A cinco dias do primeiro turno das eleições, os quatro candidatos ao governo do Rio Grande do Sul participaram, na noite desta terça-feira (29), do debate eleitoral promovido pela RBS TV.
Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL), Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB) apresentaram propostas e trocaram críticas sobre educação, segurança pública, reconstrução após as enchentes, economia, agricultura, saúde e infraestrutura. Mediado pelo jornalista Elói Zorzetto, o debate teve duas horas de duração e foi dividido em quatro blocos.
Na pesquisa Quaest divulgada na última quinta-feira (24), Luciano Zucco (PL) aparece numericamente à frente na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul, com 29% das intenções de voto, seguido por Juliana Brizola (PDT), com 23%. Os dois estão tecnicamente empatados dentro da margem de erro de três pontos percentuais. Gabriel Souza (MDB) tem 10% e Marcelo Maranata (PSDB), 3%.
Priscila Voigt (UP) e Rejane de Oliveira (PSTU) registram 1% cada, enquanto Cesar Pontes (PCO) não pontuou. Os três não participaram do debate. Outros 25% dos entrevistados estão indecisos e 8% afirmam votar em branco ou nulo.
Educação: escolas cívico-militares e ensino em tempo integral
No primeiro bloco, Luciano Zucco questionou Juliana Brizola sobre seu voto favorável ao modelo de escolas cívico-militares. O candidato perguntou se, diante da discussão entre alunos e ideologia, ela ficaria “com os alunos ou com o PT”.
Brizola explicou que votou a favor por entender que o modelo seria semelhante ao das escolas militares tradicionais, como o Colégio Militar e o Colégio Tiradentes, em Porto Alegre. Segundo ela, a proposta defendida por Zucco é diferente por levar questões ideológicas para dentro das escolas. “Eu acho que a escola tem que ser laica, tem que absorver tudo que é tipo de ideologia.”
A candidata defendeu o ensino em tempo integral e lembrou que é autora de uma proposta de emenda à Constituição estadual que prevê a oferta dessa modalidade pela rede estadual. “Não é a escola do meu avô Brizola. Essa é a escola dos países desenvolvidos. E é essa escola que nós vamos colocar aqui no Rio Grande do Sul”, declarou.
Zucco defendeu o modelo cívico-militar e o ensino em tempo integral. Citou experiências em Gravataí, Tupanciretã e Santa Rosa e afirmou que a proposta mantém a mesma grade curricular, mas modifica o ambiente escolar, com foco em meritocracia, autoestima e respeito aos professores.
Na réplica, Brizola defendeu que a educação seja uma política de Estado, com continuidade entre governos e participação da comunidade escolar. “Entre um governador, é a favor da escola de tempo integral, investe. Entre o outro, desfaz tudo. Nós temos que tirar as bandeiras ideológicas da educação”, afirmou.
A candidata também criticou a situação dos profissionais da educação. “Infelizmente, eles estão com as suas carreiras sucateadas. Aqui nesse Estado, ninguém mais quer ser professor”, disse. Segundo ela, 62% dos professores estão em contratos emergenciais.
Segurança pública, saúde mental e feminicídio
Na sequência, Brizola questionou Zucco sobre a saúde mental dos servidores da Segurança Pública. Ela afirmou que policiais estão morrendo mais por suicídio do que em combate e defendeu medidas de acolhimento e valorização das categorias. “O Estado tem obrigação de cuidar de quem cuida de nós. Se a gente não cuida de quem cuida de nós, como é que eles vão cuidar de nós?”, questionou.
A candidata propôs retirar os centros de atendimento psicológico de dentro das instituições, como a Brigada Militar e a Polícia Civil, para que os servidores se sintam mais à vontade para buscar ajuda. “Não vamos ter segurança pública sem servidor bem pago, valorizado.”
Zucco respondeu destacando a necessidade de valorização dos servidores, concursos públicos regulares e diálogo permanente com as entidades. Também defendeu o combate às facções criminosas, com isolamento das lideranças e separação dos presos por periculosidade.
Ao abordar a segurança, o candidato também destacou o combate ao feminicídio e defendeu “tolerância zero” contra agressores. Segundo Zucco, o tema deve ser tratado diretamente pelo governo e pela área de segurança.

Polarização e violência contra as mulheres
Marcelo Maranata questionou Gabriel Souza sobre a polarização política nacional e o distanciamento da população em relação à política.
Souza defendeu que a eleição estadual fosse concentrada nos problemas do Rio Grande do Sul. Ele citou programas do governo, como o Devolve ICMS, o Teacolhe, o Ser Mulher e o SUS Gaúcho.
Maranata afirmou que muitas famílias enfrentam dificuldades financeiras e que mulheres sustentam sozinhas suas casas. O candidato também falou do aumento do número de crianças atendidas por serviços voltados ao autismo em seu município. “Está difícil ser gaúcho, as pessoas endividadas não conseguem sustentar sua casa.”
Na sequência, Souza abordou o combate aos feminicídios. Segundo ele, o Rio Grande do Sul não estaria entre os estados com maior número de casos, mas declarou que não aceita nenhuma morte de mulher por essa razão.
Conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Rio Grande do Sul ficou em 7º lugar no país em número absoluto de feminicídios em 2025. O estado registrou 80 vítimas, contra 73 em 2024, aumento de aproximadamente 9,5%.
Souza disse que pretende apresentar uma política pública de combate à violência doméstica e que deseja chegar ao segundo turno para discutir suas propostas para a área.
Dívida pública e desenvolvimento econômico
No segundo bloco, Maranata questionou Zucco sobre a situação financeira do estado e o déficit orçamentário. Zucco criticou a política fiscal do governo Eduardo Leite e afirmou que, apesar do discurso de equilíbrio das contas, a dívida estadual teria passado de R$ 65 bilhões ou R$ 70 bilhões para mais de R$ 100 bilhões.
O candidato defendeu uma agenda de crescimento econômico e a renegociação da dívida com a União. Também propôs a criação de um fundo constitucional para a região Sul.
Maranata defendeu a redução de despesas dos Três Poderes e um plano de desenvolvimento baseado na produção de energia, no agronegócio, em biocombustíveis e no incentivo ao empreendedorismo.
Reconstrução após as enchentes
A reconstrução após as enchentes de 2024 foi um dos principais pontos de confronto entre Brizola e Souza. O vice-governador afirmou que o estado executa o maior plano de preparação climática da história do Brasil, com mais de R$ 20 bilhões vinculados ao Plano Rio Grande e 240 ações em andamento.
Brizola, por sua vez, destacou o medo que permanece entre moradores após os eventos climáticos recentes e cobrou protocolos claros para situações de emergência. “As pessoas não sabem se saem, se não saem”, disse, defendendo protocolos específicos para diferentes regiões e um sistema de monitoramento e alerta que funcione.
Souza citou obras em diques de Canoas e Porto Alegre, a construção de uma nova ponte no Vale do Taquari e ações de proteção na região do aeroporto Salgado Filho. Ele também afirmou que o governo ampliou a Defesa Civil e estabeleceu protocolos com praticamente todos os 497 municípios gaúchos.
Brizola afirmou que o estado recebeu R$ 6 bilhões do governo federal para a reconstrução e criticou a demora na utilização dos recursos, também defendeu a criação de protocolos específicos para orientar a população em caso de novos eventos extremos. “Eu, como governadora, jamais vou deixar R$ 6 bilhões parado numa conta, sendo que o Rio Grande do Sul precisa de tantas coisas”, declarou.
A candidata reconheceu que obras estruturantes são complexas, mas criticou a falta de projetos, citando o dique de Eldorado do Sul. “Não ter um projeto em dois anos, isso eu não consigo aceitar.”
Maranata também criticou a demora. Ele disse que projetos de prevenção já estavam disponíveis na Metroplan e poderiam ser atualizados para acelerar os processos de licitação. Segundo ele, a experiência de Canoas mostrou que seria possível avançar mais rapidamente.
Agronegócio e agricultura familiar
Maranata afirmou que o agronegócio representa cerca de 40% da produção do estado e defendeu medidas para enfrentar o endividamento dos agricultores.
O candidato propôs que o Banrisul, que segundo ele teve lucro de R$ 3 bilhões, atue como fundo garantidor para facilitar o acesso dos produtores a crédito com juros menores. Também defendeu a renegociação das dívidas rurais e o incentivo à produção de biocombustíveis a partir de grãos.
Brizola destacou a importância da agricultura familiar e afirmou que ela é responsável por mais de 80% dos alimentos consumidos pelos gaúchos e gaúchas. “No nosso governo isso vai ser prioridade. A fomentação da agricultura familiar. Agora, é certo que no nosso governo ninguém vai ficar pra trás. Nem pequeno, nem médio, nem grande.” Ela defendeu o incentivo às agroindústrias e a agregação de valor à produção. “Precisamos de um plano que seja com muita continuidade, um plano de Estado com continuidade contra as secas, com a irrigação.”
A candidata também defendeu maior articulação política com Brasília para buscar recursos e investimentos para o estado, independentemente de quem ocupe a Presidência da República.
Saúde pública
Souza apresentou ações do governo estadual para reorganizar o sistema hospitalar e ampliar serviços. Ele citou investimentos em hemodiálise em Santa Vitória do Palmar e Três Passos, além da ampliação de serviços de oncologia, tomografia e ressonância magnética.
O candidato afirmou que pretende zerar as filas do SUS no primeiro ano de seu governo, por meio do SUS Gaúcho, e prometeu investir R$ 5 bilhões no programa ao longo da gestão.
Por sua vez Zucco apontou que 853 mil gaúchos aguardam exames, consultas ou cirurgias. “O tempo não é do Estado. O tempo é do paciente”. Ele defendeu a manutenção do SUS Gaúcho, o fortalecimento dos postos de saúde e a ampliação da telemedicina.
Articulação com Brasília e polarização
No terceiro bloco, Souza questionou Brizola sobre a coligação de oito partidos que sustenta sua candidatura, incluindo o PT, e perguntou sobre sua avaliação dos governos de Olívio Dutra e Tarso Genro em comparação com as gestões de Eduardo Leite.
Brizola afirmou que não pretende levar a polarização nacional para o Rio Grande do Sul, mas defendeu uma relação mais próxima com o governo federal. “Eu não quero trazer a guerra de Brasília para o Rio Grande do Sul, mas eu quero fazer as pazes com Brasília”, declarou.
A candidata afirmou que já conversou com o presidente da República e que ele teria garantido a prorrogação do fundo de recuperação do estado. Brizola também criticou Souza por, segundo ela, deslocar o debate das propostas para questões relacionadas à coligação. “Eu não trabalho olhando para trás, porque eu não quero achar culpados. (…) As pessoas querem resolver.”
A candidata disse ainda que a atual gestão teve 12 anos para avançar em áreas que agora Souza promete melhorar caso seja eleito.
Educação, aprovação escolar e PEC da Blindagem
Ainda no terceiro bloco, Zucco criticou a política de aprovação de estudantes que apresentam dificuldades em até quatro disciplinas. Segundo ele, a medida não vem acompanhada de estrutura adequada de reforço escolar.
O candidato defendeu um pacto com os municípios para melhorar a alfabetização, a ampliação do ensino em tempo integral e a oferta de cursos técnicos e profissionalizantes. Ele também afirmou que pretende ouvir professores e diretores sobre o ambiente escolar, a saúde mental e as condições de trabalho.
Maranata, ao abordar a reconstrução, afirmou que a experiência de quem viveu a tragédia em Canoas e acolheu moradores de Eldorado do Sul dá dimensão da urgência das obras. Ele defendeu a atualização de projetos existentes e a aceleração das licitações.
Brizola voltou a criticar a demora na elaboração dos projetos e afirmou que a ausência de planejamento compromete a proteção da população.
Zucco indagou Gabriel Souza sobre erros da atual gestão. Souza destacou as dificuldades financeiras do estado, mas que mesmo assim se conseguiu avançar. Por sua vez o vice-governador questionou Zucco sobre ele ter votado a favor da PEC da Blindagem.
“Quero que tu reconheça que tu errou em votar a favor da PEC da Blindagem, uma proposta que botaria na Constituição que pro parlamentar ser investigado e processado, ele teria que ter autorização dos seus colegas deputados para ele ser preso em flagrante. Nós estamos governando o estado, temos divergências, sem nenhum escândalo de corrupção.” Zucco respondeu que Souza não admite erros e que a PEC foi arquivada e acusou o Supremo Tribunal Federal (STF) de perseguir políticos de direita.
Salários dos professores e estrutura das escolas
No último bloco, Brizola questionou Zucco sobre a valorização dos profissionais da educação e os salários do magistério. A candidata afirmou que professores aposentados, após mais de 30 anos de trabalho, recebem remunerações insuficientes e criticou a precarização dos vínculos na rede estadual.
Zucco defendeu a valorização dos professores, merendeiras e monitores e afirmou que pretende dialogar com as categorias sobre salários e condições de trabalho. Ele também voltou a defender o modelo cívico-militar e criticou a aprovação de estudantes com dificuldades em várias disciplinas.
Brizola afirmou que a rede estadual enfrenta problemas estruturais, como falta de laboratórios, bibliotecas e quadras esportivas, além de problemas de iluminação. A candidata criticou o excesso de tarefas burocráticas atribuídas aos professores e afirmou que muitos recorrem a empréstimos consignados para complementar a renda.
“Os nossos professores estão dando tudo o que eles podem. Eles estão endividados no Banrisul, fazendo consignado em cima de consignado (…) “Eu aprendi dentro de casa que educação forte, professor bem valorizado é, sim, Estado economicamente desenvolvido.”
Pedágios e concessões rodoviárias
No encerramento, Zucco questionou Brizola sobre o modelo de concessões rodoviárias e os valores dos pedágios.
Brizola afirmou que faltou diálogo com as comunidades e criticou a falta de segurança jurídica nas concessões. Também questionou os aumentos das tarifas e a demora nos investimentos. A candidata criticou ainda a falta de clareza na implantação do sistema free flow, afirmando que mais de um milhão de multas foram suspensas.
Ela defendeu a fiscalização dos contratos e afirmou que o estado precisa investir também em ferrovias e hidrovias para melhorar a logística e reduzir a dependência das rodovias. “Não somos contra concessões, mas elas têm que ser bem feitas e elas têm que ser boas para a população.”
A candidata defendeu ainda a atuação conjunta dos setores público e privado e afirmou que desenvolvimento econômico e proteção ambiental podem caminhar juntos.
Considerações finais
Nas considerações finais, Zucco apresentou sua candidata a vice-governadora, Silvana Covatti, e defendeu os candidatos ao Senado de sua chapa. O candidato afirmou que pretende promover uma “mudança responsável”, com redução de cargos de confiança e revisão de contratos. Ele também voltou a criticar a atual gestão e a aproximação de Juliana Brizola com o PT e o governo federal. “Eu não quero viver em outro estado, eu quero sim viver em outro Rio Grande.”
Marcelo Maranata afirmou representar eleitores que, segundo ele, não se identificam com Bolsonaro, Lula ou Eduardo Leite. Defendeu sua experiência como prefeito e empresário e afirmou que pretende priorizar áreas como saúde e empreendedorismo. “Eu quero ser não só governador, quero ser o melhor governador do estado do Rio Grande do Sul, para a honra e para a glória do nosso Senhor Jesus.”
Gabriel Souza destacou a situação fiscal enfrentada pelo estado no início da atual gestão e afirmou que houve avanços na organização das contas públicas e na execução de obras. Dirigindo-se aos eleitores indecisos, ele pediu uma oportunidade de chegar ao segundo turno e defendeu a continuidade das políticas implementadas durante o governo Eduardo Leite. “Eu acredito também que pode mais. E quando podia menos, a gente conseguiu fazer com que o estado voltasse a ficar de pé.”
Por fim, Juliana Brizola destacou a frente formada por oito partidos e apresentou três razões para sua candidatura: sua formação e trajetória política, a disposição para dialogar com diferentes setores e um projeto voltado à redução das filas na saúde, à recuperação da qualidade da educação e ao crescimento econômico e social do estado. “Eu faço questão de sentar com quem pensa diferente, porque assim a gente chega numa convergência. E é isso que o nosso estado está precisando”, afirmou. Ao final, Brizola pediu votos para sua candidatura e concluiu: “No dia 4 de outubro, vote numa mulher”.

