Desescalada

Xi e Trump buscam estabilizar relação, mas disputas estruturais persistem, diz professor chinês

Liu Baocheng avalia que acordos em comércio e inteligência artificial exigem mecanismos permanentes de diálogo

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Liu Baocheng, professor da Universidade de Negócios Internacionais e Economia da China (UIBE) e diretor do Centro de Ética Empresarial Internacional, durante entrevista ao Brasil de Fato em Pequim.
Liu Baocheng, professor da Universidade de Negócios Internacionais e Economia da China (UIBE) e diretor do Centro de Ética Empresarial Internacional, durante entrevista ao Brasil de Fato em Pequim. | Crédito: Bruno Falci / Brasil de Fato

A reunião entre o presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na última quinta-feira (24), em Washington, produziu novos acordos e mecanismos de diálogo, mas não eliminou as divergências estruturais entre as duas maiores economias do mundo. Para Liu Baocheng, professor da Universidade de Negócios Internacionais e Economia da China (UIBE), o principal desafio agora é transformar os compromissos alcançados em uma relação mais previsível e estável.

“Cooperação deve ser o elemento principal. A competição pode ser saudável para os dois lados, mas precisa ser devidamente protegida contra uma possível confrontação”, afirmou Liu.

Os dois lados reafirmaram o compromisso de construir uma relação “construtiva de estabilidade estratégica” e alcançaram novos entendimentos nas áreas comercial, de combate às drogas, inteligência artificial e comunicação militar. Também reafirmaram o apoio mútuo à realização da APEC e do G20, além de discutirem questões como Irã, Ucrânia e Península Coreana.

Na área comercial, China e Estados Unidos respaldaram os resultados das consultas entre suas equipes econômicas e comerciais, incluindo um arranjo de redução tarifária recíproca de US$ 30 bilhões. Os dois países também deram continuidade aos trabalhos sobre terras raras e minerais críticos e ao funcionamento dos mecanismos bilaterais de comércio e investimento.

Estabilidade, comércio e confiança

Segundo Liu, as negociações que levaram ao encontro de Washington se intensificaram após o anúncio das tarifas de Trump em abril de 2025. Desde então, foram realizadas cinco rodadas de conversas em diferentes partes do mundo, ampliando o consenso em torno de resultados considerados mais realistas e viáveis.

Entre os objetivos estavam consolidar a redução de tarifas, ampliar o acesso aos mercados e garantir maior estabilidade no fornecimento de terras raras e minerais críticos. Para o professor, porém, o desafio central ultrapassa as medidas comerciais. “Fundamentalmente, trata-se de reconstruir parte da confiança que estava faltando”, afirmou.

Para Liu, as empresas conseguem absorver determinados custos provocados por tarifas e outras restrições, mas têm muito mais dificuldade diante da imprevisibilidade. “[As empresas] temem é a volatilidade e as frequentes reversões de políticas”, explica

Essa imprevisibilidade, segundo ele, afeta decisões empresariais, investimentos, cadeias globais de produção, finanças, política monetária, intercâmbios acadêmicos e culturais, vistos e circulação de pessoas. Por isso, considera necessário estabelecer regras que permitam administrar as divergências antes que elas se transformem em novas medidas de retaliação.

“Estabilidade significa regras transparentes, com as diferenças colocadas sobre a mesa para diálogo e negociação.”

O professor defende a criação de mecanismos permanentes que substituam respostas emergenciais por canais regulares de negociação. “É muito importante saber se os dois lados podem realmente estabelecer uma estrutura institucional para evitar o combate de emergência — das restrições às retaliações — e, em vez disso, criar medidas preventivas para um diálogo regular, com uma agenda fixa.” Liu vê os novos Conselhos de Comércio e de Investimento como possíveis instrumentos para essa tarefa.

Segundo ele, mecanismos anteriores de diálogo econômico entre os dois países perderam força nos últimos anos. “Esses mecanismos costumavam ser mais eficazes, mas realmente esfriaram. Agora, há necessidade de um novo conjunto de salvaguardas institucionais.”

Para o professor, os dois países têm preocupações legítimas relacionadas à segurança nacional. O problema, segundo ele, surge quando essas preocupações ultrapassam determinados limites e acabam restringindo os ganhos que poderiam resultar da cooperação.

Liu também chama atenção para os efeitos da relação bilateral sobre o restante do mundo. “Questões globais exigem entendimento entre as duas superpotências para impedir a escalada de situações regionais e de confrontações geopolíticas.”

Nesse cenário, Liu destaca duas palavras para definir o que considera necessário para a relação bilateral: estabilidade e continuidade. Ele lembra que, durante a visita de Trump à China, em maio de 2026, os dois presidentes já haviam concordado em construir uma relação de estabilidade estratégica.

“A continuidade do engajamento estratégico beneficia agricultores, empresários e consumidores dos Estados Unidos.”

Para o professor, mudanças bruscas nas tarifas e em outras restrições podem atingir a economia como um todo. A manutenção do diálogo exigiria, portanto, disposição política dos dois lados e uma visão de longo prazo.

Competição e inteligência artificial

A inteligência artificial ocupou uma parte importante das discussões entre Xi e Trump. Os dois países concordaram em estabelecer um diálogo sobre IA e um canal bilateral de comunicação para incidentes relacionados à tecnologia.

Para Liu, a tecnologia pode transformar profundamente a economia e a sociedade, mas também apresenta riscos que exigem cooperação internacional.

“A IA é realmente um divisor de águas e está aqui para abrir uma série de perspectivas transformadoras para todas as pessoas deste planeta”, afirmou. “Mas existem preocupações sobre se a IA será usada de maneira indevida.”

Segundo o professor, Estados Unidos e China ocupam “uma posição de liderança, embora tenham vantagens diferentes na fronteira tecnológica”.

Na avaliação de Liu, os Estados Unidos possuem vantagens em pesquisa científica básica e avanços de ponta, enquanto a China apresenta capacidade de adoção rápida e aplicação de inovações em larga escala. Essa complementaridade, afirma, pode abrir espaço para cooperação.

“Há, portanto, uma boa razão para os dois lados trabalharem juntos, combinando suas respectivas vantagens.”

Liu considera que a competição tecnológica também pode produzir efeitos positivos quando não evolui para confronto. “Competir pode impulsionar o avanço tecnológico e a eficiência.”

No campo da IA, o professor defende regras para impedir usos militares destrutivos e formas de concentração econômica e tecnológica. Ele alerta que o controle de ferramentas extremamente poderosas por um pequeno número de países ou grupos poderia ampliar desigualdades já existentes.

“Não se trata apenas de tecnologia de código aberto. É preciso também desenvolver capacidades por meio de programas de assistência e colaboração.”

Liu considera que esse esforço deve incluir especialmente os países do Sul Global. Para ele, o desenvolvimento desigual das capacidades de inteligência artificial poderia criar uma nova divisão internacional, na qual poucos países concentrariam as tecnologias mais avançadas.

“Precisamos evitar uma lacuna de inteligência”, afirmou Liu, referindo-se ao risco de uma divisão tecnológica entre países com capacidade de desenvolver e controlar sistemas avançados de IA e aqueles que permaneceriam dependentes dessas tecnologias. “Se apenas algumas nações controlarem tecnologias tão poderosas, isso será injusto e poderá criar problemas no futuro.”

O professor resume sua preocupação com uma ideia mais ampla: “A civilização humana precisa ser compartilhada por toda a humanidade.”

A confiança também aparece como um obstáculo no desenvolvimento tecnológico. Liu cita suspeitas existentes nos dois lados sobre segurança de equipamentos e proteção de dados. Veículos elétricos e equipamentos chineses, como guindastes, podem ser alvo de preocupações sobre possíveis mecanismos ocultos de acesso, enquanto empresas norte-americanas que atuam na China também enfrentam questionamentos relacionados à coleta de dados.

Para Liu, esses episódios mostram que a confiança tecnológica precisa ser acompanhada de transparência e mecanismos de responsabilização, sobretudo à medida que tecnologias avançadas passam a integrar mercados e cadeias produtivas internacionais.

As diferenças entre Washington e Pequim, entretanto, continuam abrangendo temas que vão além do comércio e da tecnologia. Durante a reunião, Xi pediu que os Estados Unidos se oponham à chamada “independência de Taiwan” e tratem a questão com cautela. Os dois presidentes também discutiram o Oriente Médio, a Ucrânia e a Península Coreana.

Para Liu, os mecanismos criados pelos dois governos são importantes justamente porque as divergências não desaparecerão. O objetivo seria impedir que cada novo conflito provoque uma escalada na relação bilateral.

“A chave é estabilidade e continuidade, que podem ajudar a impedir que a relação escale para um confronto.”

O professor espera que o encontro de Washington seja utilizado como ponto de partida para uma relação capaz de administrar suas diferenças por meio de canais permanentes de negociação.

“Espero que essa reunião estabeleça uma pedra fundamental para navegar pela complexidade, tanto doméstica quanto global.”

Editado por: Gia Matheus Almeida

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