Extrema direita

Torcidas de Flamengo e São Paulo denunciam que Wilker Leão pagou membros para agredir alunos na UnB

Integrantes de organizadas foram contratados como grupo de choque para atacar estudantes e depredar o Instituto de Artes

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Wilker Leal (Novo) e seus "seguranças" após praticarem atos de violência e depredação da UnB
Wilker Leal (Novo) e seus ‘seguranças’ após praticarem atos de violência e depredação da UnB | Crédito: Reprodução

O influencer de extrema direita e candidato a deputado federal Wilker Leão (Novo) teria desembolsado R$ 150 para pelo menos dez integrantes de torcidas organizadas do São Paulo e do Flamengo atuarem como sua escolta privada, provocarem estudantes e praticarem atos de violência e depredação no Instituto de Artes (IdA) da Universidade de Brasília (UnB), no último domingo (27).

O Brasil de Fato apurou com membros de organizadas do Distrito Federal que os torcedores contratados pertencem ao 23º Pelotão da Torcida Jovem do Flamengo (Distrito Federal) e à sub-sede de Brasília da Torcida Independente, do São Paulo, grupos conhecidos na região pelo envolvimento em confrontos entre torcidas organizadas.

A prática de remunerar torcedores para servir de segurança armada e grupo de choque não é inédita na atuação do influencer de extrema direita. Em agosto deste ano, o coletivo antifascista Bonde do Mao, ala progressista da Torcida Jovem do Flamengo, já havia publicado uma nota de repúdio denunciando que Wilker Leão ofereceu a quantia de R$ 150 para que integrantes da torcida fizessem a sua escolta na universidade.

Na ocasião, o coletivo classificou o pagamento como “R$ 150 para servir de bucha de canhão para um playboy desocupado”. Membros das torcidas ouvidos pela reportagem confirmaram que o esquema de pagamento se repetiu no episódio do último domingo, reunindo cerca de 15 pessoas para cobrir de tinta branca os murais do departamento.

Durante a invasão ao campus, o grupo contratado agrediu fisicamente alunos do curso de Artes Visuais e proferiu ofensas racistas e homofóbicas. O estudante Akim Borges, que esteve no local para documentar a ação a pedido da segurança patrimonial da universidade, relatou ter sido alvo de xingamentos e agressões físicas.

“Fomos recebidos com muita ofensa e pirraça dos agressores, que foram racistas comigo e com um colega. A gente não entrou em confronto físico, mas eles vieram atrás de nós e nos bateram. Tomei um soco na cabeça e tive que fazer uma tomografia no hospital”, afirmou o estudante. Borges afirma que cinco boletins de ocorrência foram registrados e exames de corpo de delito foram realizados no Instituto Médico Legal (IML).

Reitoria da UnB condena ação

Em pronunciamento publicado nas redes sociais, a reitora da UnB, Rozana Naves, repudiou as agressões cometidas pelo ex-aluno Wilker Leão, expulso da instituição em 2025 por intimidar professores e estudantes, e pelos homens contratados para acompanhá-lo.

“É inadmissível que pessoas externas venham fazer intervenções no patrimônio público sem autorização. A expressão artística dos estudantes no Instituto de Artes é pactuada com a comunidade e referendada por atividades acadêmicas. Ocorrer no domingo, com a universidade esvaziada, mostra a covardia desses grupos de extrema direita que não se propõem ao debate qualificado”, disse a reitora.

A administração da UnB acionou os protocolos de segurança e chamou a Polícia Federal (PF), que prendeu Wilker Leão em flagrante por dano ao patrimônio público da União.

Alinhamento à direita das organizadas

A contratação de integrantes da Torcida Independente e da Torcida Jovem do Flamengo por políticos de extrema direita evidencia uma mudança de posicionamento das diretorias locais das duas organizadas no DF.

Historicamente, as duas entidades integram a União Punho Cruzado (UPC), aliança nacional de torcidas que carrega raízes populares e símbolos ligados à esquerda internacional, como a imagem do revolucionário latino-americano Ernesto Che Guevara e do líder comunista chinês Mao Tsé-Tung.

Nos últimos meses, contudo, as lideranças das organizadas de Brasília vêm estreitando laços com políticos conservadores locais. Em vídeo publicado nas redes sociais, o responsável pelo 23º Pelotão da Jovem do Flamengo declarou apoio a candidatos de direita no DF. Em publicação no canal oficial da torcida de Brasília, o líder da organizada cita parcerias para a construção de campos sintéticos e doação de tatames.

Deputado distrital Martins Machado (Republicanos-DF), governadora Celina Leão (Progressistas-DF) e deputado federal Julio César Ribeiro (Republicanos-DF) disputam reeleição | Crédito: Instagram/TJF-Brasília

A aproximação partidária tem provocado fortes contestações internas entre os associados. Integrantes das torcidas relatam que a guinada ideológica promovida pela diretoria local é motivada por trocas de favores e cargos em gabinetes parlamentares, criando um ambiente de intimidação contra membros que se recusam a fazer campanha para a extrema direita.

As divisões das organizadas no DF funcionam de forma autônoma e suas posições políticas não são, necessariamente, endossadas pelas matrizes nacionais no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Outro lado

Após passar 24 horas detido na Superintendência da Polícia Federal, Wilker Leão foi solto na segunda-feira (28) por decisão da Justiça Federal, sem a imposição de fiança ou medidas cautelares.

Em vídeo publicado nas redes sociais, o candidato alegou ter sido preso de forma “arbitrária” e afirmou que sua intenção era apenas “revitalizar” o prédio e apagar pichações ideológicas.

O Brasil de Fato questionou o candidato sobre a contratação de torcedores organizados e o pagamento de R$ 150 para a realização de agressões, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

A reportagem também enviou questionamentos à Polícia Militar do Distrito Federal a respeito da denúncia dos estudantes de que houve recusa em enviar viaturas ao local após os chamados via 190. Em nota, a Polícia Militar do Distrito Federal confirmou ter sido acionada para atender à ocorrência no Instituto de Artes da UnB, onde um grupo de cerca de 15 pessoas realizava a pintura não autorizada do muro. A PM disse que a orientação da segurança patrimonial da universidade para interromper a ação não havia sido atendida inicialmente, mas que a atividade foi cessada com a chegada das equipes policiais ao local.

A PM disse ainda que conduziu os envolvidos à Superintendência da Polícia Federal para a tomada de providências. Segundo a nota da corporação, dois homens permaneceram detidos na unidade policial para a apuração do crime de dano ao patrimônio público, enquanto os demais integrantes do grupo foram ouvidos e liberados.

Da mesma forma, a Polícia Federal foi questionada sobre os fundamentos da prisão em flagrante e se outros integrantes do grupo agressor foram detidos ou identificados, mas o órgão não respondeu aos contatos.

Editado por: Gia Matheus Almeida e Rafaella Coury

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