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Fim das bets pode devolver renda às famílias e aliviar pressão sobre o SUS

Especialistas apontam efeitos positivos no comércio e na saúde, mas alertam que resultados serão graduais

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A Medida Provisória (MP)do governo Lula proíbe que Bets atuem no Brasil | Crédito: Joédson Alves/ Agência Brasil

O fim das plataformas de apostas online pode produzir efeitos positivos que ultrapassam o universo dos jogadores. Para o economista Weslley Cantelmo, a interrupção da chamada “drenagem” de recursos para as bets pode provocar efeitos imediatos sobre a economia, especialmente entre as famílias de menor renda.

“A simples ausência da perspectiva de drenagem desse enorme volume de recursos entra imediatamente na economia”, afirma Cantelmo. Segundo ele, famílias de menor renda destinam mais de 90% de seus rendimentos ao consumo, o que faz com que a interrupção dos gastos com apostas possa liberar recursos para alimentação, comércio, serviços e, eventualmente, pagamento de dívidas.

:: Saiba mais: Governo Lula anuncia Medida Provisória que determina o fim das bets no Brasil :: 

A declaração ocorre após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinar, em 25 de setembro, a Medida Provisória (MP) nº 1.394, que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil, incluindo plataformas estrangeiras direcionadas ao público brasileiro. A medida também alcança os cassinos online.

A MP prevê a desativação das plataformas e estabelece procedimentos para a devolução dos valores mantidos pelos usuários. O bloqueio dos sites e aplicativos está previsto para ocorrer a partir de outubro.

Dinheiro de volta à economia real

Para Cantelmo, um dos principais efeitos econômicos da medida está relacionado justamente à possibilidade de o dinheiro que antes era direcionado às apostas voltar a circular no mercado interno.

“Aquelas famílias de mais baixa renda direcionam um percentual superior a 90% de seus rendimentos para o consumo. Quanto mais baixa é a renda dessas famílias, mais elas consomem, o que ativa, de forma relativa, os elementos da economia interna e do mercado interno”, explica.

Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que a inadimplência associada às apostas retirou cerca de R$ 143 bilhões do comércio varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026. A entidade calcula ainda que aproximadamente 270 mil famílias podem ter chegado a uma situação de inadimplência severa relacionada aos gastos com as plataformas.

Em 2024, outro levantamento da CNC apontou que os brasileiros movimentaram cerca de R$ 240 bilhões em bets, enquanto o varejo teria deixado de faturar R$ 103 bilhões em razão do redirecionamento da renda das famílias para as plataformas.

Na avaliação do economista, o impacto não se restringe ao dinheiro perdido diretamente pelos apostadores. 

“É o dinheiro do supermercado ou do bar que alimentaria toda uma cadeia por trás daquele bem de consumo final e que, portanto, ativaria diversos setores da economia”, afirma.

Cantelmo argumenta que, quando uma família deixa de gastar em um estabelecimento comercial, o efeito se espalha pela cadeia econômica, atingindo fornecedores, trabalhadores e a própria arrecadação pública.

“Quando uma pessoa deixa de fazer um gasto simples, como ir à padaria, ela deixa de ativar uma série de relações econômicas que se converteriam em arrecadação para o governo”, afirma.

Curto prazo: consumo e reorganização das famílias

No curto prazo, o principal efeito esperado pelos especialistas é a possibilidade de interrupção da saída de recursos das famílias para as plataformas.

Cantelmo avalia que parte desse dinheiro pode ser redirecionada imediatamente para despesas essenciais, como alimentação, compras no comércio, serviços e pagamento de dívidas. Ele pondera, entretanto, que o simples fim das apostas não elimina automaticamente o endividamento já acumulado.

A própria CNC estima que as bets contribuíram para o agravamento da inadimplência de famílias brasileiras. Segundo o levantamento, os gastos com as plataformas chegaram a superar R$ 30 bilhões mensais no período analisado.

Assim, o efeito econômico mais imediato não deve ser interpretado como uma recuperação automática da renda perdida, mas como a interrupção de um canal de saída de recursos que vinha comprometendo o orçamento de parte das famílias.

Médio prazo: comércio e circulação de renda

No médio prazo, a expectativa apresentada pelo economista é de que a mudança possa repercutir sobre a circulação de dinheiro nas cidades. O raciocínio é baseado no chamado efeito multiplicador: o recurso gasto em um supermercado, restaurante, farmácia, loja ou serviço remunera trabalhadores e fornecedores, que posteriormente voltam a gastar parte dessa renda.

“Esse recurso, que deixa de ser drenado para fora do país, é direcionado imediatamente para a alimentação, o comércio, os serviços e, eventualmente, para o pagamento de dívidas”, afirma Cantelmo.

A avaliação considera especialmente as famílias de menor renda, nas quais uma parcela maior do orçamento costuma ser destinada ao consumo. O resultado, portanto, dependerá de quanto desses recursos efetivamente retornarão ao mercado formal e de como as famílias reorganizarão seus orçamentos.

Longo prazo: diminuição nos novos casos de dependência

Na área da saúde, os efeitos tendem a ocorrer em ritmo diferente. Aline Cristina, que é enfermeira do Sistema único de Saúde (SUS) e sindicalista do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Belo Horizonte (Sindibel), avalia que a redução das apostas pode diminuir progressivamente o surgimento de novos casos de dependência, mas não significa uma redução imediata da procura pelo SUS.

“Acredito que vai haver uma redução, mas não de forma imediata. Ela vai ser observada a médio e talvez até a longo prazo”, afirma.

Isso ocorre porque a ludopatia, ou transtorno relacionado ao jogo, pode exigir acompanhamento prolongado. Segundo Aline, pacientes já diagnosticados podem precisar de acompanhamento psicológico e psiquiátrico, inclusive com uso de medicamentos e ajustes no tratamento em casos de recaída.

O impacto também alcança as famílias dos jogadores. O endividamento e as consequências emocionais da dependência podem exigir ações articuladas entre o SUS e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS).

SUS já sente pressão

Os números disponíveis indicam que o problema já chegou à rede pública. Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano os custos sociais e econômicos relacionados aos danos à saúde associados às apostas. A estimativa inclui impactos relacionados à depressão, suicídios, perda de qualidade de vida e tratamentos.

Nos últimos cinco anos, a busca por atendimento no SUS relacionada à dependência de apostas e jogos de azar cresceu 140%, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde.

Para Aline, a pressão começa muitas vezes na atenção básica. Usuários podem chegar às unidades relatando insônia, alterações no apetite, ansiedade, estresse, dores de cabeça e palpitações sem necessariamente relacionar os sintomas à dependência das apostas.

Em situações mais graves, segundo a sindicalista, os casos podem chegar às unidades de urgência acompanhados de tentativas de suicídio.

A dimensão do problema também aparece nos mecanismos criados pelo governo. O Ministério da Saúde informou ter ampliado a capacidade de teleatendimento relacionado a jogos e apostas diante da procura crescente. A estrutura passou de 600 para até 100 mil atendimentos mensais.

Custo para o Estado

Outro ponto levantado por Aline é a diferença entre os recursos destinados à saúde e os custos provocados pelos problemas associados às apostas. Segundo o IEPS, apenas 1% da arrecadação das operadoras era destinado ao Ministério da Saúde para enfrentar os danos relacionados ao setor.

“O valor de repasse ao SUS é irrisório quando é comparado ao valor que é arrecadado por essas operadoras”, afirma Aline. Para ela, existe uma desproporção entre os ganhos privados obtidos pelas empresas e os custos públicos decorrentes do adoecimento relacionado ao jogo.

O fim das bets não encerra o problema

Apesar dos possíveis efeitos positivos, especialistas ressaltam que a proibição não apaga os problemas acumulados durante os anos de expansão das apostas. No caso da saúde, pacientes que já desenvolveram dependência continuarão necessitando de acompanhamento. Aline afirma que o tratamento pode ser longo e envolver recaídas, enquanto os impactos sobre familiares também podem permanecer.

Na economia, a recuperação das famílias endividadas também dependerá de outras políticas, já que interromper as apostas não elimina automaticamente dívidas existentes. Para especialistas, a nova fase do programa do governo federal Desenrola 3.0, lançado em conjunto à proibição das Bets, pode ser um fator determinante para ajudar a cobrir as dívidas das famílias.  

:: Leia também: Lula anuncia Desenrola 3.0 e prevê redução de R$ 150 bi nas dívidas dos brasileiros :: 

Há ainda um desafio relacionado ao mercado clandestino. Especialistas e representantes do setor têm alertado para a possibilidade de migração de apostadores para plataformas ilegais. Uma estimativa da consultoria H2 Gambling Capital, divulgada após a MP, calcula que parte significativa do mercado poderia migrar para sites não autorizados.

Por isso, os efeitos de longo prazo dependerão também da capacidade do Estado de fiscalizar plataformas clandestinas, impedir novas formas de acesso às apostas e manter políticas de prevenção e tratamento para pessoas que já desenvolveram dependência.

Para Cantelmo, porém, a interrupção da drenagem de recursos representa uma mudança importante na dinâmica econômica. “O efeito econômico não é apenas de curto prazo, mas sim imediato”, resume.

Editado por: Lucas Wilker

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