Nas eleições de 2026, eleitores brasileiros terão uma tarefa diferente da que encontrou nas urnas de 2022: será preciso escolher dois candidatos ao Senado. A votação acontece no primeiro turno, em 4 de outubro, e os dois nomes escolhidos podem contribuir para definir a composição do Senado Federal pelos próximos oito anos. Ao todo, estarão em disputa 54 das 81 cadeiras da Casa.
A mudança ocorre porque cada estado e o Distrito Federal possuem três senadores, com mandatos de oito anos. A renovação acontece de forma alternada: em uma eleição, um terço das cadeiras é renovado; quatro anos depois, dois terços. Como em 2022 foi escolhido um senador por unidade da Federação, em 2026 serão eleitos dois.
A segunda escolha amplia a participação do eleitor na definição da composição política do Senado. Para o cientista político Paulo Roberto de Souza, entrevistado pelo BdF Entrevista, a definição dos votos para a Casa historicamente também sofre influência das disputas para presidente e governador.
“Se o candidato a presidente ou ao governo ganha em um estado, a tendência é que o candidato ao Senado dele tenha a mesma coisa ou um pouco a mais”, avaliou Souza.
Dois votos, dois candidatos
Uma das principais dúvidas é se o eleitor pode votar duas vezes no mesmo nome. A resposta é não. Os dois votos para o Senado precisam ser destinados a candidatos diferentes. Caso o eleitor repita o mesmo número, o primeiro voto será considerado válido, mas o segundo será automaticamente anulado.
Também não é possível votar apenas na legenda partidária para senador. O eleitor precisa escolher uma candidatura e digitar os três dígitos correspondentes ao número do candidato. O voto em um candidato de outro estado também não é permitido: a escolha deve ser feita entre as candidaturas registradas na unidade da Federação onde o eleitor possui domicílio eleitoral.
Em Minas Gerais, portanto, os dois votos deverão ser destinados a candidaturas que disputam as duas vagas destinadas ao estado.

O segundo voto também entra na disputa política
Apesar de a urna apresentar duas oportunidades de votação para o Senado, a escolha não significa que o eleitor esteja votando duas vezes na mesma eleição para preencher uma única vaga. São duas vagas independentes, e os dois candidatos mais votados em cada estado e no Distrito Federal serão eleitos.
Não haverá segundo turno para o Senado. As duas vagas serão preenchidas no primeiro turno pelo sistema majoritário: os dois candidatos mais votados em cada unidade da Federação serão eleitos.
A importância dessa escolha também está no peso que o Senado possui no processo legislativo. A Casa participa da análise de projetos aprovados pela Câmara, podendo aprovar, modificar ou rejeitar propostas antes que elas sigam para sanção presidencial ou promulgação, nos casos previstos no processo legislativo.
Para entender o peso da escolha para o Senado, basta observar a tramitação do projeto que prevê o fim da escala 6×1. A proposta está parada na Casa, enquanto o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem pressionando a presidência do Senado para que a matéria avance e seja levada à votação.
Por isso, embora o Senado tenha 81 integrantes, a eleição deste ano definirá dois terços da Casa. Os 54 eleitos em 2026 se juntarão aos 27 senadores cujos mandatos não estarão em disputa neste pleito.
A influência das outras eleições
Para Paulo Roberto de Souza, existe historicamente uma relação entre as disputas presidenciais, estaduais e para o Senado.
O cientista político cita como exemplo as eleições de São Paulo entre 2010 e 2022, quando a distribuição dos votos para o Senado foi influenciada pelas disputas políticas mais amplas no estado e no país.
Em 2010, por exemplo, Marta Suplicy e Netinho de Paula apareciam entre os principais nomes da disputa ao Senado por São Paulo, mas, na apuração, Aloysio Nunes terminou como o candidato mais votado, seguido por Marta.
Para Souza, esse tipo de dinâmica ajuda a explicar por que pesquisas eleitorais podem não capturar integralmente o comportamento do eleitor diante da urna. Segundo ele, existe ainda um fator adicional. Uma parcela significativa do eleitorado não repete necessariamente no segundo voto para o Senado a mesma escolha feita no primeiro. “Há uma abstenção entre o primeiro e o segundo voto na casa dos 40%”, afirmou.
Esse comportamento torna a segunda escolha particularmente relevante para a disputa pelas duas vagas. O eleitor pode optar por candidaturas de partidos diferentes ou por nomes que não estejam necessariamente associados à mesma chapa ou projeto político.
Senado pode passar por mudança na composição
A eleição de 2026 também terá impacto sobre a correlação de forças dentro do Congresso Nacional. De acordo com Souza, o resultado poderá alterar a composição partidária do Senado e aumentar a presença de legendas com posições ideológicas mais marcadas.
O cientista político aponta, por exemplo, para a possibilidade de crescimento do PL na Casa, enquanto partidos do chamado Centrão e o PSD poderiam sofrer mudanças em suas bancadas. A avaliação, contudo, é uma projeção sobre o cenário eleitoral e não representa o resultado das urnas.
Souza considera que uma eventual mudança na composição do Senado pode produzir uma Casa com perfil político diferente daquele observado atualmente, enquanto a Câmara dos Deputados tende a manter características próprias de sua composição partidária.
Suplentes também fazem parte da escolha
Outro ponto que costuma passar despercebido é que o eleitor não escolhe apenas o titular da candidatura. Cada chapa ao Senado é formada pelo candidato titular e dois suplentes. Ao digitar o número de uma candidatura, a urna apresenta o nome e a fotografia do titular e também os nomes e fotos dos dois suplentes.
O eleitor não vota separadamente nos suplentes. Eles integram automaticamente a chapa escolhida e podem assumir o mandato em situações previstas na legislação.
Por isso, conhecer quem são os suplentes também faz parte da informação necessária antes da votação. Afinal, embora a campanha seja concentrada principalmente no titular, os suplentes podem ocupar a cadeira durante o mandato.
Como será a votação
Na urna eletrônica, a escolha para o Senado será a terceira e a quarta etapas da votação, depois dos votos para deputado federal e deputado estadual. Na sequência, o eleitor votará para governador e presidente da República.
O eleitor deverá:
- escolher um candidato ao Senado e digitar seus três números;
- conferir nome e fotografia apresentados na tela;
- confirmar o primeiro voto;
- escolher um segundo candidato diferente;
- digitar novamente os três números;
- conferir os dados e confirmar
Uma forma de evitar erros é levar uma anotação em papel com os números das candidaturas escolhidas. O celular não pode ser levado para a cabine de votação.
O desafio de escolher duas candidaturas
Para Souza, o cenário eleitoral de 2026 ainda é marcado por baixo engajamento do eleitorado. Ele cita uma pesquisa segundo a qual 76% dos brasileiros se sentem desmotivados com o processo eleitoral.
Na avaliação do cientista político, parte desse desânimo estaria relacionada à dificuldade das campanhas em apresentar perspectivas de futuro e ao excesso de polarização e ataques entre candidaturas.
“Falta rua nas campanhas. Nem a campanha de Lula está na rua, nem a do Flávio. E as campanhas para deputado não engajam para puxar votos para presidente”, afirmou.
Independentemente das disputas presidenciais, estaduais e para a Câmara, a eleição para o Senado terá uma dinâmica própria. O eleitor terá duas escolhas, e cada uma delas será contabilizada separadamente para definir quem ocupará as duas cadeiras destinadas ao estado.
Em 2026, os eleitos tomarão posse em 2027 e terão mandato de oito anos, com término previsto para 2035.
A orientação da Justiça Eleitoral e da Agência Senado é que o eleitor pesquise antecipadamente as candidaturas, conheça suas propostas, trajetórias e suplentes e vá à seção eleitoral com os dois números definidos.

