PELA CIDADE BAIXA

Old Dirty Man, o bar de quem sabe beber, conversar, combater os fascistas e gosta do escritor Bukowski

Escritor antissistema, rebelde e encrenqueiro tem ali uma legião de fãs e frequentadores de todas as tribos

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Old Dirty Man é um bar, pub, ou qualquer outra coisa onde se entra, se bebe, se conversa e se pode até comer alguma coisa
Old Dirty Man é um bar, pub, ou qualquer outra coisa onde se entra, se bebe, se conversa e se pode até comer alguma coisa | Crédito: Eugênio Bortolon

Old Dirty Man é um bar, pub, ou qualquer outra coisa onde se entra, se bebe, se conversa e se pode até comer alguma coisa. O cenário logo impressiona. Escuridão quase total. Um ‘breu’ geral. As luzes são fraquinhas. Tudo feito de propósito. E tem aquelas antigas máquinas de escrever penduradas nos tetos dos dois andares e até na escadaria. Fica na Lima e Silva, 956, na Cidade Baixa. E existe desde 2011. 

Esta decoração é para lembrar e saudar Henry Charles Bukowski, poeta, contista e romancista teuto-americano. Sua obra era de caráter obsceno e estilo totalmente coloquial. O sujeito foi, na verdade, um antissistema completo, encrenqueiro, de frases tiradas do fundo do baú e de ações despropositadas. Um cara que raramente se via em plena sobriedade.

Crédito: Eugênio Bortolon

Lourenço Testa, 47 anos, estudou Engenharia na UFRGS e em Turim (Itália), mas diz que sempre ‘brincou’ com a noite em razão da sua agitada vida estudantil. Ele tentou vários nomes para dar uma identidade para o seu bar e acabou escolhendo o nome Old Dirty Man  em homenagem a Bukowski e seu livro “Notas de um Velho Safado” (Notes of a Dirty Old Man, 1969). 

O livro faz relatos cáusticos e crônicas do cotidiano underground (subterrâneo em inglês, mas a palavra é usada principalmente para descrever culturas, movimentos ou artes que ficam à margem do mercado comercial e da grande mídia). Lourenço só inverteu as palavras para não parecer cópia direta. O autor americano tinha também uma coluna com este nome no jornal Open City de Los Angeles, totalmente underground, com tiragem semanal, e publicado entre 1967 e 1969.

Política estudantil e antifascismo

Nos tempos da faculdade na Ufrgs viveu metido na política estudantil do Ceue (Centro dos Estudantes Universitários de Engenharia), é antifascista, antinazista e não tolera a direita de forma alguma, mas, agora, com o pub, recebe a todos na santa paz e na maior segurança, inclusive Van Hattem, candidato do Novo ao Senado, que andou por lá dia desses. Não deu nada, a não ser ‘olha ali quem tá aqui!” e algum murmúrio chamando-o de “fascista”.

Testa é um cara desprovido de sutilezas, diz o que quer e pronto. Mas está feliz com o seu bar. Ali tem 113 lugares para pessoas sentadas. As mesas são altas, as cadeiras também. “É para as pessoas não precisarem se abaixar para conversar. Aqui, o papo é olho no olho”. 

Crédito: Eugênio Bortolon

Tem “santinhos” de candidatos da esquerda espalhados por todos os lados. Lourenço conta que foi militante nos tempos das “Catacumbas do seu Ney”, bar que tinha no subsolo do prédio da Engenharia da Ufrgs, no Centro Histórico, do movimento da esquerda socialista ao lado da atual deputada federal Fernanda Melchionna (estudava Biblioteconomia). 

Era muita reunião e nunca se chegava à conclusão nenhuma. Estavam, enfim, animados com a vida e com a experimentação que faziam nas discussões. Bebiam muito também. “Eu achava bonito beber naquela época”, diz Lourenço.

Crédito: Eugênio Bortolon

E a vida foi indo para a frente. Surgiu a oportunidade e foi estudar na Itália onde ficou longos anos, lá simpatizou com o pessoal da esquerda, com alguns antigos participantes das brigadas vermelhas e voltou entusiasmado. Até continuou na engenharia, mas viu que seu negócio era outro. Era ser dono de um bar, pub, qualquer coisa assim, para virar a noite e conversar.

 Começou com sócios e hoje está só

Descobriu por acaso o prédio onde hoje está o Old Dirty Man. Estava detonado. Junto com os amigos Rogério Bento (chamado de Cachaça), baterista e músico, e Leônidas Rubenich, um cara que gostava de shows, livros e músicas, resolveram reformar o local e homenagear este rebelde da literatura, o Bukowski. Com o tempo, Bento foi para São Paulo para ser músico e Leônidas decidiu casar e mudar de vida. Ficou só. E contratou um gerente geral para tocar o bar ao seu lado. 

Crédito: Eugênio Bortolon

Variedade de público

E está dando muito certo, na sua visão. Tem cinco funcionários com carteira assinada e mais alguns frilas quando há eventos. A escala é 5×2, embora o bar abra todos os dias. O público é heterogêneo. LGTBQI+, estudantes, pessoal do teatro, mulheres em grande maioria, e “comunistas de todas as categorias”. Não se gasta muito por ali. Os preços são até bem camaradas. “Há noites que até têm filas”, diz, satisfeito. 

Lourença só não gosta de público menor de 21 anos. Não proíbe, mas não faz questão que apareçam. E a razão é simples, segundo ele: “Os caras não sabem beber com paciência, com calma. Se atracam, fazem fiasco e acabam vomitando pelos cantos, o que não é legal. E outros até dormem.”

Crédito: Eugênio Bortolon

Problemas com os frequentadores? “Pouquíssimos”, recorda ele. “Sofremos uma vez uma invasão de neonazistas por aqui, pessoas bombadonas, que queriam fazer arruaça, mas consegui, com jeito, acalmar a turma e eles foram embora.”

A variedade de drinques e comidas é grande. “São mais de 70 tipos. Do copo direto ao ponto: receitas da casa, clássicos bem feitos e aquela dose honesta para quem chegou na Cidade Baixa procurando um bar de verdade. Cerveja artesanal, cerveja de lata comum”, garante Lourenço. E comida de buteco. Sanduíches, hambúrgueres, pizzas e tudo que você quiser. 

Lourenço explica que o Dirty segue sendo aquilo que sempre foi: um lugar escuro o bastante para a timidez baixar a guarda e quente o bastante para uma conversa sobreviver até a última dose. “O nosso ambiente clássico divide a noite com apresentações de música ao vivo, sem transformar o bar numa fábrica de gritos. A música entra como deve entrar: perto, intensa, suja na medida certa e ainda deixando espaço para duas pessoas se entenderem sem berrar no ouvido uma da outra”, relata.

Crédito: Eugênio Bortolon

“Algumas noites ganham cordas, vozes e amplificadores. Nada de espetáculo plastificado. A ideia é simples: música dentro do bar, gente perto, copo na mão e a sensação boa de que alguma coisa está acontecendo antes que alguém estrague tudo chamando de conteúdo”, comenta Lourenço. Há noites de música, cinema, lançamento de livros, leituras e outras coisas para diversificar as atividades noturnas de lazer. Normalmente, a música é em ritmo leve para que as pessoas possam conversar. “Fazemos até despedidas de solteiros, aniversários e, inclusive, casamentos. Pode acontecer de tudo aqui”.

Tatuagem no andar da memória

Lourenço é fã da tatuagem e tem várias espalhadas pelo corpo. E decidiu também abrigar ali no seu bar um estúdio de tatuagens para quem gosta de levar a noite um pouco mais longe do que a ressaca. Rola tatuagem definitiva, temporária, ideia rabiscada, coragem de última hora e aquele tipo de decisão que, quando bem feita, vira lembrança no corpo em vez de story esquecido.

“Tem história velha presa nas paredes, história nova começando no balcão e um monte de história perigando nascer entre um gole, um olhar atravessado e uma risada que vem tarde demais. O Dirty Old Man não foi feito para quem procura cenário limpo, promessa de glamour ou noite pasteurizada. Aqui a luz é baixa, a madeira é escura, o copo pesa na mão e as pessoas ainda se olham de verdade. Cruzar a nossa porta é aceitar uma pequena troca: lá fora fica o barulho automático do mundo; aqui dentro entra o contato real, o trago honesto, a conversa sem roteiro, o flerte que sabe esperar e a velha boemia com os sapatos gastos, mas a alma intacta”, descreve Lourenço.

Crédito: Eugênio Bortolon

Quem foi Charles Bukowski

Enfim, ali tudo anda ao ritmo de Henry Charles Bukowski, nascido na cidade de Andernach (Alemanha) em 16 de agosto de 1920 e morto em 9 de março de 1994, com 73 anos, na Califórnia (EUA). Casou duas vezes e teve uma filha. Ele defendia a honestidade radical, a rejeição ao conformismo social e a autenticidade crua, distanciando-se de ideologias políticas formais ou dogmas morais. Em vez de militar por causas coletivas, sua “defesa” era existencial e literária.

Criticava duramente o Estado, a religião organizada e a educação formal controlada pelo poder, que via como formas de domesticação humana. Era um sujeito que dava voz aos rejeitados aos bêbados, aos pobres e aos que viviam nas sombras do sonho americano, mostrando os caos que existiam na sociedade. Para ele, escrever não era um ato de vaidade acadêmica, mas uma tábua de salvação contra a mediocridade do cotidiano. “Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto.” (do filme Barfly).

Crédito: Eugênio Bortolon

Os livros mais famosos de Charles Bukowski incluem romances autobiográficos, coletâneas de contos e poesias que retratam a vida marginal com realismo cru e humor sarcástico. Os seus principais romances, contos e poesias são:

Cartas na Rua (Post Office, 1971): O primeiro romance de Bukowski, que narra os 14 anos em que trabalhou de forma maçante nos Correios.

Factotum (1975): Focado na fase em que o seu alter ego, Henry Chinaski, pula de subemprego em subemprego.

Mulheres (Women, 1978): Considerado por muitos sua obra-prima, retrata seus relacionamentos amorosos e a fama repentina.

Misto Quente (Ham on Rye, 1982): Livro que retrata a infância difícil e a juventude do autor nos Estados Unidos.]

Notas de um Velho Safado (Notes of a Dirty Old Man, 1969): Relatos cáusticos e crônicas do cotidiano underground.

A Mulher Mais Linda da Cidade & Outras Histórias (The Most Beautiful Woman in Town, 1972): Coletânea marcante de contos do autor.

Arder na Água, Afundar no Fogo (Burning in Water, Drowning in Flame, 1974): Uma das suas coletâneas de poesia mais reverenciadas. 

“No Dirty, tem uma biblioteca, tinhas os livros de Bukowski e muitos outros. A grande maioria foi sendo levada sem autorização, ou roubada, e nunca mais voltou”, conclui Lourenço.

Editado por: Vivian Virissimo

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