Da questão de Taiwan à guerra no Oriente Médio, a rivalidade entre China e Estados Unidos passou a envolver riscos que ultrapassam as disputas comerciais e tecnológicas e podem ter consequências para a segurança internacional. Para o professor Qu Qiang, vice-decano da Escola de Jornalismo da Universidade Minzu da China, a reunião entre Xi Jinping e Donald Trump em Washington deve ser entendida justamente nesse contexto: não como uma tentativa de encerrar a rivalidade, mas de criar mecanismos para administrá-la.
“O aspecto mais importante desta reunião não é que ela tenha produzido um avanço dramático, mas que tenha ajudado a impedir que a relação entre China e Estados Unidos volte a entrar em um novo ciclo de confronto”, afirma Qu, em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato.
O encontro entre os dois presidentes ocorreu depois de meses de negociações comerciais e em um cenário internacional marcado pela guerra no Oriente Médio, pelas tensões em torno de Taiwan e pela crescente disputa tecnológica entre Washington e Pequim. Para Qu, essa combinação explica por que a reunião não deve ser analisada apenas pelos acordos comerciais anunciados após o encontro. O que está em jogo é a capacidade das duas potências de estabelecer limites para uma competição que se tornou estrutural.
Para o professor, a manutenção do diálogo direto entre os dois presidentes é importante justamente porque a rivalidade entre as duas potências envolve questões que podem levar a confrontos e produzir consequências muito além da relação bilateral.
“A relação já não é simplesmente uma disputa comercial. Agora envolve tarifas, tecnologia e inteligência artificial, terras raras, o Estreito de Taiwan, segurança militar e a guerra no Oriente Médio.”
Comércio e uma nova interdependência
Entre os pontos discutidos estão a redução de tarifas sobre produtos não sensíveis, a criação de um Conselho de Comércio bilateral, o acesso ao mercado agrícola e as negociações sobre terras raras e minerais críticos. Os dois países também avançaram no diálogo sobre inteligência artificial.
Para Qu, a IA apresenta uma característica particular: ao mesmo tempo em que se tornou uma área de competição estratégica, também exige algum grau de cooperação para discutir riscos e evitar usos considerados perigosos. A questão das terras raras segue lógica semelhante, já que a China permanece central em diversas cadeias globais desses minerais, enquanto os Estados Unidos buscam reduzir vulnerabilidades no abastecimento.
Nesse cenário, Qu afirma que a relação econômica não deve retornar ao modelo de integração irrestrita que marcou décadas anteriores.
“O modelo que está surgindo provavelmente será de interdependência administrada: as duas economias continuarão comercializando extensivamente, mas tecnologias sensíveis, recursos estratégicos e setores relacionados à segurança nacional permanecerão fortemente disputados.”
Taiwan: uma questão central para Pequim
Entre os temas discutidos por Xi e Trump, Taiwan ocupa uma posição particularmente sensível. Para Pequim, a ilha faz parte do território chinês e a questão está diretamente relacionada aos chamados interesses fundamentais da China.
Durante o encontro, Xi pediu que os Estados Unidos se oponham à independência de Taiwan e tratem a questão com cautela. Washington, por sua vez, mantém relações não oficiais com Taiwan e continua fornecendo armamentos à ilha, enquanto afirma apoiar a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan.
Para Qu, Taiwan é o ponto da relação bilateral que envolve o maior risco de uma eventual confrontação militar.
“Taiwan é provavelmente a questão politicamente mais sensível de toda a relação, porque, ao contrário das tarifas ou das compras agrícolas, ela toca diretamente nos interesses fundamentais da China e na possibilidade de uma confrontação militar entre China e Estados Unidos.”
Segundo o professor, o objetivo imediato de Pequim é evitar uma deterioração adicional do ambiente estratégico em torno da ilha. Isso inclui, em sua análise, limitar ou adiar novas vendas de armas e impedir medidas que possam ser interpretadas por Pequim como apoio à independência de Taiwan.
Ao mesmo tempo, Qu observa que Washington também atribui importância estratégica à questão e mantém compromissos de segurança com aliados na Ásia. Por isso, o professor não espera que uma reunião entre Xi e Trump seja capaz de resolver a questão de Taiwan.
“O objetivo mais realista é o gerenciamento de crises: manter a situação política e militar longe de uma escalada, preservando espaço para futuras negociações.”
Oriente Médio: guerra contra o Irã e Gaza
A guerra no Oriente Médio acrescenta outra dimensão à rivalidade entre as duas potências. O conflito envolvendo o Irã tem consequências econômicas que ultrapassam as fronteiras da região, especialmente pelos efeitos sobre os preços da energia e sobre a segurança das rotas marítimas.
Durante a reunião, Xi e Trump também trocaram opiniões sobre o Oriente Médio, a Ucrânia e a Península Coreana. Segundo o governo chinês, Xi apoiou esforços para que Estados Unidos e Irã retomem um cessar-fogo e avancem posteriormente para um acordo de paz.
Para Qu, entretanto, “é improvável que a China simplesmente se torne um instrumento da política dos Estados Unidos em relação ao Irã”. “Pequim tem seus próprios interesses na manutenção das relações com Teerã, na segurança energética e na preservação da liberdade de navegação e da estabilidade regional.”
O professor avalia que a contribuição chinesa tende a ocorrer por meio do incentivo à contenção, do apoio às negociações e do uso de suas relações diplomáticas e econômicas na região para facilitar a comunicação.
A guerra em Gaza também permanece como um dos principais focos de tensão internacional. A China defende um processo político e a implementação da solução de dois Estados como caminho para uma saída duradoura para o conflito. Para Qu, a dimensão internacional da reunião está justamente na possibilidade de estabelecer mecanismos de cooperação entre Pequim e Washington em temas nos quais os interesses dos dois países ultrapassam a relação bilateral.
“Se China e Estados Unidos conseguirem estabelecer mecanismos de cooperação sobre Irã, segurança energética, inteligência artificial e outras questões globais, apesar da rivalidade bilateral, isso poderá ter consequências muito além dos dois países.”
América Latina: Cuba e Venezuela sob pressão
Embora a América Latina e o Caribe não tenham sido o centro da reunião, a relação entre Washington e Pequim também produz efeitos sobre a região.
No caso de Cuba, o contexto é marcado pelo endurecimento das medidas de pressão dos Estados Unidos. Em fevereiro, o G77 + China (coalizão de países em desenvolvimento da ONU) criticou novas medidas relacionadas ao bloqueio, incluindo restrições ao fornecimento de petróleo e sanções contra terceiros que mantenham relações comerciais legítimas com a ilha.
A questão também envolve impactos humanitários. Em junho, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos afirmou que as sanções estadunidenses estavam colocando vidas em risco e pediu sua suspensão.
Para Qu, Pequim tem interesse em impedir que a rivalidade com Washington se transforme em uma nova frente de confronto em torno de Cuba.
A situação venezuelana é ainda mais diretamente ligada à disputa geopolítica. Em janeiro de 2026, forças dos Estados Unidos capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro durante uma operação militar. O governo venezuelano classificou a ação como um sequestro. Especialistas em direito internacional também questionaram a base jurídica para o uso da força.
Meses depois, a própria Casa Branca passou a apresentar sua política para a Venezuela em termos de uma retomada da chamada Doutrina Monroe, afirmando que o governo Trump havia “restabelecido” a doutrina na região.
É nesse contexto que Qu avalia os efeitos da rivalidade sobre a América Latina.
“Para a Venezuela, as implicações são mais geopolíticas. Washington aumentou dramaticamente sua ênfase no Hemisfério Ocidental, enquanto a China tem importantes interesses econômicos e estratégicos na Venezuela.”
Para o professor, uma relação mais estável entre Washington e Pequim poderia reduzir o risco de que Venezuela e Cuba se tornassem novos espaços de confronto direto entre as duas potências, embora não eliminasse seus interesses divergentes.
O cenário também tem implicações para o Brasil. China e Estados Unidos são importantes parceiros comerciais, e a disputa pelos mercados agrícolas chineses pode afetar diretamente produtores brasileiros, especialmente no setor de soja.
“Para o Brasil, a consequência mais importante pode ser econômica, e não geopolítica. A China é um grande mercado para as commodities brasileiras, particularmente a soja, enquanto os Estados Unidos buscam simultaneamente ampliar suas exportações agrícolas para a China.”
Na avaliação de Qu, países latino-americanos têm interesse em evitar que a região se transforme em uma arena de disputa entre Washington e Pequim.
Uma rivalidade administrada
Apesar dos acordos alcançados, Qu não considera que a reunião represente o fim da competição estratégica entre China e Estados Unidos. O que está em discussão, segundo ele, é a criação de mecanismos capazes de impedir que a rivalidade ultrapasse determinados limites.
“Não deveríamos exagerar a importância da cúpula. A competição estratégica fundamental entre os dois países não desapareceu.”
Por isso, o professor define o encontro como uma cúpula de estabilização, e não de reconciliação. “Seu sucesso deve ser medido menos pela capacidade da China e dos Estados Unidos de resolverem suas diferenças e mais pela capacidade de impedir que essas diferenças se transformem em conflitos incontroláveis.”
Para Qu, esse talvez seja o principal desafio colocado pela atual fase das relações entre as duas maiores potências econômicas do mundo: administrar uma competição que não deve desaparecer, mas que pode produzir efeitos muito além das fronteiras dos dois países.
“O verdadeiro significado da cúpula é saber se as duas potências podem passar de uma rivalidade estratégica sem regras para uma rivalidade estratégica com mecanismos de cooperação e controle de crises.”


