REFLEXÃO

‘Combater o racismo na literatura é trabalhar pela emancipação de todos’, afirma Luiz Mauricio Azevedo

Segunda edição de Estética e Raça – Ensaios sobre a literatura negra será lançada neste sábado (3)

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Luiz Mauricio Azevedo conversa com o professor Luís Augusto Fischer. A entrada é gratuita
Luiz Mauricio Azevedo conversa com o professor Luís Augusto Fischer. A entrada é gratuita | Crédito: Nádia Kouchi

“Hoje a gente já pode falar de racismo nos leitores. Estamos mais maduros para encarar o tema.” A reflexão é do crítico literário e editor de livros Luiz Mauricio Azevedo, autor de “Estética e Raça – Ensaios sobre a literatura negra”, que ganha uma segunda edição pela Editora Coragem. O lançamento ocorre neste sábado (3), a partir das 17h, na Livraria Baleia, em Porto Alegre. Na ocasião, Azevedo conversa com o professor Luís Augusto Fischer. A entrada é gratuita.

Publicado originalmente com 16 ensaios críticos, o livro aborda a literatura afro-brasileira e afro-americana, os impactos do racismo estrutural na cultura, entre outros temas. A nova edição mantém o texto original de Azevedo, mas conta com novo projeto gráfico, assinado por Cintia Belloc, e um posfácio especial do escritor Marcelo Cortes.

Na avaliação dos editores, a reedição reafirma a atualidade dos debates propostos pela obra. O historiador e editor de livros Fernando Baldraia também destaca a experiência de leitura proporcionada pelo trabalho de Azevedo.

“Quando um intelectual nos oferece repertório, sofisticação, humor, inteligência e verve, retribuímos (sem nem fazer força) com uma leitura que é pura atenção e deleite. É o que devemos a Luiz Maurício Azevedo (mesmo quando contrariados!). É o que te acontecerá ao ler este livro”, afirma.

‘Um acerto de contas com alguns de nossos otimismos fracassados’

Ao comentar a nova edição, Luiz Mauricio Azevedo relaciona o momento em que escreveu o livro às expectativas geradas pela pandemia e pelo movimento Black Lives Matter. “Quando escrevi o livro parte das pessoas progressistas acreditava que as dores da pandemia e os estilhaços do Black Lives Matter iriam nos acordar para que finalmente resolvêssemos o problema crônico do racismo.”

Para o autor, a nova edição permite uma revisão dessas expectativas. “Essa nova edição do livro, capitaneada pela valente editora Coragem, permite que a gente faça um acerto de contas com alguns de nossos otimismos fracassados. Eu acho que lá atrás a gente tinha que falar sobre racismo na literatura. Hoje a gente já pode falar de racismo nos leitores. Estamos mais maduros para encarar o tema.”

Azevedo também chama atenção para o papel da literatura na reprodução de estruturas racistas. Segundo ele, existe no Brasil um esforço de invisibilização da produção cultural associada à supremacia branca.

“No Brasil há um grande esforço em se invisibilizar a máquina produtora de bens simbólicos da supremacia branca. Nesse sentido a literatura sempre foi uma arma que o racismo usou contra os negros.”

O autor cita ainda a literatura voltada à infância como parte desse processo histórico. “A literatura para a infância, no Brasil, começou com um eugenista que acreditava ser razoável construir uma obra na qual a personagem supostamente mais carismática é uma boneca de pano que vive a humilhar uma senhora negra. Combater o racismo na literatura é trabalhar pela emancipação de todos.”

Diálogos entre a literatura negra brasileira e norte-americana

A relação entre a produção literária negra brasileira e a dos Estados Unidos também está entre as questões abordadas por Azevedo. Para ele, a aproximação entre essas experiências é importante para compreender as diferentes dimensões da luta antirracista.

“Por conta do histórico de intervenções em nossos países, a América Latina costuma torcer o nariz para tudo o que vem dos Estados Unidos. É um erro. Um povo é maior que seu próprio país. Não há luta democrática sem exercício de derrubada de fronteiras (geográficas e imaginárias).”

O autor afirma que as experiências da população negra norte-americana também dialogam com a realidade brasileira. “Além disso, penso que a luta dos homens negros e das mulheres negras daquele país ecoa na nossa luta diária. Temos muito a aprender com a diáspora dos outros. E temos muito a ensinar também.”

Como referência dessa aproximação, Azevedo cita autores de diferentes tradições literárias. “Minha prateleira ideal tem Toni Morrison ao lado de Conceição Evaristo; e James Baldwin lombada a lombada com Oswaldo de Camargo.”

Crítica literária e racialização

Ao falar sobre seu trabalho como crítico literário, Azevedo também questiona a ideia de que a qualidade de uma obra possa ser determinada pela raça de quem escreve. “Há bons escritores negros; e há bons escritores brancos. Há maus escritores negros; e há maus escritores brancos.”

Para ele, uma das tarefas da crítica é fazer com que essa constatação deixe de ser vista como uma afirmação controversa. “Meu papel como crítico tem sido tornar essas frases banalidades conceituais, truismos óbvios para qualquer criança. E não o que são hoje: adágios com potencial de polêmica.”

Editado por: Katia Marko

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