APOSTAS ONLINE

Proibição das bets reacende alerta sobre dependência, endividamento e saúde mental

Em episódio do De Fato, psicólogo Adams Friedemann explicou como plataformas capturam jogadores e ampliam danos sociais

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Movimentos fazem manifestações contra as bets
Movimentos fazem manifestações contra as bets | Crédito: MTST

Três meses depois de o De Fato, podcast do Brasil de Fato RS, discutir os impactos das bets sobre a saúde mental, a renda e as relações sociais, o tema ganhou um novo capítulo no país. Na sexta-feira (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou uma medida provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil.

As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas em 2018, no governo Michel Temer (MDB), e se expandiram durante o governo Jair Bolsonaro (PL). Em 2023, já no governo Lula, uma nova lei incluiu os jogos online na modalidade e atribuiu ao Ministério da Fazenda a regulamentação e a fiscalização do setor. O mercado regulado começou a funcionar em 2025.

Com a proibição, a partir de 6 de outubro, sites e aplicativos das bets deverão sair do ar. O governo federal justifica a medida pelo interesse público e pelo avanço das apostas como problema de saúde pública, associado a endividamento, perda de controle, ansiedade, depressão, conflitos familiares e prejuízos às relações pessoais e profissionais.

De Fato debate dependência e perda de controle

No episódio exibido em junho, o psicólogo e psicoterapeuta Adams Friedemann explicou como a disponibilidade permanente dos jogos no celular e as recompensas quase imediatas podem favorecer a dependência provocada pelas apostas.

Friedemann alertou que a dependência pode comprometer a própria capacidade de decidir livremente. “Ela não consegue ter os mecanismos psicológicos para decidir o que é melhor para ela. Ela vai necessariamente indo para aquela armadilha daquilo que tá puxando a atenção e capturando o sistema de recompensa”, afirmou.

Segundo o psicólogo, nesse estágio, “não existe de fato ali uma liberdade da pessoa de conseguir fazer conscientemente aquela escolha; ela já tá capturada”.

Dados do Ministério da Saúde ajudam a dimensionar o problema. Em 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores à pesquisa, e 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo de risco ou problemático. O risco de dependência é três vezes maior entre pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica e 150% maior entre jogadores online.

Entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas no SUS cresceram cerca de 140%, segundo o Ministério.

Custo social das apostas

No podcast, Friedemann também questionou se a arrecadação gerada pelas plataformas poderia compensar os impactos provocados pelas apostas. “Será que o recolhimento de imposto sobre as bets não vai ser inferior ao tratamento que depois é preciso realizar para recuperar as pessoas que acabaram entrando numa coisa patológica?”

Segundo o psicólogo, o impacto não se restringe aos gastos com saúde, mas pode alcançar também a previdência social, caso pessoas afetadas pela dependência percam condições de sustentar a si mesmas e as famílias e “precisem de apoio financeiro do governo”.

Um estudo citado pelo Ministério da Saúde estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social associado aos jogos no Brasil. Desse total, R$ 30,6 bilhões, quase 79%, estão relacionados à saúde, incluindo tratamentos médicos, suicídios e perda de qualidade de vida associada à depressão.

“É uma coisa sistêmica em que uma coisa puxa e alimenta a outra”, resumiu Friedemann.

Os impactos ultrapassam quem aposta. Assista novamente a este episódio do De Fato e relembre os argumentos apresentados no debate sobre o fim das bets. A edição aborda temas como as consequências da dependência para as famílias, o papel da publicidade e dos influenciadores digitais, a vulnerabilidade social e as formas de tratamento.

Editado por: Marcelo Ferreira

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