante o governo Aécio.
A investigação sobre a Cidade Administrativa começou a apurar suspeitas de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, crimes contra a ordem tributária e fraude em licitação. O STF havia determinado, ainda em 2018, a remessa do Inquérito 4392 para a Justiça de Minas Gerais, uma vez que os fatos investigados estavam relacionados ao período em que Aécio ocupava o cargo de governador.
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Segundo a investigação, delatores relataram um suposto esquema envolvendo empresas responsáveis pelas obras. Uma das acusações apontava para o pagamento de valores equivalentes a 3% dos contratos. O caso, porém, sofreu uma série de reviravoltas judiciais, inclusive com questionamentos sobre a validade de elementos utilizados nas ações.
A trajetória da Cidade Administrativa é, portanto, diferente de uma simples absolvição criminal. O processo teve diferentes frentes nas esferas criminal e de improbidade, e decisões judiciais modificaram o conjunto de provas que poderia ser utilizado contra os investigados. O julgamento de 2025 no STF acrescentou um novo capítulo ao caso.
O caso JBS e os R$ 2 milhões
Entre as acusações que mais marcaram a trajetória política de Aécio está o episódio envolvendo o empresário Joesley Batista, da J&F Investimentos, em 2017.
Uma gravação entregue à Procuradoria-Geral da República (PGR) mostrou uma conversa entre Joesley e Aécio na qual, segundo a acusação, o então senador solicitou R$ 2 milhões. O dinheiro acabou sendo entregue ao primo de Aécio, Frederico Pacheco de Medeiros.
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O episódio levou à abertura do Inquérito 4506 e, em 2018, a Primeira Turma do STF recebeu denúncia contra Aécio, a irmã dele, Andrea Neves, Frederico Pacheco e Mendherson Lima por corrupção passiva. No caso de Aécio, também foi recebida acusação por obstrução da investigação.
Em 2019, a Justiça Federal determinou o bloqueio de R$ 128 milhões de Aécio. A ação criminal dizia respeito a supostas vantagens indevidas recebidas pelo tucano de Joesley Batista, do Grupo J&F. Os R$ 128 milhões se referem à quantia que supostamente foi paga para Aécio entre 2014 e 2017.
A investigação reuniu, além da gravação, registros da entrega do dinheiro, depoimentos de colaboradores e informações bancárias. O STF chegou a determinar o afastamento de Aécio do mandato parlamentar e impôs outras medidas cautelares durante a apuração.
A denúncia, portanto, não ficou apenas no campo de uma investigação preliminar: Aécio efetivamente se tornou réu nesse caso.
O desfecho, contudo, foi diferente do que poderia sugerir a dimensão política do episódio. Em 2022, a Justiça Federal em São Paulo absolveu Aécio, Andrea Neves, Frederico Pacheco e Mendherson Lima da acusação de corrupção passiva. A decisão considerou insuficientes as provas para estabelecer que o pedido dos R$ 2 milhões configuraria corrupção.
Furnas: uma investigação que terminou arquivada
Outro episódio de grande repercussão envolveu Furnas Centrais Elétricas. O Inquérito 4244 investigou Aécio por suspeitas de corrupção passiva e lavagem de dinheiro relacionadas ao suposto recebimento de vantagens de empresas contratadas pela estatal.
A apuração foi alimentada por depoimentos de colaboradores, entre eles informações atribuídas ao ex-senador Delcídio do Amaral e ao doleiro Alberto Youssef. Também foram realizadas quebras de sigilo e diligências relacionadas a contas no exterior.
Em 2018, o STF chegou a determinar o arquivamento do inquérito, mas a PGR recorreu e conseguiu prazo adicional para novas diligências. O caso voltou a ser analisado e, em março de 2021, foi novamente arquivado pelo ministro Gilmar Mendes, a pedido da própria PGR.
Na decisão definitiva, Gilmar Mendes afirmou que a investigação não havia reunido suporte probatório mínimo para uma denúncia. Segundo o ministro, os elementos reunidos eram essencialmente depoimentos indiretos de colaboradores, sem corroboração externa suficiente.
Caixa 2 na campanha presidencial de 2014
O Inquérito 4444, no STF, investigou suspeitas de caixa 2 eleitoral a partir de colaborações premiadas de executivos da Odebrecht e da OAS. Os relatos mencionavam supostos pagamentos indevidos relacionados à campanha.
Em agosto de 2021, a Segunda Turma do STF determinou o arquivamento do inquérito. Os ministros consideraram que a investigação já ultrapassava quatro anos sem que a PGR tivesse conseguido reunir provas suficientes para apresentar denúncia.
O arquivamento, portanto, não ocorreu após uma condenação ou absolvição em ação penal, mas durante a fase investigativa.
Outro inquérito eleitoral foi trancado em 2024
A campanha de 2014 voltou a aparecer em outro procedimento. Em dezembro de 2024, o ministro Gilmar Mendes determinou o trancamento de um inquérito que tramitava na 30ª Zona Eleitoral de Belo Horizonte. A investigação apurava uma suposta omissão de despesas na prestação de contas da campanha presidencial.
Segundo a decisão, o procedimento havia sido aberto em 2020 para investigar fatos ocorridos cerca de uma década antes e ainda não havia produzido provas suficientes para justificar uma denúncia. O ministro também apontou excesso de prazo.
Projeto Madeira: denúncia rejeitada pelo STF
Outro episódio envolve as usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia. No Inquérito 4436, a PGR acusou Aécio de ter recebido vantagens indevidas da Odebrecht e da Andrade Gutierrez entre 2009 e 2010. Segundo a denúncia, os pagamentos estariam relacionados à atuação política do então governador de Minas em interesses das empresas. A acusação chegou a mencionar R$ 65 milhões em suposta propina no contexto investigado.
Em novembro de 2022, porém, o Plenário do STF rejeitou por unanimidade a denúncia. O relator, ministro Edson Fachin, entendeu que a PGR não havia demonstrado de maneira suficiente quais atos das atribuições de governador poderiam ter sido negociados para favorecer as empresas. A denúncia foi considerada genérica e inadequada.
O próprio STF destacou ainda que a acusação estava apoiada em declarações de colaboradores e que, após as mudanças promovidas pelo chamado Pacote Anticrime, não seria possível receber uma denúncia baseada exclusivamente nesse tipo de relato sem elementos independentes de corroboração.
OAS e o programa Luz para Todos
Em 2024, outro inquérito contra Aécio chegou ao fim no STF. O Inquérito 4830 teve origem na colaboração premiada de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS. O relato apontava supostos pagamentos indevidos a Aécio entre 2010 e 2012, período em que ele era governador de Minas. A suspeita era de que os valores estariam relacionados ao interesse da empresa em ampliar sua participação em obras no estado, especialmente no programa Luz para Todos. A Segunda Turma do STF determinou o arquivamento do caso em fevereiro de 2024.
Prevaleceu o entendimento do ministro Gilmar Mendes de que não havia elementos mínimos que justificassem a continuidade das investigações. O ministro André Mendonça também apontou que os relatos apresentados na colaboração não haviam sido corroborados por provas independentes. Edson Fachin ficou vencido e defendia o envio do caso à Justiça Federal em Minas Gerais.
Investigações com resultados diferentes
O histórico judicial de Aécio reúne acusações de naturezas diferentes e com resultados igualmente distintos.
No caso JBS, houve recebimento de denúncia e ação penal, mas o político acabou absolvido em primeira instância. No caso Furnas, a investigação foi arquivada por falta de elementos probatórios mínimos. O inquérito sobre caixa 2 de 2014 também foi arquivado. No Projeto Madeira, a própria denúncia foi rejeitada pelo STF. No caso OAS/Luz para Todos, o inquérito acabou arquivado por falta de elementos mínimos. E uma investigação eleitoral sobre a campanha de 2014 foi trancada por excesso de prazo e ausência de provas suficientes.
O outro lado
O Brasil de Fato MG entrou em contato com o candidato Aécio Neves solicitando esclarecimentos sobre as informações citadas, mas não obtivemos resposta até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

