Simulando um cenário de aquecimento global, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estudaram como o aumento da temperatura pode alterar o solo de manguezais, que são considerados um dos mais importantes ecossistemas para enfrentar as mudanças climáticas. Ao contrário do esperado, que era mais emissão de gás carbônico (CO₂), o experimento indicou uma liberação muito maior de gás metano (CH₄), molécula 30 vezes mais danosa para o clima da Terra.
Enquanto as emissões de CO₂ caíram cerca de 73%, as emissões de CH₄ aumentaram progressivamente ao longo do experimento, chegando a valores 6,4 vezes maiores que em condições normais, apontou a pesquisa publicada em agosto na revista Atmospheric Environment.
“A ideia foi levar a abordagem experimental [feita em laboratório] para campo e usar essas estruturas que simulam um ambiente de aquecimento global. Nossa hipótese inicial era que o solo ficaria mais oxidante e, assim, emitiria mais CO2, mas o que aconteceu é que o solo teve menos oxigênio e começou a emitir metano”, explica a responsável pela pesquisa, Manoella Molitor, doutoranda do Programa de Geografia Física da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).
O experimento foi feito na Ilha Pai Matos, em uma área preservada no município de Cananeia, litoral sul de São Paulo, e levou em conta as previsões de aumento da estiagem, temperaturas e salinidade dos mangues na Região Sudeste. Com invólucros transparentes de PVC que permitem a penetração da radiação solar, limitando a perda de calor e a troca de ar, as temperaturas na área da experiência variaram de 1°C a 12 °C.
O experimento, realizado por seis meses, é apenas uma amostra, mas aponta um quadro em que os mangues podem perder sua importância na mitigação das mudanças climáticas, arruinando sua função de sequestro de carbono. “Os manguezais são os super-heróis para enfrentar as mudanças climáticas. Mas a gente não tem ideia, não tem nenhuma informação sobre o quanto eles podem ser vulneráveis”, explica o professor da FFLCH-USP, Hermano Melo Queiroz, orientador da pesquisa.
“A gente tem uma grande chance de perder essa funcionalidade. De certo modo, a gente já está perdendo com esses dados, porque os dados mostram uma mudança drástica no funcionamento do ecossistema. Resta saber o quão intenso e persistente é essa mudança”, completa.

Pouca pesquisa sobre solos
Por sua qualidade de retenção de gases do efeito estufa, os manguezais têm sido bastante estudados. No entanto, há uma defasagem em relação às pesquisas dos solos desses ecossistemas. Molitor fez um levantamento dos artigos científicos sobre o ecossistema desde 1950. Dos 30.084 artigos analisados, apenas 25 relacionavam solos de manguezais à mitigação das mudanças climáticas. “As pessoas falam de mangue e pensam basicamente em vegetação, biomassa e sequestro de carbono. Eles não enxergam o solo como protagonista desse serviço”, aponta a pesquisadora.
Para Queiroz, a questão do solo tem sido muito pouco explorada também nas ações de reflorestamento. “Muitos dos trabalhos de mitigação de mudanças climáticas envolvem questões socioambientais, ações de políticas públicas, ações de preservação, mas estão pouco ligados às questões do solo. Quando você vai fazer o reflorestamento de uma área de terras altas, olha-se a fertilidade do solo, o espaçamento. Você tem todo esse cuidado, mas, no caso do mangue, não é exatamente assim.”
O Brasil é o segundo país no mundo em áreas de manguezal, perdendo apenas para a Indonésia, que tem uma grande e maior diversidade de espécies. No Brasil, há três tipos predominantes de mangues, cujas diferenças estão especialmente na vegetação.

No Nordeste, os solos dos manguezais estão em ambiente cerca de 6 °C mais elevados do que na região estudada, além de apresentar mais salinidade, com uma variação de maré que chega a cinco metros. No Sudeste, as planícies são muito menores, com ambiente de temperaturas mais frias e o fluxo de maré é bem menor. Na estrutura da vegetação, embora pareça igual, nos manguezais da região Sudeste as árvores têm mais ou menos 10 metros de altura; já no Nordeste, há árvores que chegam a 30 metros de largura e 30 metros de altura.
Do ponto de vista ambiental, os solos dos manguezais do sudeste disparadamente têm muito mais carbono no solo, segundo Queiroz. Ao mesmo tempo, a região lidera a perda do ecossistema, segundo um estudo da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Para continuar as análises, os pesquisadores vão coletar dados ainda em Cananeia, mas, desta vez, no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, uma das áreas mais preservadas do estado de São Paulo e que, segundo Queiroz, é um dos maiores estoques de carbono no solo do Brasil.


