Um dos participantes de uma manifestação que espalhou, na quarta-feira (30), faixas em diferentes pontos de Brasília com a pergunta “Celina Leão, cadê o dinheiro do BRB?” foi intimado pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) para prestar esclarecimentos nesta sexta-feira (2).
Saulo Dias Kalunga recebeu o documento da 38ª Delegacia de Polícia (38ª DP), que o convocou para uma oitiva na condição de “envolvido” na ocorrência policial. A intimação foi emitida nesta quinta-feira (1º) e determina que Saulo compareça à delegacia para prestar esclarecimentos nesta sexta (2). O documento não especifica qual fato está sendo apurado, nem faz referência às faixas, ao BRB ou à governadora Celina Leão (PP).
Na quinta-feira (1º), enquanto estendiam novamente a faixa na plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto, agentes do DF Legal recolheram a faixa, que mede 12 metros. Nesta sexta-feira (2), novamente, a manifestação do grupo foi interpelada por agentes do DF Legal e policiais militares.
Saulo Kalunga afirma que a ação teve caráter pacífico e que o objetivo era cobrar da governadora explicações sobre a situação financeira do Banco de Brasília.
“Estamos exercendo nosso direito de manifestação e fazendo uma pergunta simples: Celina, onde está o dinheiro do BRB? Diante de ações repetidas contra a nossa manifestação, fica a pergunta: por que tanto esforço para impedir que essa cobrança seja feita? Nossa manifestação é pacífica. Nossa pergunta é legítima. E vamos continuar cobrando respostas”, disse em publicação nas redes sociais.
“A Celina Leão, ao invés de responder à pergunta que está na nossa faixa, ‘cadê o dinheiro do BRB?’, ela pega, usa a mão do Estado, a polícia, para poder tentar nos intimidar”, afirmou.

Diferentes pontos
De acordo com o relato do manifestante, o grupo começou a instalar as faixas em 30 de setembro, em estruturas como viadutos e passarelas de Brasília. Outra faixa, instalada na saída sul do Distrito Federal, nas proximidades dos acessos ao Gama e a Santa Maria, teria sido recolhida pelo DF Legal. Segundo os manifestantes, o órgão alegou irregularidade na instalação do objeto em área pública.
Saulo contesta a abordagem e afirma que as mensagens não tinham identificação partidária. “A nossa ideia foi questionar a governadora sobre onde está o dinheiro do BRB. Por que, até hoje, sendo que já estamos quase no final de 2026, ainda não foi publicado o balanço do BRB referente ao ano de 2025. A população inteira também quer essas respostas.
Embora filiado ao Partido dos Trabalhadores, a faixa exposta por Saulo Dias Kalunga não contém sigla ou número de candidatos à eleição.
De acordo com o advogado especialista em direito eleitoral, Miguel Novaes, a instalação de propaganda eleitoral em estruturas públicas é proibida, mas há diferença entre propaganda e manifestação política.
“Não vejo a manifestação como crime eleitoral. Irregularidade eleitoral é usar ponte, viaduto, passarela, poste ou qualquer coisa do gênero para pendurar propaganda eleitoral. Neste caso, apesar de compreender ser bem discutível se isso se trata de propaganda ou manifestação, tem que preservar a liberdade de expressão”, explica.
Intimidação
Um segundo participante da ação, que pediu para não ser identificado, relatou ao Brasil de Fato DF uma abordagem ocorrida nesta sexta (2), durante a instalação da mesma faixa em uma passarela do Varjão, região administrativa do Distrito Federal.
Segundo o manifestante, o grupo havia colocado a faixa por volta das 6h30 e se preparava para retirá-la quando dois homens se aproximaram. “Nós esticamos a faixa por volta das 6h30 e, quando já íamos tirar, dois caras começaram a subir a passarela atrás da gente. Um rapaz com a camiseta azul da Celina perguntou se a faixa era nossa e disse que não podia, que era ilegal”, relatou.
“Nós perguntamos por que era ilegal. Não era propaganda política, era manifestação da sociedade civil. Em momento algum tinha questão de partido ali, então não pode se configurar enquanto campanha política”, completou.
O participante também afirma que, durante a discussão, outras pessoas se aproximaram e que um dos homens teria mostrado uma arma. “Um deles estava armado. Ele levantou a camiseta e depois ficou pegando na cintura, ameaçando a gente, intimidando, pisou e tentou tomar a faixa”, afirmou.

Procurada pelo Brasil de Fato DF, a Polícia Civil informou que não fornece informações antecipadas sobre procedimentos ainda em apuração, especialmente antes das oitivas e de outros atos investigativos. Segundo a corporação, o sigilo busca preservar as diligências e os direitos das pessoas envolvidas. A PCDF afirmou que eventuais esclarecimentos serão prestados no momento processual adequado.
O DF Legal informou que a faixa foi instalada sem licença prévia e que a fiscalização teve como base a Lei nº 1.771/1997, que, segundo o órgão, exige autorização para a instalação de objetos em áreas públicas. O órgão confirmou que houve apoio policial durante a ação, mas afirmou que a fiscalização ocorreu dentro das ações de rotina e negou outra motivação para a retirada da faixa. A assessoria da governadora Celina Leão também foi procurada pela reportagem, mas não respondeu até a publicação desta matéria.
Cobrança
A manifestação ocorre em meio à crise do Banco de Brasília e à cobrança pela divulgação das demonstrações financeiras da instituição. O BRB não publica demonstrações financeiras desde setembro de 2025. Em abril deste ano, a Assembleia Geral de Acionistas suspendeu a análise e votação das demonstrações financeiras referentes ao exercício de 2025 justamente pela ausência de publicação dos documentos.
Em março, o banco informou ao mercado que a publicação das demonstrações financeiras de 2025 seria postergada em razão da necessidade de conclusão da auditoria forense relacionada à Operação Compliance Zero e da avaliação dos impactos sobre as contas da instituição.
O tema voltou ao centro da disputa eleitoral no Distrito Federal nos últimos dias. Durante o debate entre candidatos ao Governo do Distrito Federal (GDF) promovido pela TV Globo, na última terça-feira (29), Leandro Grass (PT) questionou Celina Leão (PP) sobre a situação do banco e citou a transferência de R$ 120 milhões do Fundo de Saúde do DF para uma conta no BRB.
Para Saulo Dias, a cobrança feita nas faixas é uma forma de pressionar o governo por respostas sobre o banco público. “Ao invés de usar o Estado para tentar nos intimidar, para nos combater, é só responder onde está o dinheiro do BRB, Celina. O dinheiro é do povo de Brasília”, afirmou.
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