Os sobrinhos cresceram, mas Tony ainda não terminou de aprender sobre cuidado e família. Em “Um Tio Quase Perfeito 3”, Marcus Majella volta ao personagem diante de uma nova missão: a chegada de um bebê, elemento que renova a história e recupera, de outra maneira, o espírito do primeiro longa.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Majella contou que a nova personagem foi decisiva para que a terceira parte da história fizesse sentido.
“Eu acho que, para a gente fazer o filme três, precisávamos de uma grande história, né? Senão, não teríamos feito as continuações. E eu achei que essa história do bebê caiu como uma luva. Achei perfeito quando me trouxeram a ideia de ter um bebê no terceiro, porque pensei: ‘Isso vai dar uma renovada, o público vai realmente se identificar, tem um porquê de contarmos essa história’”, afirmou o ator.
A experiência, segundo Majella, também trouxe novos obstáculos para as gravações. “Foi muito desafiador ter um bebê em cena. Eu não imaginava que a gente fosse passar tantos perrengues, mas foi muito gratificante também. Fiquei muito orgulhoso do resultado e muito feliz quando assisti ao filme”, disse.
Para o diretor Pedro Antonio, o desafio estava justamente em fazer o tempo transcorrido dentro da história aparecer também na construção dos personagens. Se antes os sobrinhos de Tony eram crianças, agora são jovens, e a família precisa encontrar novos lugares para cada um de seus integrantes.
“O segredo era como tratar o ciclo da família e da vida com entretenimento: sendo engraçado quando precisava ser e emocionante quando precisava ser, que são os predicados de um filme de família”, explicou o diretor.
Outras famílias
Pedro define o longa como um family film, gênero que, segundo ele, permite transformar questões comuns à vida familiar em uma experiência coletiva dentro da sala de cinema.
No caso de Tony, essa família foge de uma formação tradicional e reúne personagens e relações que foram se acumulando ao longo dos três filmes.
“É uma família lúdica que tem o teatro, a iguana, o tio Beto e agora um bebê. Ela vai se construindo de uma maneira não tão óbvia, e isso dá um colorido a mais e força para se identificar com as mil formações familiares que temos no Brasil”, afirmou Pedro Antonio.
Para Majella, a chegada da criança também aproximou Tony de uma situação que ele já havia vivido no primeiro longa: cuidar sem ter qualquer experiência. “Agora chega um bebê na vida dele e ele continua sem experiência nenhuma, mas se joga. Cuida direitinho da criança; não quer se apegar, mas acaba se apegando”, contou o ator.
Majella brincou que a experiência cinematográfica acabou interferindo até em suas próprias reflexões sobre paternidade. “Estou exercitando bastante a minha paternidade com o Tony, eu acho! Até tinha desejo de ter filho, mas não sei se agora tenho tanto”, disse o artista, aos risos.
Depois da experiência de gravar com uma criança, o ator afirmou que passou a reconsiderar essa possibilidade.
“Depois dos perrengues que passamos filmando com criança, pensei: ‘Gente, será mesmo que isso é uma prioridade?’. É um pepino! Maravilhoso, mas é um pepino, gente. Estou numa fase em que quero mais viajar, diminuir um pouco o ritmo de trabalho”, contou.

Eunice Paiva
Entre as referências brasileiras presentes no novo longa está uma homenagem a Eunice Paiva, personagem central da história retratada em “Ainda Estou Aqui”.
A referência aparece em mais uma das histórias que Tony costuma contar antes de dormir. Segundo Pedro Antonio, a brincadeira acompanha o personagem desde o primeiro filme, sempre recorrendo a produções brasileiras conhecidas em vez dos tradicionais contos infantis.
No primeiro longa, Tony contava para Sofia uma história inspirada em “Tropa de Elite”. A ideia reapareceu na continuação e, para o terceiro filme, coincidiu com o momento de grande repercussão de “Ainda Estou Aqui”.
“Quando a Sabrina e eu estávamos escrevendo o roteiro, estávamos exatamente naquele momento em que só se falava do Oscar: a Fernanda no Oscar, o Brasil de volta após 25 anos, e a Eunice Paiva virando uma personagem que o Brasil inteiro passou a conhecer”, relembrou o diretor.
Foi assim que Eunice entrou na história contada pelo protagonista. “Era uma vez a Eunice Paiva, ela lutou na ditadura e concorreu ao Oscar”, reproduziu Pedro Antonio ao explicar o trecho do filme.
O diretor contou que a escolha não foi aleatória e fazia sentido dentro de uma característica construída para Tony desde o início da franquia.
“Tudo aconteceu intrinsecamente ligado à história do tio Tony, que conta historinhas em todos os filmes. Neste, ficou como uma homenagem à Eunice e à Fernanda. Escolhemos muito a dedo”, afirmou o cineasta.

Legado de Paulo Gustavo
A conversa sobre comédia popular brasileira levou também ao legado de Paulo Gustavo, com quem Marcus Majella e Pedro Antonio trabalharam e mantiveram amizade.
Para Marcus, o ator e humorista teve papel decisivo na consolidação de um cinema capaz de reunir grandes públicos sem abrir mão do afeto e de temas cotidianos.
“Ele deixou tudo! Pavimentou todo o caminho para a gente caminhar. É um cara de extrema importância para o Brasil e para o cinema brasileiro”, afirmou o artista.
Pedro destacou ainda a capacidade de Paulo Gustavo de transformar experiências reconhecíveis pelo público em histórias que podiam ser, ao mesmo tempo, engraçadas e emocionantes.
“O Paulo captou muito bem essa mãe brasileira que todo mundo tem. Ele ajudou a mostrar que as histórias podem ser emocionantes e hilárias ao mesmo tempo — essas coisas convergem”, disse o diretor.
O diretor também recordou um conselho que recebeu do amigo sobre a relação entre uma obra e seu público.
“O Paulo me falava uma coisa muito boa — fomos muito amigos e trabalhamos juntos: ‘Cara, você não pode mentir para o público. Você não pode falar que vai entregar uma coisa e entregar outra’. O trailer tem que traduzir o filme, e o ideal é que o filme seja melhor que o trailer. Se o trailer for melhor que o filme, você está mentindo. Esse é um grande ensinamento que a gente traz”, contou.
Para ele, parte da força da produção nacional também está justamente em permitir que o público se reconheça na tela. “O povo brasileiro gosta de se ver na tela e se divertir consigo mesmo — seja numa história triste, num suspense, numa novela ou num meme”, afirmou Pedro Antonio.
Cinema brasileiro
Ao falar do atual momento da produção nacional, Pedro Antonio avaliou que filmes brasileiros de diferentes gêneros voltaram a conquistar espaço e mobilizar espectadores, embora a presença constante dessas obras nas salas ainda seja um desafio.
“O cinema brasileiro é isso: ele luta com a sua espadinha contra o cinema do mundo inteiro. E ele tem a sua força! Quando a gente acerta o tom, o filme brasileiro vira assunto e ocupa seu espaço nas salas. Estamos em um momento bom”, afirmou o diretor.
Para Pedro, o cenário ideal seria transformar a presença de produções nacionais nos cinemas em um hábito permanente, e não em acontecimentos separados por grandes intervalos.
“Ter um filme brasileiro por mês nos cinemas, de modo que as pessoas perguntassem: ‘Já viu o filme brasileiro deste mês?’. Assim você cria uma rotina, um hábito e a ideia de que ver cinema nacional é legal”, defendeu o cineasta.
Ele ressaltou que a produção existe, mas nem sempre consegue manter uma presença contínua nas salas de exibição.
“Às vezes a gente se esquece porque os hiatos entre os grandes lançamentos são muito longos por conta das dificuldades do mercado. Seria maravilhoso ter sempre um filme brasileiro em cartaz trazendo os nossos assuntos. E esses filmes existem”, concluiu Pedro Antonio.

