Nessa quarta-feira (30), o Curso Brasileiro de Brigadas Populares para Enfrentamento de Catástrofes – Maria Natividade formou sua primeira turma. Com mais de 50 militantes, vindos de diversos territórios da reforma agrária no Paraná, a formação é inédita no Brasil. O curso é fruto de uma articulação entre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) e o Sistema Único de Saúde (SUS).
Em novembro de 2025, o estado foi atingido por fortes tempestades e eventos extremos, como o tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu (PR). O curso nasce inspirado pela Brigada de Solidariedade formada pelo MST, que apoiou as famílias atingidas pela catástrofe – 7 pessoas morreram e milhares ficaram feridas na região Centro-sul do estado.
“Nós aproveitamos a experiência da equipe de saúde do MST, que participou efetivamente das atividades de reconstrução da cidade [Rio Bonito do Iguaçu], e tivemos a iniciativa de promover essa atividade, construindo um processo de reflexão estratégica sobre os pontos críticos do Paraná”, conta Wagner Martins, professor de Estratégias de Gestão e Governança Territorial da Escola de Governo da Fiocruz, sobre a proposta pioneira no Brasil.
As etapas presenciais e a formatura do curso ocorreram em Laranjeiras do Sul (PR), na associação comunitária do Assentamento 8 de Junho. O local é o mesmo que serviu como base de apoio à Brigada de Solidariedade, entre novembro e dezembro, por estar a pouco menos de 10 quilômetros de Rio Bonito do Iguaçu.

O curso tem como objetivo preparar a população para atuar na prevenção aos desastres e durante situações de emergência nos territórios e, além disso, apoiar o processo de reconstrução das comunidades atingidas por situações extremas, como enchentes e tornados. A formação teve início em maio deste ano, dividida em encontros presenciais e atividades virtuais.
A FioCruz também lançou o primeiro Plano Popular Territorial para Enfrentamento dos Efeitos do El Niño, no Paraná. A intenção é replicar a iniciativa em outros estados do país.
“Nós estamos vivendo uma situação de crise climática muito grave e o que indica a ciência é que essa situação pode piorar com a chegada do El Niño no nosso país, portanto precisamos ter capacidade de aumentar a nossa resiliência, evitando as perdas materiais e humanas”, aponta Martins.
Homenagem à militante do MST
O nome da turma homenageia Maria Natividade de Lima, integrante do Setor de Saúde do MST, que faleceu em junho deste ano. Dona Maria, como era conhecida, era participante ativa das ações de solidariedade do movimento, inclusive na Brigada de apoio às famílias vítimas dos tornados em Rio Bonito do Iguaçu. Ela era produtora agroecológica, moradora do assentamento Contestado, na Lapa (PR), e também educanda da turma de brigadistas.

União entre organização popular e Estado
A parceria entre o MST, a Fiocruz e a Força Nacional do SUS é ponto central da formação. A proposta parte da articulação entre os conhecimentos construídos pelo movimento popular nos territórios e a experiência técnica das instituições que atuam na área da saúde.
A formação é construída como uma troca de saberes, unindo experiência popular e conhecimento técnico. A iniciativa utiliza a metodologia da Plataforma Picaps, desenvolvida pela Fiocruz Brasília, e protocolos reconhecidos internacionalmente adotados pela Força Nacional do SUS.
O curso articula educação popular em saúde, defesa civil comunitária, agroecologia e vigilância territorial para construir capacidades locais de autoproteção e inteligência cooperativa. A partir desses diálogos, a Força Nacional do SUS e a Fiocruz de Brasília, por meio da sua escola de governo, realizaram a formação e a construção de um plano popular de enfrentamento das consequências do fenômeno El Niño no Paraná

Para Maria Izabel Grein, integrante da coordenação do setor de Saúde do MST no Paraná e organizadora da formação, “o grande objetivo dessas brigadas é cuidar da vida, salvar vidas, diminuir o sofrimento e ajudar as pessoas.” A militante ainda defende que o curso deve ser reproduzido em meio à previsão de mudanças drásticas no clima para fortalecer o socorro público de maneira organizada e qualificada.
“No momento em que acontece o desastre, se a gente sabe o que fazer, a gente pode salvar muitas pessoas e amenizar muito sofrimento”, conta a militante, que também atuou na Brigada de Solidariedade do MST-PR durante as tempestades de novembro de 2025.

O fenômeno El Niño
A crise climática se intensifica a cada ano com a emissão dos Gases do Efeito Estufa (GEE), como o gás carbônico e o metano. O nível das temperaturas médias do planeta está aumentando drasticamente pela atividade humana, como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento.
Com esse aumento de calor, o fenômeno El Niño, que é um processo do planeta, também sofre desregulações. O aquecimento das águas do Oceano Pacífico é o principal efeito desse evento, mas o superaquecimento é causado pelas mudanças no clima.
O “super” El Niño, previsto para o período entre junho de 2026 e abril de 2027, é apontado como motivo para a ocorrência de tempestades e tornados no Sul do Brasil. Segundo dados do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (SIMEPAR), a primavera, que vai até dezembro, terá maiores índices de tempestades e eventos climáticos severos no estado.
Resultados da formação em brigadas populares
Djair Soares, coordenador do Núcleo de Educação Permanente da Força Nacional do SUS, explica que o curso foi organizado em sete módulos online e presenciais, e com avaliação por meio de um simulado final. “Avaliamos como está a capacidade desse grupo para poder fazer o apoio, o atendimento às necessidades humanitárias durante essas emergências climáticas, essas situações de desastres que possam estar acontecendo”, explica.
Entre os conteúdos estudados e praticados no curso estão:
- Primeiros socorros;
- comunicação de risco e resposta inicial a desastres;
- condução de diagnósticos participativos para mapeamento de riscos, vulnerabilidades e capacidades locais;
- implementação de estratégias de redução de risco de desastres e adaptação climática comunitária;
- desenvolvimento de sistemas locais de alerta e protocolos comunitários de emergência;
- aplicação de práticas de saúde pública comunitária, saúde ambiental e vigilância popular; integrar saberes locais com ferramentas técnicas;
- promoção de abordagens de resiliência socioambiental, agroecologia e soluções baseadas na natureza;
- estruturação de redes territoriais de brigadas articuladas e integradas aos serviços públicos.
De acordo com Djair, o principal objetivo da formação comunitária é partir da premissa de que o desastre é local: “As pessoas que vão estar inseridas dentro daquele território, elas vão ser afetadas por aquela emergência, e dar essas capacidades é promover a resiliência comunitária, até que a autoridade pública chegue para somar”.

O diretor do campus Laranjeiras do Sul da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Fábio Luiz Zeneratti, participou da cerimônia de entrega dos certificados. Ele lembrou os esforços para a organização de uma grande rede de organismos públicos, junto com a sociedade civil organizada, em especial do MST, para reagir aos efeitos dos tornados.
“Não gostaríamos que eventos climáticos extremos voltem a acontecer, mas sabemos que podem acontecer, estão acontecendo. Isso vai se tornar comum, porque a base produtiva do nosso país ainda não está nos parâmetros […] da agroecologia, que é pensar um modelo produtivo sustentável. Isso está para se construir. Mas aos poucos, com força e coragem, nós vamos construindo”, garantiu.
*Estagiário sob supervisão de Murilo Bernardon.


