Nesta sexta-feira (2), a dois dias das eleições, os Estados Unidos fecharam os serviços consulares presenciais na Embaixada em Brasília e nos consulados no Brasil. “Questões de segurança” foi a justificativa dada, sem mais explicações.
No Paraná, Sergio Moro (PL), que lidera a disputa para governador, tem relação próxima com a nação estadunidense. Em 2017, o Brasil de Fato Paraná publicou um raio-x desta relação. Naquele ano, organizações e entidades alertavam para um jogo de interesses operado pelo então juiz da operação Lava Jato.
Um mês depois da matéria, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, por meio de seu subprocurador-geral Kenneth Blanco, fez uma declaração celebrando a cooperação e troca de informações entre a Lava Jato e o órgão. O agradecimento continua de acesso público.
“No cerne da extraordinária cooperação entre os nossos dois países está uma relação sólida assentada na confiança. Essa confiança permite que os procuradores e os agentes comuniquem diretamente entre si no que diz respeito às provas. Dada a estreita relação entre o Departamento e os procuradores brasileiros, não precisamos depender exclusivamente de processos formais, como os tratados de auxílio judiciário mútuo […]”1, afirmava, em específico, sobre a força-tarefa da Lava Jato.
Nove anos depois, nas eleições de 2026, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) alertou para o nível “crítico” de risco de influência e interferência externa dos Estados Unidos no pleito deste ano. À esquerda e à direita, os candidatos à presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Renan Santos (Missão) também indicaram temer aumento da interferência externa na democracia brasileira.
A Lava Jato e os interesses estadunidenses
Em junho de 2019, o The Intercept Brasil revelou um esquema de colaboração indevida entre acusação e juiz da operação. Na época, as reportagens da “Vaza Jato” mostraram conversas entre Moro e Deltan Dallagnol, ex-procurador do Ministério Público Federal e hoje candidato ao Senado pelo Partido Novo. O ex-juiz orientou e passou informações privilegiadas à procuradoria, ao mesmo tempo em que, junto com os integrantes da força-tarefa, combinava estratégias políticas, cronogramas de operações e vazamentos para a imprensa.
Em 2021, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou, por 7 votos a 4, a suspeição de Moro, ou seja, reconheceu que o magistrado foi parcial e comprometeu a validade jurídica do processo.
O vazamento também revelou conluio da Lava Jato com entidades dos Estados Unidos. Procuradores fizeram uma cooperação secreta com agentes do FBI e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos para articular investigações, sem aval do Estado brasileiro. Os membros da força-tarefa admitiam nas conversas receio de que a imprensa e o governo soubessem da proximidade.
Mensagens reveladas pela Agência Pública mostraram também que a operação compartilhou provas com o FBI, em 2015, sem passar pelos trâmites oficiais do nem por nenhuma autoridade central. A Lava Jato entregou à inteligência estadunidense informações da Operação Triplo X, que investigava a Mossack Fonseca e o famoso tríplex do Guarujá.
Moro, que sugeria linhas de investigação, indicava testemunhas e cobrava celeridade nas operações da Lava Jato, aceitou a denúncia e, em julho de 2017, condenou Lula a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex.
Também em 2015, Dallagnol escondeu do Ministério da Justiça e de órgãos oficiais a vinda de uma comitiva com pelo menos 17 agentes estadunidenses a Curitiba. Com base na operação Lava Jato, os EUA aplicaram multas bilionárias a empresas brasileiras, como a estatal Petrobras.
Naquele ano, o preço do petróleo estava em queda. O valor do barril caiu cerca de 60% de junho de 2014 a janeiro de 2015 – 2014 marcava um período de crise internacional do petróleo. Apesar de ter batido recorde de produção, os EUA registravam declínio do petróleo bruto.
A tese de que a Lava Jato foi instrumento dos Estados Unidos para enfraquecer os setores de óleo, gás e engenharia brasileiros é defendida por cientistas políticos, economistas e historiadores, como Marilena Chauí e Vijay Prashad. Também entram nesse grupo pesquisadores de organizações como a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP).
Guilherme Estrella, geólogo e ex-diretor na Petrobras, conhecido como o “pai do pré-sal”, afirmou ao portal Ópera Mundi, em 2022, que a Lava Jato cumpriu o papel de destruir as empreiteiras de engenharia nacionais e fragilizar a Petrobras. Movimentos de intelectuais contra o “lawfare” – uso do sistema jurídico como arma de guerra – também acusam a Lava Jato de fragilizar empresas brasileiras que competiam com multinacionais do petróleo. Em 2018, os EUA se tornaram o maior produtor mundial do combustível fóssil, ultrapassando Rússia e Arábia Saudita, segundo dados da U.S. Energy Information Administration.
‘Person of the year’
As revistas estadunidenses Fortune e Time, em 2017, elencaram Moro na lista de “pessoas mais influentes do mundo”. Aquela edição da Time afirmou que os brasileiros chamavam o juiz de “SuperMoro” e apresentou a Lava Jato e a deposição de Dilma.
Em maio de 2018, em Nova Iorque, nos EUA, Moro recebeu o prêmio de “Personalidade do ano de 2018” pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. A organização é a maior entidade empresarial voltada ao relacionamento entre empresas dos dois países. No discurso aos membros associados, Moro afirmou que “não houve e não há sinais de ruptura democrática” após a Lava Jato e a deposição da presidenta eleita Dilma Rousseff, e foi aplaudido de pé.
Informações do site oficial afirmam que a Câmara reúne milhares de empresas, que no total representam cerca de um terço do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, e que a entidade atua junto aos governos para influenciar políticas públicas no sentido de melhorar o ambiente de negócios.
A Câmara, no ano seguinte, deu o mesmo prêmio ao então presidente da República, Jair Bolsonaro. A entidade afirmou reconhecer a intenção de Bolsonaro de estreitar os laços comerciais com os EUA. Em 2026, a entidade também defendeu que o Brasil evitasse adotar medidas da Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos diante do tarifaço, imposto pelo governo Trump.
Moro também construiu relações de negócios em território estadunidense. Para dar palestras, o ex-juiz viajou diversas vezes aos EUA – não se sabe ao certo quantas falas públicas foram realizadas. Moro palestrou em Chicago, na Universidade de Columbia em Nova York, em Harvard e em fóruns empresariais, por exemplo.

Entre novembro de 2020 e outubro de 2021, após ter deixado o cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro, Moro recebeu, por serviços de consultoria, cerca de R$ 3,7 milhões (equivalente a US$ 45 mil mensais mais bônus) da empresa Alvarez & Marsal. O Tribunal de Contas da União (TCU), em 2021, investigou o caso de faturamento de Moro sob a suspeita de possível conflito de interesses.
A Alvarez & Marsal tem sede nos EUA e faz consultorias de gestão empresarial para empresas com dificuldades financeiras. No Brasil, administrou processos de recuperação judicial da Novonor, antiga Organização Odebrecht, e das empreiteiras OAS e Galvão Engenharia – empresas atingidas pela Lava Jato.
As investigações foram arquivadas pelo plenário do TCU em agosto de 2022. Antes, o subprocurador Lucas Furtado havia pedido o arquivamento do caso, mas depois recuou e pediu o bloqueio de bens de Moro. O Tribunal considerou que a investigação não cabia à alçada do órgão, e sim à Receita Federal.
Moro fez acordos com governo Trump, em 2019
Durante o governo Bolsonaro, quando era ministro, Moro anunciou dois acordos de cooperação com os EUA, em viagem a Washington em março de 2019. Um deles, de troca de informações entre o FBI e a Polícia Federal (PF), para combate à corrupção e ao crime organizado, anunciou à época.
Moro fazia parte da comitiva brasileira do governo federal que visitou o gabinete de Donald Trump. Naquela ocasião, acompanhados do então deputado federal Eduardo Bolsonaro, presidente e ministro fizeram uma visita surpresa à Agência Central de Inteligência (CIA), dos EUA, que não estava na agenda oficial.
Desde março de 2025, Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos. O terceiro filho de Jair Bolsonaro recebeu visto permanente do governo Trump e teve o mandato cassado no ano passado. O ex-parlamentar defendeu as tarifas impostas por Trump a produtos brasileiros e, em junho de 2026, Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, anunciou a permanência do tarifaço a pedido de Eduardo.
No Paraná, a tríplice fronteira tem sido alvo do governo estadunidense, que aponta para a atuação de uma suposta célula do Hezbollah em Foz do Iguaçu (PR). Em maio de 2025, Trump anunciou que pagaria até US$ 10 milhões por informações sobre o grupo libanês na região. No mesmo período, o governo do Paraguai anunciou a criação de centros de segurança e inteligência na fronteira, com cooperação dos EUA.
A reportagem questionou se Moro considera que está havendo interferência externa nas eleições de 2026. A campanha decidiu não se manifestar.
- Tradução livre do original, em inglês, que pode ser acessado na carta no site do Departamento de Justiça dos EUA. ↩︎


