Revisitar a obra de Dorival Caymmi depois de construir uma identidade própria foi, para Alice Caymmi, uma decisão ligada à maturidade. No álbum “Caymmi”, lançado este ano, a cantora retorna às próprias raízes, leva as composições do avô para novas sonoridades e busca aproximar esse repertório de outras gerações.
Em entrevista à Rádio Brasil de Fato, Alice também comentou o cenário político às vésperas das eleições e explicitou seu posicionamento. “Eu sou de esquerda e sou Lula, evidente”, declarou a cantora.
O primeiro turno das eleições acontece neste domingo (4). Questionada sobre o que pesa para ela neste momento do país, Alice demonstrou preocupação com a possibilidade de repetição de experiências políticas recentes.
“O que pesa para mim é o medo de viver aquele pesadelo de novo. Eu não quero. O que mais me assusta é isso”, afirmou a artista. “A gente sabe o que viveu: as mortes, tudo decorrente do fascismo e daquela loucura toda, a perseguição aos artistas, o desmonte da cultura. Isso me dá um nervosismo muito grande e o pavor de ser jogada naquela maldição novamente”, acrescentou.
Ao final da conversa sobre política, Alice também recorreu ao humor e à religiosidade ao falar sobre o momento do país.
“Viva Nossa Senhora Aparecida, que vai salvar isso tudo. Eu estou muito feliz com ela e nunca fui tão devota na minha vida”, disse a cantora, aos risos.
Volta às raízes
Antes de chegar a “Caymmi”, Alice passou boa parte da carreira construindo uma trajetória artística própria. Questionada sobre por que decidiu mergulhar justamente agora no repertório do avô, ela relacionou a escolha ao momento que alcançou profissionalmente.
“Essa é uma escolha que parte de um lugar de maturidade, de entendimento de que o meu trabalho chegou a um lugar de identidade muito forte e interessante”, explicou a cantora.
“Eu senti que tinha autorização minha própria de fazer uma volta às raízes, para tentar entender as minhas origens dentro do que eu já tinha estabelecido para mim como identidade”, completou.
No disco, Alice não procura reproduzir as versões clássicas das canções. As composições de Dorival passam por diferentes universos sonoros, com referências que incluem reggae, hip-hop, salsa e elementos eletrônicos.
Ao experimentar essas novas roupagens, a intérprete diz ter se surpreendido com as possibilidades oferecidas pelo repertório.
“O mais impressionante para mim foi a descoberta de como a música dele se encaixa bem em moldes modernos, com muita tranquilidade”, contou.
“Não foi difícil pegar as canções dele, que já eram muito populares e simples, de uma certa forma, e colocar nos dias atuais ou até mudar de gênero musical. Isso foi algo muito surpreendente”, afirmou Alice.

Herança Caymmi
A relação com o sobrenome Caymmi também se transformou ao longo da trajetória da cantora. No início da carreira, lidar com uma família tão presente na história da música brasileira provocava outros questionamentos.
“No primeiro momento a gente fica meio: ‘Ai, o que é que eu vou fazer com isso? O que vou fazer com essa herança?’. Passam pela mente tentativas de negação, mas aprendi rapidamente que isso não leva a lugar nenhum”, contou.
Com o tempo, a artista passou a enxergar outros aspectos dessa herança. “Eu entendi também que não é um peso tão grande quanto as pessoas pensam; há muita coisa boa. Tem uma herança espiritual, de luz e de coisas muito boas que vêm para a nossa vida quando a gente vem de uma linhagem de artistas desse porte”, afirmou.
Entre as referências dessa família está Nana Caymmi. Ao falar sobre a influência da tia em sua própria formação artística, Alice destacou a maneira como ela conduziu a carreira. “Ela sempre foi muito fiel ao que gostava e ao que queria, muito fiel à sua identidade. Isso é algo que trago dela”, disse a cantora.
Para Alice, ter uma identidade forte não significa permanecer restrita a um único gênero musical. “Eu tenho isso com a minha voz. A minha voz é assim e eu funciono de uma certa maneira como intérprete. A Nana é uma referência muito grande para mim”, explicou.
Mulheres na música
A influência de Nana também levou Alice a refletir sobre o que artistas de diferentes gerações podem compartilhar em suas trajetórias profissionais.
“O que a gente pode trazer para hoje é a coerência e a teimosia que um artista tem que ter no Brasil”, avaliou.
“Para você se estabelecer, tem que ser no mínimo teimoso, persistentemente teimoso e não se deixar levar pelas coisas chatas que acontecem, porque acontece muita coisa chata na vida de um artista hoje em dia”, acrescentou a cantora.
Novas gerações
Para Alice, “Caymmi” também pode funcionar como uma porta de entrada para um público mais jovem que ainda não conhece o repertório de Dorival. A cantora conta que a reação de alguns ouvintes às novas versões chegou a surpreendê-la.
“Às vezes, inclusive, ouve o disco e acha que é meu. As pessoas que não conhecem acham que as músicas são minhas”, contou, aos risos.
Segundo Alice, a recepção reforça para ela a permanência dessas composições no tempo.
“Não é difícil fazer essas pessoas gostarem dessas canções, até porque elas são universais, sucintas, impressionantes e eternas”, avaliou a artista.
A cantora também acredita que as novas roupagens ajudam a quebrar uma possível distância entre o repertório e quem o descobre agora.
“Elas não são vistas pelas novas gerações como: ‘Ai, que coisa antiga bonita que eu tenho que estudar’. Não. Como eu coloquei essa roupagem, a garotada ouve e fala: ‘Nossa, que música nova linda, adorei!’”, afirmou.

Do disco ao palco
O projeto chega nesta sexta-feira (2) à Casa Natura Musical, em São Paulo. Além do repertório do álbum, o show abre espaço para músicas de outros momentos da carreira de Alice.
“Eu coloquei nesse show também muitas músicas minhas. Os fãs que gostam das canções da minha carreira vão ter uma amostra disso dentro da estética do disco”, antecipou a cantora.
“É esse disco sendo tocado ao vivo, o que é bem bacana, com uma banda muito legal, e as minhas canções também”, completou.
Serviço
Alice Caymmi — “Caymmi”
Quando: sexta-feira, 2 de outubro, às 21h
Onde: Casa Natura Musical
Endereço: Rua Artur de Azevedo, 2134, São Paulo (SP)

