Entre outubro e dezembro deste ano, o Rio Grande do Sul pode registrar volumes de chuva acima da média histórica para o período, em decorrência principalmente do El Niño.
Diante da previsão e dos riscos associados ao fenômeno climático, a Superintendência do Ministério do Desenvolvimento Agrário do Estado (MDA/RS) lançou uma cartilha de enfrentamento e mitigação de riscos para agricultores familiares gaúchos.
O material, que pode ser acessado no link, reúne orientações básicas para a preparação e segurança das famílias agricultoras, proteção da produção e encaminhamento de demandas em períodos de chuvas intensas, alagamentos e outros eventos associados ao El Niño.
O guia reúne orientações para antes, durante e depois dos eventos climáticos, com recomendações sobre cuidados com o solo, as lavouras e demais áreas produtivas; manejo e proteção dos animais; segurança das famílias; e registro e acompanhamento dos impactos após os eventos.
As orientações também são apresentadas em checklists rápidos, que podem ser consultados durante situações de emergência e adaptados à realidade de cada propriedade e comunidade.
O superintendente do MDA/RS, Milton Bernardes, explica que a principal preocupação não é apenas o aumento das chuvas, mas a combinação de eventos frequentes, tempestades severas e o pouco tempo para as propriedades se recuperarem entre um episódio e outro.
“Para a agricultura familiar, o risco climático rapidamente se transforma em risco econômico: a produção pode ser perdida, mas as despesas permanecem. Quando os eventos se repetem, podem comprometer o patrimônio e até a permanência das famílias no campo”, explica o agrônomo.
A cartilha foi desenvolvida para reunir as informações técnicas existentes, de fontes oficiais como Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e Defesa Civil, de forma prática, organizada, em uma linguagem simples e que chegasse aos agricultores no momento necessário.
Alertas devem chegar a tempo
Para o jornalista Alexandre Cruz, jornalista responsável pela concepção e elaboração da cartilha na Comunicação da Superintendência do MDA/RS, o material nasceu da constatação de que as informações práticas existiam, mas que estavam dispersas entre os diferentes órgãos. “Um alerta só cumpre sua função quando chega a tempo, é compreendido e se transforma em decisão”, conclui.
Além das famílias acompanharem os alertas por meio dos canais oficiais, o guia também orienta que busquem informações por meio de rádios e organizações locais, que muitas vezes são as únicas redes de comunicação capazes de traduzir os avisos para a realidade de cada comunidade e ampliar o acesso às orientações de prevenção.
Segundo Bernardes, as experiências dos últimos anos, como as enchentes de 2024 que afetaram mais de 200 mil propriedades rurais no estado, ensinaram que a preparação não pode começar quando o alerta já foi emitido. É necessário integrar permanentemente as propriedades, as comunidades e as políticas públicas.
“Aprendemos que a informação precisa chegar antes e ser convertida em providências concretas. Resiliência não é apenas reconstruir rapidamente depois da catástrofe. É reduzir as perdas quando o evento ocorrer e permitir que a família continue produzindo. Essa é uma responsabilidade coletiva”, afirma.
Os eventos climáticos extremos também não produzem os mesmos danos para todas as famílias. “Há situações em que moradia, produção e alimentação familiar estão concentradas no mesmo espaço. Uma única enchente pode ameaçar simultaneamente a vida, a renda e a segurança alimentar das famílias”, explica Bernardes.
Para o agrônomo, a prevenção não pode ser tratada somente como responsabilidade individual, mas exige políticas públicas, infraestrutura e presença permanente do Estado nos territórios.

