O governo dos Estados Unidos destinou US$ 1 milhão (pouco mais de R$ 5 milhões) para a realização de uma campanha contra o Supremo Tribunal Federal (STF), órgão máximo do Judiciário brasileiro, segundo o The Guardian. Os recursos são alocados pelo Congresso para o Fundo de Direitos Humanos e Democracia (HRDF).
O argumento para a liberação de recursos é de que há censura no Brasil e grupos que são contrários às decisões do STF precisariam de apoio. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, assinou pessoalmente o aporte, ignorando as posições contrárias dos congressistas estadunidenses. Não há informação se o dinheiro foi transferido ou apenas empenhado para os projetos no exterior definidos pela Casa Branca.
A revelação acontece a poucos dias do primeiro turno das eleições brasileiras, marcado para o próximo domingo (4), e em meio a uma série de ameaças de interferência por parte do governo Donald Trump, apoiador aberto da extrema direita e de Flávio Bolsonaro (PL).
Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Marcial Suarez, professor de Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro do Observatório da Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB), afirma que esse tipo de financiamento não é exatamente algo novo, mas que, diante do contexto atual, com disputa tarifária e lawfare pesado, ganha outros contornos.
Suarez aponta que o movimento liderado pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance, indica uma tendência global. “A organização claramente tem uma perspectiva de aporte financeiro e financiamento de agendas, não apenas na América do Sul, mas na América Latina como um todo, tendo perspectiva de favorecer grupos políticos mais alinhados com a política externa estadunidense, não apenas para a região, mas globalmente. Em termos globais, a gente vê um avanço muito significativo dessas agendas, não diria só conservadoras, mas mais radicais ou fundamentalistas”, afirma.
Segundo o professor, os riscos atuais ao processo eleitoral são óbvios e estão “sobre a mesa”. Ele menciona o Escudo das Américas como um ponto de atenção e de real preocupação para o Brasil. “É um arranjo no qual diversos estados latino-americanos se alinham em termos de uma agenda de segurança estadunidense que não necessariamente diz respeito à América Latina, mas, mais especificamente, à designação como terroristas de grupos que são marcadamente criminais na América do Sul. Ou seja, essa transição, permite criar um espaço de intervenção, e isso é, digamos, muito factual em termos da própria legislação internacional, tal qual ela está posta”, avalia.
Tarifaço em debate
O Itamaraty e o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio informaram que o governo Trump vai apresentar nas próximas semanas uma nova proposta de negociação do tarifaço imposto aos produtos brasileiros.
Apesar da construção de argumentos supostamente econômicos, Marcial Suarez observa que as tarifas foram uma forma de desestabilizar o governo brasileiro, cujo incumbente, o presidente Lula (PT), é candidato à reeleição. “Elas estão diretamente alinhadas com o espectro político, ao plano político de um dos candidatos. Ou seja, isso é inegável. Está posto tanto na mídia brasileira quanto na internacional: os encontros de um dos candidatos à Presidência com o presidente [Trump] favorecendo o irmão do candidato também, ou seja, propondo, incentivando que fossem aplicadas sanções econômicas”, afirma.
O analista, contudo, observa que esse é “um jogo com data marcada para acabar”, já que o tarifaço gerou impactos internos aos EUA e Trump, em meio à derrota que vem sendo imposta pelo Irã na disputa pelo Estreito de Ormuz, viu sua popularidade despencar. “Há um desgaste político para o presidente Donald Trump nesse momento significativo. Ele é o presidente com menor avaliação positiva na história das avaliações sobre os presidentes dos Estados Unidos. Isso diz muito e cria, digamos, momentos ou pontos de fricção e desgaste para a própria economia interna, que não vai bem”, explica.
“Então, há uma data mais ou menos pensada, imaginada, que podemos imaginar para que essa situação do tarifaço se reorganize ou se reestruture, se redefina, talvez”, aponta.
Para ouvir e assistir
Durante o horário eleitoral, até 1º de outubro, o jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira das 12h25 às 14h, e a segunda, sem alteração, a partir das 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

