Bispos e integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) receberam, nesta segunda-feira (28), um relatório que reúne 58 episódios de ataques da extrema direita brasileira contra católicos, segundo levantamento da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), organismo ligado à própria CNBB. O documento foi apresentado no momento em que a entidade reage publicamente a acusações feitas pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).
O relatório reúne ocorrências registradas desde 2018 e aponta que a CNBB, seus dirigentes e campanhas pastorais vêm sendo alvo de acusações e ataques que associam a Igreja Católica ao PT e ao comunismo, além de questionamentos sobre sua atuação política. A Campanha da Fraternidade também aparece entre os alvos de boicotes e mobilizações públicas. O Brasil de Fato fez uma reportagem exclusiva sobre o relatório produzido.
A divulgação do levantamento ocorre um dia depois de Flávio Bolsonaro afirmar, durante uma carreata em Goiânia (GO), que pessoas “de dentro da CNBB” teriam ajudado o PT a disseminar o que classificou como a “maior fake news dessa campanha”: a informação de que ele teria intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A acusação foi rejeitada pela CNBB. Em nota divulgada no domingo (27), a entidade afirmou que não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral. A conferência também declarou não integrar qualquer estrutura político-partidária, partido ou candidatura.
“A mentira não se combate com outra mentira”, afirmou a CNBB ao final do documento. A entidade sustentou ainda que suas manifestações relacionadas às eleições decorrem de sua missão pastoral e de princípios expressos em seus documentos, entre eles a dignidade humana, o bem comum, a democracia e a liberdade de consciência.
Relatório reúne histórico de ataques
É nesse contexto que o relatório da CBJP ganha relevância. O documento recebido pelos bispos nesta segunda-feira reúne 58 episódios identificados pela comissão como ataques da extrema direita contra católicos brasileiros ao longo dos últimos anos. O levantamento estabelece uma linha do tempo que chega até a declaração mais recente de Flávio Bolsonaro sobre a suposta participação de integrantes da CNBB na circulação da informação envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
Segundo o relatório, a conferência e seus dirigentes foram alvo recorrente de acusações financeiras, de associação ao PT e ao comunismo e de desqualificação de sua atuação religiosa. A Campanha da Fraternidade aparece repetidamente como alvo de campanhas de boicote e de orientações para que fiéis não contribuíssem com a coleta realizada pela Igreja.
O levantamento coloca a atual controvérsia em uma perspectiva mais ampla. Em vez de tratar a acusação feita por Flávio Bolsonaro como um episódio isolado, o documento reúne diferentes situações que, segundo a CBJP, fazem parte de um histórico de conflitos entre setores da extrema direita e instituições, religiosos e iniciativas da Igreja Católica.
A publicação também ocorre em meio a manifestações recentes de bispos sobre o processo eleitoral. Nos últimos dias, religiosos de diferentes regiões do país passaram a defender que os fiéis consideram, na escolha eleitoral, princípios como soberania e democracia, sem indicar nominalmente candidatos.
Entre as manifestações que circularam nas redes sociais estão vídeos de bispos da Amazônia e uma fala do arcebispo emérito de Aparecida, dom Orlando Brandes, durante uma missa realizada em 7 de setembro.
Dom Vicente critica declaração de Flávio
A reação também partiu individualmente de integrantes do episcopado. Nesta segunda-feira (28), dom Vicente Ferreira, bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA) e integrante da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB, criticou a declaração de Flávio Bolsonaro.
Em uma publicação nas redes sociais, o religioso fez referência à acusação contra a CNBB e a episódios anteriores envolvendo a relação entre o bolsonarismo e a Igreja Católica. Na mensagem, dom Vicente reafirmou sua defesa da justiça e da paz e mencionou Nossa Senhora Aparecida como “rainha e padroeira” do Brasil.
A manifestação ocorre no mesmo dia em que o relatório da CBJP apresenta aos bispos um conjunto de episódios que, segundo a comissão, demonstra a existência de um histórico de ataques contra setores da Igreja.
Disputa sobre Nossa Senhora Aparecida chega ao STF
A controvérsia sobre as publicações relacionadas a Nossa Senhora Aparecida também chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro André Mendonça havia determinado a retirada de conteúdos que relacionavam Flávio Bolsonaro à possibilidade de mudança do título atribuído à santa.
Posteriormente, o ministro Flávio Dino derrubou a decisão. O caso agora deverá ser analisado pelo plenário do Supremo, após Dino solicitar que os demais ministros apreciem a questão.
A disputa judicial envolve o limite entre liberdade de expressão, circulação de informações durante a campanha eleitoral e eventual desinformação sobre candidatos.
Flávio Bolsonaro nega que exista projeto ou movimento para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e afirma que a informação é falsa. Ao mesmo tempo, a CNBB nega especificamente a acusação de que tenha participado da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral.
Lula também se manifesta
No domingo (27), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou a controvérsia e afirmou que “esse negócio de mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”. Segundo Lula, o assunto ganhou força nas redes sociais e não seria a primeira vez que surgiriam manifestações envolvendo a santa.
O presidente fez referência ao episódio em que o então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Sérgio Von Helder, agrediu verbalmente e desferiu chutes contra uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa de televisão.
Para a CNBB, entretanto, a questão central é a atribuição de participação da instituição em uma suposta operação de desinformação. A entidade afirma que acusações desse tipo, sem apresentação de fatos e provas, atingem a instituição e não contribuem para a “serenidade e a responsabilidade” esperadas durante o processo eleitoral.

