O jornalista Carlos Alberto “Beto” Almeida conversa com o Brasil de Fato DF sobre o papel da comunicação popular nas eleições, a cobertura da imprensa e os desafios políticos enfrentados pela América Latina diante do avanço da extrema direita.
Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), Beto Almeida participou da fundação da Televisión del Sur (TeleSUR) e hoje integra a direção da emissora, onde apresenta o programa “Latitud Brasil”. Ao longo da carreira, o jornalista também se dedicou à comunicação popular e ao debate sobre integração latino-americana.
Beto Almeida argumenta que existe um desequilíbrio entre os tipos de mídia no Brasil e que o papel da comunicação popular é central no debate sobre a conjuntura política do país. “Fora da propaganda obrigatória oficial, os magnatas impõem a sua verdade, como a TV Globo e as outras televisões, que fazem uma completa prática de tirania midiática contra as teses que interessam aos trabalhadores”, observa.
Ao avaliar a cobertura jornalística nestas eleições, o jornalista destaca que a crise no Supremo Tribunal Federal impactou o debate eleitoral, deixando de fora a discussão de propostas e outros temas, como reforma agrária, reestatização da Eletrobras, manutenção do Brasil nos Brics (aliança intergovernamental que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros países).
Confira a entrevista completa:
Qual é o papel da comunicação popular nessas eleições?
O papel é central, especialmente porque nós não fizemos ainda o que deveríamos ter feito: construído a mídia popular. Então vemos o desequilíbrio existente.
Agora, por exemplo, as candidaturas dos grandes magnatas estão com um volume muito superior em defesa das teses, das políticas neoliberais, enquanto o presidente Lula não tem um órgão que possa fazer a democratização das suas informações. Por isso, quando há campanha eleitoral obrigatória do TSE [Tribunal Superior Eleitoral], isso minimiza um pouco, mas não equilibra. Por quê?
Porque, fora da propaganda obrigatória oficial, os magnatas impõem a sua verdade, como a TV Globo e as outras televisões, que fazem uma completa prática de tirania midiática contra as teses que interessam aos trabalhadores.
Como você avalia a cobertura da mídia nessas eleições?
Eu acho muito precária, muito desfavorável, porque aquela crise do Supremo Tribunal Federal (STF), por exemplo, foi estimulada a partir da participação de alguns jornalistas da TV Globo com ministros que estavam ali fazendo uma espécie de tumulto para levar exatamente a que não se fizesse o bom debate durante a campanha eleitoral.
Todo mundo passou a olhar a crise do STF e esqueceu que nós tínhamos que discutir reforma agrária, reestatização da Eletrobras, manutenção do Brasil nos Brics e integração latino-americana.
É isso que interessa ao grande povo. Mas, ainda bem, o presidente Lula, mesmo nesse tumulto, teve coragem de tomar duas medidas muito importantes: elevar o valor do Bolsa Família e proibir as bets, que são uma ruína da classe trabalhadora e da saúde pública mental no Brasil.
Como você tem observado o cenário da América Latina com o avanço da extrema direita? O que o Brasil tem a aprender com os outros países?
Tem que aprender muito, porque a situação é muito perigosa. Veja o que aconteceu na Colômbia: o Petro [Gustavo Petro, presidente da Colômbia, apoiou a candidatura de Iván Cepeda, que perdeu a eleição presidencial] achou que ia ganhar. E as manipulações que foram feitas lá, manipulações eleitorais, podem ocorrer aqui. É preciso estar muito atento.
Por exemplo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) firmou um contrato com a empresa Starlink, que é do Elon Musk. Essa é uma empresa vinculada ao Pentágono e eles vão fazer coleta de dados dos lugares mais remotos, onde normalmente o presidente Lula tinha 100% de votação. Quer dizer, esse risco está instalado, porque o TSE não joga de maneira equilibrada. O presidente do TSE é um homem que assina um contrato com uma empresa vinculada ao Pentágono norte-americano. Então, isso é um perigo enorme.
Nós temos que manter o Brasil nesse rumo: soberania informativa, cultural e econômica, porque estamos dentro dos Brics e da Celac [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos], estamos defendendo a reintegração latino-americana, além de manter e reviver a Unasul [União de Nações Sul-Americanas] e o Mercosul.
Mas isso é uma tarefa hercúlea, e os povos da América Latina dependem do Brasil, porque é a economia mais desenvolvida, com maior peso específico, com maior envergadura. Quer dizer, é preciso manter isso como uma prova de que nós temos direito de criar outra arquitetura internacional com os Brics para não termos nenhum tipo de vassalagem aos Estados Unidos, que é o que quer o candidato Flávio Bolsonaro.
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