FavelAldeia

Indígenas se organizam por justiça socioambiental em ‘favela de cimento armado’ no Rio

Na casa de Bambas, memória, cultura e educação fortalecem pertencimento e ação comunitária

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Mestre Jagunço conduz a Casa de Bambas em Cordovil, no Rio de Janeiro
Mestre Jagunço conduz a Casa de Bambas em Cordovil, no Rio de Janeiro | Crédito: Isabella Kariri/@bellakariri

Na Casa de Bambas, na Cidade Alta, cada árvore plantada leva o nome de uma criança, e é em torno desse gesto que um centro cultural indígena resiste dentro de um dos conjuntos habitacionais mais marcados por remoções na história do Rio de Janeiro. A prática, que Mestre Jagunço, indígena Xokó natural de Sergipe, aprendeu como forma de demarcar território em sua aldeia, ganhou outro sentido em Cordovil, na zona norte carioca. 

Jagunço conduz a Casa ao lado da esposa, Janaína, indígena Puri nascida na região. Da porta para fora, o casal é conhecido pela capoeira: os prêmios de alunos de todas as idades enfeitam o Museu da Capoeira que gerem, e o mapeamento que Janaína mantém dos grupos capoeiristas do estado é um documento valioso. A diferença está no método da luta, que ultrapassa os passos e o ritmo dos tambores. A identidade que carregam é cultivada em práticas diárias de cuidado, como hortas comunitárias, a convivência com animais e os diversos projetos culturais e socioambientais que agitam o terreno. Há ainda um pré-vestibular popular, que tem como coordenadora pedagógica Daniela Tupinambá.  

A educação passa, sobretudo, pelo que não aparece na programação formal. Antes das aulas, Jagunço costuma perguntar às crianças o que comeram: “Às vezes, brincando, pergunto antes da aula: ‘E aí, como foi o lanche? O que vocês comeram hoje?’ […] Você já percebe quem não comeu.” A atenção se estende às condições em que elas vivem e chegam à Casa. Para ele, moradia não termina em quatro paredes.

“A gente acha que moradia parte de um quadrado com uma porta. Mas essa moradia vai muito além. É um território, sabe? É um canto onde você também pode se encostar e carregar todas as suas mazelas, todos os seus sonhos, pensamentos e projetos”, afirma. Por isso diz que dorme em casa, mas mora na Casa de Bambas, assim como tantos de seus alunos. 

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Perguntadas por que gostam de viver ali, as crianças foram unânimes: sentem-se acolhidas e fortes. Davi, de onze anos, chama o Mestre de pai e convive com o grupo desde os quatro. Em setembro, ganhou o campeonato estadual de capoeira em Maricá, ao lado do irmão emprestado, também Davi, filho de Jagunço. Os Davis não são exceção, mas expressão do trabalho ali empenhado. 

O Pré-Vestibular Eliane Potiguara leva o nome de uma das pioneiras da literatura indígena no Brasil, Doutora Honoris Causa pela UFRJ. Sua trajetória guarda relação violenta com o território: na década de 1950, sua família chegou ao Rio após ser expulsa e perder as terras de origem. Entre os nomes indígenas inscritos nas paredes e nas iniciativas da Casa, o de Eliane costura passado e presente, pois a concepção de moradia ali construída encontra uma Cidade Alta também formada por deslocamentos, disputas por território e pela luta pelo direito de permanecer na cidade. 

Aulão do Pré vestibular Eliane Potiguara, com o pré vestibular da aldeia  Guarani de Maricá
Aula conjunta do Pré-Vestibular Popular Eliane Potiguara com o Pré Vestibular Para Poty Nhe’ë Ja/Instituto Sãpe na Aldeia Mata Verde Bonita em Maricá (RJ) | Crédito: Isabella Kariri/@bellakariri

Uma cidade que desloca 

Muito antes do subúrbio carioca atual, o entorno da Baía de Guanabara abrigava populações indígenas, integradas aos manguezais e cursos d’água, como documentam os estudos arqueológicos de Maria Dulce Gaspar. A ocupação colonial transformou essas relações com o território, mas o deslocamento não significou desaparecimento. Maria Regina Celestino de Almeida mostra no artigo “Política Indigenista e Etnicidade: estratégias indígenas no processo de extinção das aldeias do Rio de Janeiro – Século XIX” que, grupos tidos como extintos ou “misturados” continuavam nas aldeias, reivindicando terras e afirmando suas identidades indígenas para defender seus direitos. A extinção administrativa das aldeias atingia também suas terras coletivas: sumir dos registros oficiais podia anteceder, e forçar, a perda do território. 

No século 20, a urbanização e a industrialização transformaram a paisagem outra vez. Segundo Lino Teixeira, “Corpo Morada: inventários e educação patrimonial nas favelas da Leopoldina”, publicado pelo Observatório de Favelas em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a reconfiguração viária da Avenida Brasil nos anos 1950 e o aterro sistemático de áreas alagáveis suprimiram ecossistemas e acompanharam uma expansão urbana extremamente desigual. Como discute o Coletivo LUTA Leopoldina, essa expansão deixou marcas que persistem: problemas de saneamento, escassez de áreas arborizadas e vulnerabilidade a alagamentos e enchentes. 

Nesse processo surgiu o Conjunto Habitacional da Cidade Alta, inaugurado em março de 1969, no auge da ditadura militar, sob a condução da Coordenação de Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana (CHISAM) — vinculada ao Ministério do Interior, garantindo, sobretudo, recursos e estrutura repressiva para levar adiante as remoções.  

Conforme a tese de doutorado do historiador Mario Sergio Ignácio Brum, “Cidade Alta: história, memórias e o estigma de favela num conjunto habitacional do Rio de Janeiro”, seus 64 prédios e 2.597 apartamentos receberam milhares de famílias removidas compulsoriamente de territórios populares da zona sul, principalmente da favela da Praia do Pinto, no Leblon. Mudar para um apartamento não trouxe as condições para reconstruir a vida: o espaço não tinha escolas, saneamento, comércio nem transporte adequados.

“Você não tinha posto de saúde”, lembra Carlos Eduardo (GuimarãesCampos), ex-presidente da Associação de Moradores. “Você tinha posto policial”. Sem escolas adequadas e sem transporte direto para o trabalho na zona sul, a evasão escolar se espalhou entre os jovens. E, embora removidas, as famílias ainda pagaram 15 anos à Cohab pela propriedade dos apartamentos. Alguns apartamentos foram vendidos e moradores construíram barracos. ”Chamávamos de favela de cimento armado”. A política habitacional transferiu famílias, mas não levou com elas a cidade.   

Carlos viveu essa transição: sua família morava no Parque Proletário da Gávea, favela horizontal entre os muros da Pontifícia Universidade Católica (PUC), o Minhocão e o Planetário, no atual Baixo Gávea. Famílias inteiras foram levadas a conjuntos distantes, como Vila Aliança, Padre Miguel, Cidade de Deus e Cidade Alta, num processo que, para ele, fez parte de um projeto de embranquecimento da zona sul e de valorização imobiliária.

A verticalização também mudou a cultura dessas famílias: a vida em prédios, com vizinhos separados, enfraqueceu os laços comunitários e a mobilização política e cultural do território. Ainda assim, não impediu que jovens decididos a se “aquilombar” voltassem a se organizar, termo com que Carlos define o movimento que nascia com a primeira associação de moradores, uma resistência contracolonial voltada à emancipação do povo negro e favelado.  

Mutirão recuperou área verde no terreno da Casa de Bambas e deu início a projeto de educação ambiental
Mutirão recuperou área verde no terreno da Casa de Bambas e deu início a projeto de educação ambiental | Crédito: Isabella Kariri/@bellakariri

Vulnerabilizada, não vulnerável 

Nos fundos da Casa de Bambas, onde hoje há a horta, ficava um lixão: sem coleta frequente da prefeitura, a matéria e o mau cheiro marcaram o lugar por anos. Cansados de esperar, crianças, idosos e quem quisesse somar fizeram um mutirão de limpeza e construção de um espaço verde. Nascia o Bambas Verde, onde parte da formação socioambiental das crianças acontece. O que começou como tarefa braçal desenvolveu consciência crítica sobre o território e alcançou as casas ao redor. O ambiente deixa de ser questão distante e se liga ao alimento na mesa, ao destino do lixo, à água, ao esgoto, às árvores e à própria moradia.

A educação ambiental, portanto, não se limita a “preservar a natureza”: parte das condições concretas do lugar e ensina a perguntar por que certos problemas se concentram em algumas regiões, quem responde por eles e quais direitos estão envolvidos. Para Jagunço, esses saberes não pertencem a um passado encerrado: “A cultura indígena é tecnologia ancestral.”

A frase confronta a imagem de que a existência indígena estaria ligada a um lugar distante da cidade, no espaço ou no tempo. Geni Núñez, antropóloga indígena do povo Guarani, no artigo “Perspectivas indígenas antirracistas sobre o etnogenocídio” (Psicologia & Sociedade), aponta mecanismos que condicionam esse reconhecimento a certos territórios, aparências e modos de vida, e propõe o “reflorestamento do imaginário” contra imagens coloniais que homogeneízam povos. Na Casa, ancestralidade e vida contemporânea não são opostos: saberes transmitidos entre gerações encontram problemas concretos da Cidade Alta. “Meu pai sempre fez isso para manter viva a nossa cultura. Era uma forma de dizer: ‘Venha para a minha aldeia'”, recorda Jagunço. “Como vou esquecer isso? Se eu esquecer, vou matar a história da minha família.” A árvore com nome de criança registra essa relação com o chão e fortalece raízes na terra e no asfalto. 

Construir raízes, porém, não é romantizar as condições em que elas crescem. Para Valcler Rangel, médico sanitarista e vice-presidente da Fiocruz, “não são territórios de vulnerabilidade, são territórios vulnerabilizados”, pois “a gente sempre tende a jogar com a carência mais do que com a potência, e isso segue uma lógica de estigma”. Tratar a vulnerabilidade como característica natural apaga os processos que a produziram; falar em vulnerabilização exige perguntar quais decisões urbanas, políticas e econômicas expuseram certos territórios, de forma desigual, à falta de saneamento, moradia, infraestrutura e serviços. É aí que a desigualdade ganha cor e endereço: o racismo ambiental está na repetição histórica de um modelo de cidade que concentra danos e precariedade onde populações negras, indígenas e pobres foram empurradas para viver.

Na Cidade Alta, a justiça socioambiental exige reconhecer que essas condições foram produzidas por escolhas políticas sobre quem receberia investimento e quem poderia continuar esperando. 

Oficina de bioconstruçao na Aldeia Guarani Mata Verde Bonita, Maricá (RJ)
Oficina de bioconstruçao na Aldeia Guarani Mata Verde Bonita, Maricá (RJ) | Crédito: Isabella Kariri/@bellakariri

Ao mesmo tempo, Valcler alerta contra reduzir as periferias às suas carências, e é nessa tensão que a Casa precisa ser compreendida. O pomar não substitui a política ambiental, a horta não resolve a insegurança alimentar, o cuidado cotidiano não substitui políticas de saúde e assistência, e a organização comunitária não retira do Estado o dever de garantir direitos. Mas isso não torna secundário o conhecimento produzido no território.

Para ele, Saúde nas Periferias vai além do atendimento médico: “É fazer as coisas com as pessoas daquele território, com as características e singularidades daquele território.” Na Casa, isso ganha escala cotidiana na voz de quem cresceu ali. Adrianny Cossito, de 13 anos, mais uma campeã estadual de capoeira e aluna assídua, tem estrabismo e sofreu bullying fora dali, além de preconceito por viver na periferia. Na Casa foi diferente: “me fizeram ter orgulho de fazer parte daqui”. Hoje sonha com o próprio espaço de capoeira, descrito como se já existisse: todo branco e dourado, onde chama o mestre para ajudar e contrata os meninos da Casa como professores. 

Da FavelAldeia para o mundo 

Até o fechamento desta reportagem, o Pré-Vestibular Popular Eliane Potiguara funcionava em formato remoto, não por escolha pedagógica, mas porque as aulas presenciais se tornaram inviáveis com a intensificação dos confrontos ligados à disputa territorial do Terceiro Comando Puro (TCP), facção que controla o Complexo de Israel, formado pela Cidade Alta e mais quatro favelas vizinhas. Entre as pessoas que chegaram ao cursinho está Janaína Machado. Nascida em Angola, ela veio ao Brasil ainda criança como refugiada. Por uma confusão no registro, ela ficou sem documentação por anos. Foi a diretora da escola municipal que a matriculou, risco que Janaína hoje reconhece: “ela fez a minha inscrição na escola mesmo sem documento nenhum… Poderia ser algo que poderia prejudicar ela.” 

Já adulta e mãe, a universidade seguia distante: “Eu realmente não acreditava que tinha capacidade de passar para uma universidade pública.” Tentou uma vez, sem preparo, e não passou. Cursou uma faculdade particular, endividou-se e precisou trancar. A aprovação da irmã na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a fez tentar de novo, dessa vez pelo Eliane Potiguara. Aprovada em primeiro lugar, ela cursa Pedagogia na Uerj, movida pelo desejo de abrir a outros estudantes as possibilidades que a educação abriu para ela. Hoje, seu filho frequenta a Casa de Bambas. 

Adrianny Cossito, de 13 anos, é aluna assídua de capoeira da Casa de Bambas
Adrianny Cossito, de 13 anos, é uma das alunas de capoeira da Casa de Bambas | Crédito: Carolina Leiva Paz/@carolinaleivapaz

Em agosto de 2026, os jovens da Casa se apresentaram no 1º Colóquio FavelAldeia, financiado pelo edital da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), na Areninha Cultural João Bosco. O colóquio reuniu pesquisadores indígenas de diferentes partes do Brasil e do México, para discutir planejamento urbano e territorial a partir dos saberes da favela e da aldeia. O projeto foi escrito por Matheus Vasconcelos e Renato Tuxá, gestor de projetos do Coletivo Indígena Peabiru.

Ao lado de lideranças indígenas e acadêmicas, os jovens da Casa apresentaram a força de pequenas mãos que lutam e batem o tambor na mesma intensidade. Depois do palco, continuaram o show do lado de fora, entre pontos de capoeira e músicas tradicionais indígenas, que emocionaram a todos. 

 Jagunço viu um menino fazer capoeira sem nunca ter frequentado suas aulas: aprendera com outra criança. “Quando ele replica com método, traz a genealogia de onde ele vem.” É estratégia: “Um povo separado não faz luta. […] Quando você tira a existência, você não reage. Primeiro você perdeu o pertencimento.”

Na Casa de Bambas, produzir pertencimento é reconstruir a ação coletiva. A partir das reflexões do líder quilombola Nego Bispo, é possível analisar que, contra o “desenvolvimento” imposto de cima, a Casa opõe o “envolvimento” com o chão e a memória. Aldear e aquilombar é produzir coletividade onde a separação serviu de controle. Na Cidade Alta, onde sucessivos projetos deslocaram pessoas, aterraram paisagens e reorganizaram modos de viver, uma árvore leva o nome de uma criança. Ela cresce ali.


*Essa reportagem foi realizada por meio do Edital de Apoio a Reportagem da Habitat para Humanidade Brasil, ficando o conteúdo, as opiniões e as informações veiculadas sob total responsabilidade do do(a) jornalista autor(a). 

Editado por: Clivia Mesquita

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