O formato atual de debates em TV aberta tem se mostrado pouco relevante para o convencimento do eleitor, que busca plataformas digitais para se informar sobre os candidatos e tirar suas conclusões. Ainda assim, a mídia comercial segue insistindo nesse formato. Nesta quinta-feira (1º), o tradicional último debate realizado pela Rede Globo antes do primeiro turno não aconteceu após uma série de reviravoltas por decisões judiciais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia anunciado, na quarta-feira (30), sua decisão de não comparecer ao programa e confirmou presença no podcast Flow. Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário, havia confirmado a participação. Os candidatos Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) não atenderam às regras estipuladas pela emissora junto às campanhas dos mais votados e não tiveram, em um primeiro momento, o direito de participar. Contudo, decisões judiciais do Supremo Tribunal Federal (STF) autorizaram a participação de Zema e Santos, e, uma outra, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a exibição do púlpito de Lula vazio. Na sequência, Flávio anunciou nas redes sociais a desistência de ir ao debate.
Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, o cientista político Mateus de Albuquerque, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), avalia que a desistência de última hora de Flávio decorre da autorização da presença de Renan Santos. O professor considera que o cenário ideal para Flávio era ter a presença de Lula ou apenas políticos de direita que não o contestariam. “O Flávio só queria estar no debate em dois cenários: o primeiro seria ele, políticos que não o arranhariam e o Lula, que aí ele e estes políticos mirariam artilharia no Lula, ou um debate em que seria ele e políticos que não o arranhariam. Então seria um palanque”, avalia.
Para ele, a fuga de Flávio diante da presença de Santos pegou mal. “O partido Missão e o Renan Santos é uma candidatura pequena, não deve ter muita expressividade eleitoral, mas tem ampla penetração nas redes, tem um domínio de uma determinada faixa de público mais jovem, masculino, conseguir disputar nessa base, a ideia de que o Fábio Bolsonaro fugiu do Renan”, avalia.
Albuquerque observa que Renan Santos tem consciência de que não vencerá, mas quer disputar o terreno da direita, mirando 2030. Além disso, o analista observa que o cenário está calcificado e quem “decidirá a eleição será 2%, 3% do eleitorado”.
O cientista político Adriano Oliveira, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), concorda com a análise de votos cristalizados e é incisivo ao avaliar que o cancelamento do debate não gerará qualquer impacto. “Serve como pauta da imprensa, ele serve como pauta das redes sociais, ele serve como pauta para os cientistas políticos avaliarem a interferência do poder judiciário nos veículos de comunicação. Todavia, a influência na decisão do voto não irá ocorrer”, aponta.
Oliveira destaca que essa é a “eleição do medo” e que sairá vitorioso quem conseguir ter menos rejeição. “As duas campanhas, tanto a de Lula como a de Flávio, são muito bem feitas, as narrativas estão muito bem construídas. Todavia, nenhum conseguiu aumentar a rejeição do outro. Isso mostra como está fortalecida a polarização, como o voto está calcificado e como essa eleição vai ser acirradíssima”, pondera.
Além disso, o especialista observa que os candidatos que tentaram se apresentar como uma terceira alternativa se mostraram enfraquecidos porque não se diferenciam tanto de Flávio. “A terceira via teve a oportunidade de oferecer um candidato, mas, quando ofereceu, quis que esse candidato fosse bolsonarizado e, com isso, não conseguiu quebrar a polarização”, analisa. “Caminhamos para uma eleição semelhante à de 2022.”
SP como ato final
Os dois principais candidatos escolheram concluir as campanhas em São Paulo: Lula faz ato na Paulista ao lado de Fernando Haddad (PT), candidato ao governo, na capital, e Flávio Bolsonaro cumpre agenda ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), favorito à reeleição, no interior do estado.
Para Adriano Oliveira, a decisão é bastante previsível, já que o estado de São Paulo é o maior colégio eleitoral do país. “Em segundo lugar, Lula precisa de mais votos em SP. E Flávio precisa de Tarcísio para ganhar a eleição”, resume. A tendência, ainda segundo Oliveira, é que a eleição estadual paulista termine no primeiro turno e, nesse sentido, “será curioso ver o comportamento” de Tarcísio no segundo turno. “Ele vestirá realmente a camisa de Flávio Bolsonaro? Ficará neutro porque a neutralidade serve a ele? Se ele ficar neutro e Flávio perder a eleição, Lula não será mais candidato em 2030. Então, Tacísio de Freitas é favorito a vencer a eleição em 2030, olhando para um cenário de hoje”, pondera.
O professor Mateus de Albuquerque destaca que ambas as campanhas foram mornas durante a maior parte do tempo, e não se conectaram com a base e com as ruas. Por essa razão, a “estratégia para essas horas finais é focar na rua”.
Albuquerque reforça a influência da cobertura da mídia comercial nessa reta final e critica a postura da Globo, que, segundo ele, ao cancelar o debate, se colocou de forma explícita a favor de um lado. “A postura da Rede Globo ficou explícita em favor do candidato Flávio Bolsonaro. Existe uma mudança de postura da Globo em comparação com a eleição de 2022, quando a Globo não queria a reeleição de Bolsonaro. Agora claramente não quer a reeleição de Lula e retoma seu padrão”, pontua.
O analista também rebate a narrativa bolsonarista de que o debate foi “cancelado por decisões judiciais”. “O debate foi cancelado após a desistência do Flávio”, frisa.
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O É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira às 07h da manhã na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

