Não é novidade que as mulheres, que nesta eleição são 52,8% do eleitorado brasileiro, ainda encontram grandes dificuldades para garantir representatividade política proporcional à relevância social, econômica e populacional delas. Na Câmara Federal elas são apenas 91 dos 513 deputados, o que corresponde a 17,7% daquela casa legislativa. No parlamento pernambucano a situação é ainda pior: as mulheres ocupam apenas sete (ou 14,3%) das 49 cadeiras na Assembleia Legislativa. Para mudar esta realidade, uma série de campanhas e iniciativas da sociedade civil tem buscado mostrar ao eleitor os benefícios de haver mais mulheres nos postos de poder.
O Brasil de Fato se soma ao esforço, trazendo perfis de candidatas que se identificam como feministas e têm os direitos das mulheres entre suas pautas prioritárias. Entramos em contato com 20 candidatas, sendo cinco postulantes a cadeiras na Câmara Federal e 15 que disputam assentos na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). Entre as vinte, 12 responderam à reportagem, trazendo as suas propostas que consideram mais relevantes para as vidas das mulheres, além de explicitando suas posições sobre o direito da mulher à autonomia reprodutiva, o popular “direito ao aborto” legal e seguro.
Abaixo, os perfis resumidos, propostas e posicionamentos das candidatas a deputadas federais Manu Mirella (PCdoB) e Rosa Amorim (PT), além das candidatas a deputadas estaduais Amanda Karaxue (Rede), Cida Pedrosa (PCdoB), Dani Portela (PT), Dany Myler (PSB), Eugênia Lima (PT), Jô Cavalcanti (Psol), Mari Lessa (Rede), Maria do Céu (PSB), Sté Vilela (PSB), Thaynah Leal (Rede) e Yasmin Alves (Psol). Foram contatadas, mas não responderam até o fechamento da matéria as candidatas Adriana Samico (PT), Kari Santos (PT), Liana Cirne (PT), Alda Arantes (Psol), Helloysa Ferreira (PSB), Ivete Caetano (PT) e Maria Arraes (PSB).
Manu Mirella (PCdoB), candidata a deputada federal
Favorável à descriminalização do aborto.

Primeira da família a chegar à universidade, sua trajetória é na luta por educação, pelas mulheres e juventude. Foi presidenta da UNE e lidera a União Brasileira de Mulheres. Propostas: Combater a violência contra as mulheres fortalecendo a rede de proteção, prevenção e atendimento às mulheres; Fortalecer a Política Nacional de Cuidados, dando suporte principalmente às mães e cuidadoras, garantindo autonomia econômica.
Rosa Amorim (PT), candidata a deputada federal
Favorável à descriminalização do aborto.

Filha da reforma agrária, criada em assentamento do MST em Caruaru. Fez luta estudantil, cultural e feminista. Deputada estadual mais jovem da história de Pernambuco. Propostas: Combater o feminicídio ampliando a rede de acolhimento, proteção, assistência jurídica e psicossocial às mulheres, com atenção ao interior; Políticas de igualdade salarial, crédito, formação profissional e geração de renda, em especial para agricultoras, pescadoras, marisqueiras, costureiras, artesãs e informais.
Cida Pedrosa (PCdoB), candidata a deputada estadual
Favorável à descriminalização do aborto.

Filha do Sertão do Pajeú, é poeta, escritora premiada e advogada, além de vereadora do Recife em seu 2º mandato. Propostas: Expandir para todo o estado a política criada por Cida no Recife, o Protocolo Violeta, garantindo acolhimento e encaminhamento seguro às mulheres vítimas de violência, com profissionais capacitados e integração à rede de proteção; Ampliar o alcance das Delegacias da Mulher, garantindo funcionamento 24 horas e fortalecendo o enfrentamento à violência e ao feminicídio no estado
Dani Portela (PT), deputada estadual e candidata à reeleição
Favorável à descriminalização do aborto.

Mulher negra, mãe, feminista e advogada popular em defesa das mulheres. Vereadora mais votada do Recife e hoje deputada estadual na luta pelos direitos humanos. Propostas: Pacto Pernambuco contra o Feminicídio, similar ao federal, para integrar ações de saúde, prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres; seguir atuando politicamente para todas as Delegacias de Atendimento à Mulher (DEAM) funcionarem 24 horas por dia, 7 dias por semana, estrutura adequada e atendimento humanizado
Eugênia Lima (PT), candidata a deputada estadual
Favorável à descriminalização do aborto.

Mãe, advogada popular, mestra em desenvolvimento urbano e atualmente é vereadora em Olinda. Propostas: Criar lei estadual de proteção contra a violência digital de gênero, combatendo a divulgação de imagens íntimas, deepfakes, ameaça, perseguição, invasão de contas e exposição de dados; Lei de Aluguel Emergencial da Mulher, garantindo 6 meses de aluguel social às vítimas de violência doméstica, além da medida protetiva. Essas mulheres devem ter prioridade nas políticas habitacionais
Amanda Karaxue (Rede), candidata a deputada estadual
Favorável à descriminalização do aborto.

Indígena em contexto urbano, do povo Kajuruny’a, nascida na periferia, mãe solo e integrante do Coletivo Favela pelo Bem. Preside o Diretório de Estudantes da UFRPE e integra a Articulação Indígena Estudantil. Propostas: Ampliação dos serviços de atendimento psicológico, jurídico e social nos territórios periféricos; casas de acolhimento temporário para mulheres e seus filhos em situação de violência e vulnerabilidade.
Jô Cavalcanti (Psol), vereadora do Recife e candidata a deputada estadual
Favorável à descriminalização do aborto.

Mulher negra, mãe e cria do Morro da Conceição. Camelô e militante do MTST, integrou o mandato coletivo Juntas e hoje é vereadora do Recife, lutando por trabalho digno, moradia, defendendo as mulheres e as LGBTs. Propostas: Mulheres em situação de violência doméstica devem ser prioridade em programas habitacionais e de assentamentos; Empresas contratadas pela administração estadual devem garantir uma cota de vagas a vítimas de violência doméstica, estimulando a autonomia financeira delas
Mari Lessa (Rede), candidata a deputada estadual
Favorável à descriminalização do aborto.

Feminista marxista e brizolista. Nascida e criada no Recife, aprendeu desde cedo a ver a educação como ferramenta de transformação social, aliada à organização e à luta política. Faz luta estudantil desde a adolescência. É bacharel em direito e estudante de história. Propostas: Inserir nas escolas, a partir do Fundamental 2, conteúdo antirracista e antimisoginia, buscando combater a masculinidade violenta; fiscalizar e garantir orçamento para o Plano Decenal de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes (2025-2035).
Thaynah Leal (Rede), candidata a deputada estadual
Favorável à descriminalização do aborto.

Professora da rede estadual, mestra em Educação e mãe. Luta em defesa da educação pública, das mulheres e mães, por equidade racial e mais participação popular na política. Me identifico com o feminismo que coloca as mães no centro do debate. Propostas: Políticas para as mães, enfrentar a violência obstétrica, valorizando o trabalho de cuidado, especialmente das mães atípicas, combater sua exploração e sobrecarga; combate ao assédio moral e sexual no serviço público, com prevenção, acolhimento e responsabilização.
Yasmim Alves (Psol), candidata a deputada estadual
Favorável à descriminalização do aborto.

Educadora, antirracista e socialista e de terreiro. Integra o Afoxé Alafin Oyó e leva o feminismo às lutas por transporte público, educação e cultura. Propostas: Programa de educação sexual e reprodutiva para o planejamento individual e coletivo, assegurando a autonomia feminina e das pessoas que gestam; Delegacias da Mulher 24h e criar serviço especializado de acolhimento integral para atender às vítimas de violência doméstica seus filhos e filhas.
Dany Myler (PSB), candidata a deputada estadual
Favorável à descriminalização do aborto.

Cantora e mãe atípica. Empreendedora da cultura, entre o brega e o forró, foi nestes espaços que se fortaleceu politicamente. Quer “levar a vida real” para a Assembleia Legislativa. Propostas: Políticas de qualificação, trabalho, acesso a crédito e geração de renda, fortalecendo a autonomia financeira como forma de libertação da violência; apoio às mães atípicas e cuidadoras, com qualificação, suporte à saúde mental e amparo financeiro para mulheres que precisam abrir mão do trabalho para cuidar dos filhos.
Maria do Céu (PSB), candidata a deputada estadual
Defende a manutenção das regras atuais sobre aborto, mas ampliando o acesso a esse direito.

Produtora cultural, psicóloga, sexóloga e empreendedora e ativista com mais de 30 anos na defesa das pessoas LGBTQIAPN+, das mulheres e também no combate ao etarismo. Fundadora do Instituto Boa Vista, dedicado à capacitação profissional, cidadania e inclusão social de pessoas LGBTQIA+ e da população idosa. Propostas: Programa recomeço, para garantir autonomia econômica das mulheres que passaram por violência; Saúde da mulher 40+, com foco na saúde preventiva e atenção especial ao período da menopausa.
Sté Vilela, candidata a deputada estadual
Favorável à descriminalização do aborto.

Cria de Água Fria, filha de uma diarista e um deficiente visual. Fez universidade através de cotas, presidiu o Diretório Acadêmico de Direito da Unicap e a União dos Estudantes de Pernambuco. Fundou uma rede de cursinhos populares. Propostas: Linha de crédito a juro zero, junto à qualificação profissional, para mulheres vítimas de violência doméstica conquistarem autonomia financeira e reconstruírem suas vidas; interiorizar e garantir o funcionamento 24h das Delegacias da Mulher, fortalecendo toda a rede de proteção, acolhimento e encaminhamento.

