Resistência

‘Nosso lugar de expressão artística’, defendem estudantes em ação coletiva em muro da UnB, após ataques da extrema direita

Mobilização nesta terça-feira respondeu com cores e grafites a ação do candidato a deputado federal Wilker Leão (Novo)

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Mobilização de estudantes da UnB repintou muros do Departamento de Artes Visuais após ataque de extrema direita
Mobilização de estudantes da UnB repintou muros do Departamento de Artes Visuais após ataque de extrema direita | Crédito: Ana Gonçalves/BdF DF

Pela segunda vez em um intervalo de um mês, estudantes do Instituto de Artes (IdA) da Universidade de Brasília (UnB) se mobilizaram para repintar os muros do departamento após um novo ataque do candidato de extrema direita a deputado federal Wilker Leão (Novo), que apagou as manifestações artísticas do espaço. Nesta terça-feira (29), estudantes de diversos cursos participaram do que chamaram de “pintasso”, para devolver as cores ao muro que havia sido tingido de branco. Leão foi preso em flagrante no domingo (27) após pintar, sem autorização, o prédio do IdA.

“Estamos aqui para mostrar para eles que a gente não vai ter medo. Não é só eles chegarem aqui com violência e insultando todo mundo que a gente vai arregar. Nós, estudantes de Artes, vamos continuar resistindo, vamos continuar reivindicando as nossas paredes, que são a cultura do departamento”, destacou Marie de Queiroga, presidente do Centro Acadêmico de Artes Visuais (Cavis/UnB).

A estudante também destacou que as universidades públicas são espaços de ensino e de pesquisa e que as paredes do departamento mostram exatamente isso. “São o nosso lugar de expressão e temos uma autorização da Reitoria para trabalhar e usar esse espaço. Grafite é arte e a gente está aqui para consolidar isso”, destacou Queiroga.

Estudante de Ciências Ambientais, Rodrigo Pirani participou da mobilização em apoio aos estudantes do departamento de Artes Visuais. “É super válido que os alunos realmente ocupem, porque a universidade é de todos os alunos, não só de Artes Visuais. Acho que é importante que todo mundo da UnB consiga entender isso e apoiar esse movimento, porque ele é completamente válido e o pessoal está aqui realmente só reivindicando seus direitos”, destacou.

Muros do Departamento de Artes Visuais foram novamente ocupados com desenhos dos estudantes
Muros do Departamento de Artes Visuais da UnB foram novamente ocupados com desenhos | Crédito: Ana Gonçalves/BdF DF

Ainda no domingo (27), após a prisão de Leão, apoiadores do candidato também agrediram estudantes que estavam no local em defesa do departamento com socos e chutes. “Estudantes sofreram ferimentos, foram agredidos fisicamente e levados ao Instituto Médico Legal para exame de corpo delito, e foram acompanhados por pessoas da gestão, que prestaram toda a assistência necessária nesse momento”, informou a reitora da UnB, Rozana Naves, em vídeo divulgado nas redes sociais.

“Essas ações ocorreram no domingo, com a universidade esvaziada e desmobilizada. Isso mostra a covardia desses grupos de extrema direita que atacam a universidade e não se propõem ao debate qualificado”, diz em outro trecho.

Estudante de Artes Visuais da UnB, Akim Borges relatou que sofreu agressões físicas e ofensas racistas. Segundo ele, foram registrados boletins de ocorrência e realizados exames de corpo de delito. “É extremamente decepcionante perceber que a gente está em 2026 passando por uma realidade assim, na qual a arte e a cultura seguem sendo desrespeitadas e invalidadas por grande parte da sociedade que se considera de extrema direita”, apontou.

Akim também observou que a discussão não envolve apenas se a parede está branca ou colorida, mas um processo histórico de manifestações. “Sobre as paredes estarem brancas ou coloridas, isso é extremamente indiferente. É muito mais sobre a manifestação artística de estudantes de artes. Você não vai chegar num Departamento de Música e pedir para a galera parar de tocar. Então, por que vocês estão chegando no nosso Departamento de Artes Visuais e falando para a gente parar de expressar nossas artes visuais? Isso não faz nenhum sentido”, aponta.

Mobilização para cobrir de arte os muros da UnB reuniu estudantes de diversos cursos
Mobilização para cobrir de arte os muros da UnB reuniu estudantes de diversos cursos | Crédito: Ana Gonçalves/BdF DF

Em defesa da arte

Segundo a presidente do Cavis da UnB, as paredes do IdA são pintadas desde a década de 1980, mas, a partir de 2019, houve o reconhecimento institucional do grafite como parte da cultura do departamento, encerrando a prática de apagamento.

“Essas paredes são os nossos objetos de estudo, o lugar onde os alunos usam para se expressar diariamente. Tem instalação nas paredes, colam lambe, fotografia, fazem exposições, porque elas são exatamente isso, muito mais do que só paredes, são nossa casa, nosso quadro branco que a gente pode vir aqui todos os dias e aumentar e dispersar a cultura dentro do departamento”, destaca Marie de Queiroga.

Para a estudante de Letras Sara de Souza, que também participou da mobilização de repintar as paredes do IdA, a ação da extrema direita ataca a soberania e autonomia da universidade. “Me chocou e tem me chocado esses ataques que a universidade vem recebendo. Quando pintam uma parede de branco, é uma demonstração de uma ideia higienista, de que é sujo, sendo que esse é um instituto voltado para a expressão artística. E sabemos que, quando rola essa coisa mais fascista, a primeira coisa que é atacada é a cultura, é a expressão, porque é justamente como a gente alerta as pessoas, como leva à reflexão”, argumentou.

Souza caracterizou o ato como uma reação para mostrar a importância e o valor da arte, para que ataques não sejam tolerados. “E espero também que a administração da UnB, a reitoria, garantam a soberania da universidade e tenham atitudes efetivas contra esse tipo de ataque”.

Ação devolveu grafites, desenhos e diferentes manifestações artísticas aos muros da UnB
Ação devolveu diferentes formas de expressão artística aos muros do departamento | Crédito: Ana Gonçalves/BdF DF

Ataques são recorrentes

Em nota divulgada no domingo (27), a Universidade de Brasília repudiou os atos de violência. “Os acontecimentos deste domingo revelam que os métodos adotados pela extrema direita, além de ilegais, são covardes, porque só se viabilizam na impossibilidade do debate qualificado. Por isso, a união da comunidade em defesa da Universidade é tão importante”, diz um trecho do documento.

A Universidade informou ainda que “adotará as medidas administrativas e judiciais cabíveis para a responsabilização dos envolvidos e para que episódios dessa natureza não se repitam”. “É inadmissível que pessoas externas à nossa comunidade façam intervenções no patrimônio público sem autorização expressa da gestão ou da própria comunidade”, destacou a reitora em vídeo.

O Brasil de Fato DF solicitou um posicionamento de Wilker Leão, por e-mail, para comentar sobre a prisão, mas não houve retorno.

Essa não é a primeira vez que a universidade sofre ataques da extrema direita. Em outras ações, os grupos extremistas incitam violência no campus, pintam paredes sem autorização ou, por exemplo, fazem manifestações em apoio aos ataques genocidas de Israel contra o povo palestino. A mais recente ocorreu em 26 de agosto, quando uma outra ação de Leão e seus apoiadores também tentou pintar de branco os muros do IdA. No entanto, a ação foi frustrada quando um grupo de professores decidiu pintar de branco as paredes antes da chegada do grupo. Novamente os estudantes se reuniram e repintaram o muro no dia 27 de agosto.

Para Alice Paulino, coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes da UnB (DCE), os ataques contra a UnB se intensificaram desde o ano passado. “Esvaziam completamente o discurso, falam que a UnB é território de vagabundo, de maconheiro, porque eles estão tentando vender uma ideia de que a educação pública não é educação de qualidade”, observou em entrevista ao Brasil de Fato DF em agosto.

Estudantes da UnB defenderam a arte como forma de resistência contra o fascismo e a extrema direita
Estudantes da UnB defenderam a arte como forma de resistência contra o fascismo e a extrema direita | Crédito: Ana Gonçalves/BdF DF

Segundo ela, o objetivo dessas pessoas é vender a ideia de que a educação pública não tem qualidade para tentar acabar com a existência das universidades. “É justamente a mesma tática que eles usam em todos os espaços, que é ir a algum lugar, provocar o estudante, para depois fazer corte na internet, para tentar induzir as pessoas a acreditarem no discurso deles, com esse método de atacar as instituições públicas”, frisou Paulino.

“Nos últimos dois anos, a extrema direita viu os grafites, as artes no nosso muro, como uma afronta ao que eles acreditam. Eles pegam as nossas artes e nos taxam como vagabundos e criam toda essa narrativa. Já tivemos quatro ataques nesses últimos dois meses nas nossas paredes, pintaram de branco e nós pintamos de novo, foram pintadas de branco e pintamos de novo”, ressalta Marie de Queiroga.


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Editado por: Clivia Mesquita

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