Não me interessa tanto saber quantas vezes alguém pronunciou o nome de Deus durante a campanha. Interessa-me perguntar se aquilo que defende se aproxima da mensagem daquele Jesus que escolheu caminhar entre os rejeitados.
Quarta-feira, 30 de setembro de 2026. Estamos a poucos dias das eleições, naquele momento em que cada eleitor e eleitora é chamado a decidir o seu voto. Depois de acompanhar, principalmente pela internet, boa parte dessa campanha eleitoral, uma coisa me chamou muito a atenção: foi enorme a quantidade de candidatos e candidatas, aos mais diferentes cargos, que se apresentaram como defensores dos chamados “princípios cristãos”.
Cristão virou adjetivo eleitoral. Princípios cristãos apareceram em discursos, vídeos, santinhos, palanques e redes sociais. Deus foi chamado para a campanha tantas vezes que, em alguns momentos, fiquei me perguntando: mas de qual cristianismo estamos falando? E de quais princípios?
Porque talvez não baste dizer o nome de Jesus. É preciso voltar ao Evangelho e observar o que Jesus fez.
Não sabemos em quem Jesus votaria. Transportar Jesus de Nazaré diretamente para as nossas categorias partidárias seria um anacronismo. Jesus não conheceu direita e esquerda como as entendemos hoje, muito menos os partidos políticos brasileiros contemporâneos.
Mas conhecemos bastante sobre quem Jesus escolheu colocar no centro de sua ação.
Se procurássemos uma espécie de “programa” de Jesus nos Evangelhos, dificilmente encontraríamos um programa econômico liberal, socialista ou conservador nos sentidos modernos dessas palavras. Encontraríamos, porém, princípios bastante concretos: misericórdia, justiça, amor ao próximo, cuidado com quem sofre, acolhimento de quem foi colocado à margem e crítica à hipocrisia religiosa.
Jesus tinha uma mania perigosa para sua época: atravessar fronteiras. Ele se aproximava justamente daqueles de quem muita gente considerada respeitável preferia manter distância.
Publicanos eram malvistos. Pecadores eram apontados. Prostitutas eram desprezadas. Mesmo assim, Jesus sentava-se à mesa com publicanos e pecadores. Chegou a provocar as autoridades religiosas dizendo que publicanos e prostitutas entrariam no Reino de Deus antes delas.
Então, volto aos nossos candidatos defensores dos “princípios cristãos”.
Não me interessa tanto saber quantas vezes alguém pronunciou o nome de Deus durante a campanha. Interessa-me perguntar se aquilo que defende se aproxima da mensagem daquele Jesus que escolheu caminhar entre os rejeitados. Porque também havia muita religião nos tempos de Jesus.
Havia gente ocupando os melhores lugares, exibindo publicamente sua religiosidade e transformando a aparência de piedade em prestígio. E Jesus foi duríssimo com essa religiosidade de fachada. Em uma de suas críticas, advertiu contra escribas que gostavam das homenagens públicas e dos lugares de honra, enquanto “devoravam as casas das viúvas” e faziam longas orações para manter uma aparência de piedade. É impossível não perceber como essa crítica atravessou dois mil anos e continua nos fazendo perguntas.
Jesus também chamou de hipócritas determinadas lideranças religiosas de seu tempo. Sua crítica não era à existência da fé, muito menos ao povo judeu ou à religião judaica. Era dirigida à distância entre aquilo que algumas lideranças pregavam e aquilo que praticavam.
Talvez esse seja um excelente critério para observar quem, em pleno século XXI, reivindica para si o título de defensor dos princípios cristãos.
O problema não está em um candidato professar sua fé. A liberdade religiosa também significa o direito de vivê-la publicamente. O problema começa quando a fé vira instrumento de poder; quando o nome de Deus serve como propaganda, enquanto a prática política contradiz a misericórdia, a justiça e o cuidado com os vulneráveis presentes no Evangelho.
Nesse caso, talvez a semelhança mais incômoda não seja com os discípulos que acompanhavam Jesus, mas justamente com aquela religiosidade hipócrita que ele denunciava.
E tem a história do próximo.
Quando perguntaram a Jesus “quem é o meu próximo?”, talvez esperassem uma resposta confortável. Jesus respondeu contando uma história. Um homem havia sido atacado e deixado quase morto à beira da estrada. Passaram representantes religiosos. Até que apareceu justamente um samaritano.
E é o samaritano quem cuida.
Isso importa porque judeus e samaritanos carregavam profundas diferenças religiosas e sociais. Jesus escolhe justamente aquele considerado estrangeiro e religiosamente inadequado pelos seus ouvintes para ocupar o papel moral central da parábola.
O próximo deixa de ser simplesmente “alguém dos meus”. Próximo é aquele que se aproxima.
Mas Jesus vai ainda mais longe. No Evangelho de João, encontramos Jesus sentado junto ao poço de Jacó. Chega uma mulher samaritana. Jesus conversa com ela e pede água. A própria mulher demonstra surpresa: ele era judeu; ela, samaritana. E havia ainda outra fronteira: era um homem conversando publicamente com uma mulher fora de seu círculo.
Jesus atravessa fronteiras religiosas, culturais e de gênero. E aquela mulher, que poderia simplesmente ter sido ignorada, torna-se interlocutora de uma das mais belas conversas teológicas do Evangelho.
Há ainda outra mulher. Ela é levada até Jesus acusada de adultério. Os homens querem apedrejá-la. E existe um detalhe perturbador na narrativa: onde estava o homem envolvido naquele adultério?
A mulher está ali. Cercada. Exposta. Julgada. Os homens têm pedras nas mãos. Jesus não pega uma pedra. Ao contrário, desmonta aquele tribunal moral: quem não tivesse pecado poderia lançar a primeira pedra.
Um a um, os acusadores vão embora.
Isso não significa que Jesus considerasse tudo indiferente. O Evangelho fala de conversão, responsabilidade e mudança de vida. Mas chama atenção a maneira como ele age: diante da pessoa vulnerável, Jesus não se junta à multidão que ergue pedras.
E talvez seja justamente aí que a conversa sobre religião e política fique desconfortável.
Porque ser cristão na política não deveria significar apenas descobrir se determinado candidato fala em Deus, carrega uma Bíblia debaixo do braço ou sabe citar um versículo.
Vale algumas perguntas:
O que seu projeto faz com quem tem fome?
Com quem não consegue trabalho?
Com a mulher violentada?
Com quem sofre preconceito?
Com quem pertence a outra religião?
Com quem pensa diferente?
Com quem a sociedade decidiu chamar de pecador?
Com quem está caído à beira do caminho?
Os Evangelhos não entregam ao eleitor cristão um número para digitar na urna. Também não permitem reduzir Jesus facilmente aos programas políticos contemporâneos, mas oferecem critérios pelos quais qualquer projeto político pode ser interrogado: justiça, misericórdia, dignidade humana, solidariedade e cuidado com os vulneráveis.
Por isso, diante de tantos que passaram esta campanha reivindicando para si os chamados “princípios cristãos”, seria interessante perguntar:
Quem está mais disposto a se aproximar daqueles de quem Jesus se aproximou?
Porque Jesus fez do samaritano um exemplo. Conversou com a samaritana. Sentou-se com publicanos e pecadores. Escandalizou religiosos ao falar de prostitutas entrando no Reino. Protegeu uma mulher quando homens estavam preparados para apedrejá-la. E denunciou uma religiosidade que fazia belas orações enquanto explorava os vulneráveis.
No domingo da eleição, acho que a pergunta cristã mais importante seja:
Quem é o próximo neste projeto de sociedade?
*Joel Martins Cavalcante é professor de história da rede estadual de ensino da Paraíba, jornalista, advogado e militante dos direitos humanos e do Movimento Brasil Popular.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

