Na manhã desta quinta-feira (1º), trabalhadores da Petrobras realizaram um ato na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária (PR), pelos 73 anos da estatal. Os petroleiros cobraram a reestatização de ativos e defenderam a soberania energética do país. Mais de mil pessoas participaram da manifestação, incluindo sindicatos, movimentos, candidatos e apoiadores.
“Eu me sinto fazendo aniversário junto com a Petrobras”, conta Ronaldo Silva, trabalhador terceirizado do setor de manutenção elétrica da Repar desde 2008. Ele é um dos mais de 600 funcionários que atuam na refinaria, entre engenheiros e técnicos, com contratos renovados, que participaram da manifestação.
Apesar da chuva, o clima foi de celebração, com apresentação musical do violeiro Leonel Nascimento e da bateria Unidos da Lona Preta, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Houve também a partilha de um bolo de aniversário, produzido pela rede de Padarias Comunitárias Fermento da Massa.
O ato, organizado pelo Sindicato dos Petroleiros do Paraná (Sindipetro-PR/SC) e pelo Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Petroquímica do Paraná (Sindiquímica-PR), chamou atenção para o papel estratégico da Petrobras no desenvolvimento econômico e social do país.

“A Repar era para ser vendida, privatizada. Quando você pega essa refinaria, uma instituição federal, e dá para o setor privado, a gente sabe que a privatização só piora a qualidade do serviço. A exemplo de outras refinarias que foram vendidas, o combustível se tornou mais caro. A precarização vai até para os próprios trabalhadores das refinarias vendidas, para os sindicatos. A classe é criminalizada nessa gestão de privatização”, conta.
Ronaldo também conta que, dentro da Petrobras, teve a oportunidade de sair do Paraná e conhecer Pernambuco, onde trabalhou numa plataforma de petróleo, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “A gente só tem essa oportunidade quando tem um governo progressista que faz esse tipo de investimento. Para que o Brasil cresça com desenvolvimento”, relata.
Entre as pautas da manifestação também está a defesa de uma transição energética que concilie desenvolvimento, geração de empregos e sustentabilidade.
O Brasil no controle dos combustíveis
No dia a dia, a Repar emprega mais de 2,5 mil trabalhadores. Nesse momento, com a parada de manutenção, são 6 mil empregados. A categoria defende que o controle do Estado caminha junto com o avanço nos direitos trabalhistas e no salário justo dos trabalhadores.
No ano que vem, a Repar terá mais uma obra: uma nova unidade de destilação para produzir diesel. O Brasil, hoje, tem déficit no comércio do combustível, ou seja, importa mais do que exporta o produto no mercado global. “Precisamos ficar menos dependentes do mercado exterior, nesse cenário de guerras, com produção de combustível própria”, explica João Felchak, presidente do Sindipetro/PR-SC.

A gestão Bolsonaro, em 2022, após as eleições daquele ano, vendeu a SIX, refinaria da Petrobras de São Mateus do Sul (PR), que processa xisto para a produção de óleo, gás e enxofre. O braço da companhia, que agora pertence à iniciativa privada, tem uma unidade de pesquisa, que continua operando. “A gente paga aluguel, não é justo pagar aluguel por algo que já foi nosso”, conta Felchak.
O sistema Petrobras transforma petróleo em diesel e gasolina, para depois distribuir aos consumidores. Com a privatização da BR Distribuidora em agosto de 2021, parte da estatal que cumpria essa função, o Brasil perdeu o controle dos preços dos combustíveis. “O governo tem feito várias medidas provisórias para tentar manter o preço da gasolina acessível, mas precisamos da BR Distribuidora estatizada junto ao sistema, porque antes tínhamos o controle dos preços”, explica.

O sindicato defende que a unidade seja reestatizada e que volte a implementar os projetos que estão engavetados. Também reivindicam que, na retomada pública, se mantenham os postos de trabalho dos trabalhadores que já estão atuando na empresa.
“Tudo que o governo repassa não chega no preço na bomba de gasolina, porque não temos mais o controle. Nosso lema era ‘do poço ao posto’; hoje não temos mais acesso ao posto. Precisamos reeleger o Lula para garantir a retomada dessas unidades estratégicas e para garantir uma Petrobras soberana”, argumenta o líder sindical.
Autonomia diante das incertezas globais
Paulo Antunes, dirigente do Sindiquímica e trabalhador da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen), unidade também pertencente à Petrobras, explica que é preciso celebrar a comunhão da classe trabalhadora. “A celebração dos 73 anos tem tudo a ver com a retomada dos ativos que foram vendidos no desgoverno [de Jair Bolsonaro]. Para nós, é muito importante estarmos aqui hoje para celebrar a unidade”, conta.
A Fafen representa quase 10% da produção de fertilizantes no Paraná. Em dezembro, a empresa retoma a produção de ureia, insumo importante para a indústria química. O conflito entre Rússia e Ucrânia, no leste europeu, elevou os custos de produção agrícola. O Brasil é dependente dos fertilizantes russos, e o fortalecimento da produção nacional é um caminho para a soberania na agricultura.

A fábrica é ligada à refinaria, formando um grande complexo. A Repar fornece insumos para a produção de fertilizantes, que vão para as indústrias químicas. “Com a retomada da unidade de fertilizantes, chegamos a 4 mil trabalhadores no ano passado”, lembra Antunes.
Em agosto de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou em ato público o início das obras para a retomada da Fafen no Paraná. A unidade havia sido fechada em 2020, durante o governo Bolsonaro. Em frente à refinaria, Lula se emocionou enquanto falava aos petroleiros paranaenses: “Vocês não têm dimensão do orgulho que estou de estar vestindo essa camisa da Petrobrás”.
“Nessas eleições, temos o compromisso com a democracia. O compromisso de eleger representantes da classe trabalhadora, que façam com que isso aconteça. A retomada da Petrobras, novos ativos, investimentos, geração de emprego e renda. Temos que seguir avançando, enquanto classe,” argumentou Antunes.

Defesa da Petrobras é luta do povo trabalhador
“Nós precisamos manter o governo progressista. Se não fizermos isso, os trabalhadores vão ficar sem um projeto. Precisamos das urnas lotadas neste domingo”, convoca Sandra Brea Costa, diretora de aposentados e pensionistas do Sindipetro-PR/SC.
A sindicalista conta que, junto ao marido, que trabalhou por 39 anos na Repar, sempre atuou no sindicato, mesmo após a aposentadoria. “Em 28 de março de 2021, ele faleceu em razão da covid-19. Ele esperava muito a vacina, mas, devido a um governo genocida, que estava querendo lucrar 1,5 dólar por dose para sua família, ele veio a falecer”, conta.
“A gente não pode desistir da luta. Não quero que ninguém passe mais por esse sofrimento. Não quero que nenhum pai e nenhuma mãe sofram com isso”, alerta, emocionada.
Também estavam presentes no ato os candidatos ao Senado pelo Paraná, Gleisi Hoffmann (PT) e Dr. Rosinha (PT). Para eles, as eleições deste ano representam uma encruzilhada histórica de defesa da soberania e da luta popular.
“Não é fácil enfrentar os interesses contra nosso país. Depois de Getúlio Vargas, só um presidente também ousou desafiar o mundo e dizer: ‘nós vamos produzir mais petróleo do que nos é permitido’. Esse presidente foi Lula, que fez o pré-sal, mostrando que podemos ser autossuficientes na produção de petróleo”, lembra Gleisi.
Para Dr. Rosinha, a extrema-direita tem o plano de entregar tudo ao mercado externo, caso saia vitoriosa em 2026. “Essa eleição não é entre candidatos, é entre projetos diferentes. Nossa vida depende desse resultado. Está entre humanismo e barbárie”, declara. Candidatos a deputado estadual e federal também participaram do ato.
“O petróleo é nosso”
A Petrobras foi fundada em 3 de outubro de 1953 pelo presidente Getúlio Vargas. A criação veio após um forte movimento da sociedade com o lema “O petróleo é nosso”, que rejeitava a entrada de empresas estrangeiras no setor. A lei de fundação da companhia deu à União o monopólio da pesquisa, lavra, refino e transporte do petróleo no Brasil, exercido por meio da nova estatal.
À época, o governo trabalhista e setores nacionalistas acreditavam que o controle das riquezas fósseis era essencial para evitar a dependência externa e proteger o Brasil das oscilações do mercado internacional. Nos governos de Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019-2022), a Petrobras foi desmembrada e teve unidades vendidas à iniciativa privada.

“Assim como Getúlio, Lula pagou o preço por ser perseguido por defender nossa soberania do nosso país. Não é pouca coisa, então meus parabéns aos trabalhadores e às trabalhadoras, aos sindicatos,” disse Gleisi, no ato na Repar.
Em 2020, uma pesquisa da Revista Fórum revelou que 57% dos cidadãos brasileiros não queriam a privatização da estatal. Apesar disso, as medidas neoliberais repartiram setores da companhia, o que enfraqueceu o controle do Brasil sobre o petróleo e a autonomia energética.


