Desde novembro de 2025, está em curso uma das maiores crises institucionais envolvendo o STF e a eleição do próximo governo Lula. Neste momento delicado, disputas midiáticas nos bastidores do poder concorrem, apressadamente, para definir o resultado das eleições.
Nesse cenário, a disputa pelos eleitores passa pela exposição política e pelo uso dos poderes institucionais. Na fábula de heróis efêmeros da política brasileira, alguns ministros são mais facilmente obscurecidos por outros, mais ousados, gastando poderes antes de convertê-los em votos. No pouco tempo que nos resta, importa reconstruir indícios dispersos sobre como a crise institucional brasileira do STF está vinculada às disputas de poder e de que forma — e com quem — elas atravessam o cenário internacional.
Nesta análise, interrogamos como a mediação das forças internas e o deslumbre com certas alianças úteis, entre a esquerda e a direita, representam mais do que a realidade eleitoral que criamos. São capazes de terceirizar enfrentamentos e reunir conflitos políticos, econômicos e geopolíticos que ultrapassam as fronteiras brasileiras.
Há um risco insuspeito em personificar contradições em torno do andamento das investigações entre Alexandre de Moraes e o ministro André Mendonça. Nesses conflitos, cercados por escândalos e influências multilaterais, crescem estratégias perigosas lideradas pela extrema direita para sequestrar a atenção eleitoral e provocar uma reação acelerada da direita nas pesquisas — e essa estratégia parece, lamentavelmente, estar funcionando.
Outro aspecto é que o nível de preparo dos candidatos deixa de ser um critério importante a movimentar intenções de voto, e a circulação de uma economia da atenção passa a ser mais poderosa do que a sua comprovação. Isso se evidencia nos resultados já conhecidos, em que a oposição não se sobrepõe diante de um projeto verdadeiramente entreguista. Nota-se que essa fórmula vem sendo esvaziada para sequestrar a atenção eleitoral, sem precisar revelar a ausência de projeto para o país.
Nesse pouco tempo que nos resta até as próximas eleições, temos presenciado pouquíssimos debates eleitorais em que possamos reconhecer pautas populares nos programas de campanha dos candidatos. Talvez a marca maior desta eleição e da sua militância seja a impessoalidade com que os conflitos políticos crescentes estão sendo utilizados para influenciar ou aturdir a opinião pública sobre os próprios interesses da classe trabalhadora.
Refiro-me às pautas mais urgentes para a população: a escala 6×1, a ampliação do Minha Casa, Minha Vida, a manutenção da política de valorização do salário mínimo, a defesa do Pix, o inadimplemento das famílias e uma maior atuação no controle da segurança pública.
Soberania em disputa
É nesse deslocamento da agenda que a violência aparece como uma área sistematicamente apropriada pela extrema direita. De forma orquestrada, busca-se classificar facções brasileiras como o PCC e o CV como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), rebaixando a territorialidade e a jurisdição do Estado brasileiro em crimes nacionais. A fragilização da soberania jurisdicional é, nesse movimento, convertida em capital eleitoral.
A demanda por segurança pública, nesse ponto, não se limita à dimensão política de um problema doméstico. Ela também se insere em uma Doutrina Monroe mais ampla sobre as soberanias, a jurisdição e a capacidade de condução democrática do Estado brasileiro.
Essas eleições abrigam tentativas de retomar uma hegemonia norte-americana por interesses geopolíticos, não mais como missão cínico-civilizatória, mas como forma de consagrar lideranças mais subservientes para o futuro da nossa democracia. É nesse contexto que a dimensão internacional da eleição deixa de ser apenas um cenário externo e passa a enxergar possibilidades na política brasileira.
Nesta reta final de campanha, o governo parece recuperar o fôlego necessário para enfrentar o prejuízo social deixado pelas bets, enquanto tenta antecipar-se diante de uma base de reconhecimento internacional — o encontro de Lula com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e com a presidente do México, Claudia Sheinbaum — que reconheça e traduza, diplomaticamente, o risco real de intervenção em curso.
Em países como Argentina, Peru, Chile, Colômbia, Bolívia e Panamá e, principalmente, em El Salvador, já se encontram estreitos alinhamentos de captura política de Washington. Recapitulemos a força de exceção do dia 3 de janeiro de 2026, com o sequestro midiático de Maduro, seguido de sucessivos saques de recursos petrolíferos.
O Brasil, nesse cenário, representa também um mercado disputado no novo alinhamento das economias globais com a China, a Rússia e o Irã. A eleição, portanto, não se apresenta apenas como uma disputa pela condução interna do Estado, mas como parte de uma reorganização mais ampla das relações de poder.
Nessas eleições, não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência e o voto. A ausência de centralidade de projetos para o futuro e das necessidades concretas da população ajuda a compreender por que as pautas materiais e identitárias podem ser deslocadas por conflitos capazes de reorganizar a atenção eleitoral. Isso faz oscilar as preferências entre a esquerda e a extrema direita, porque alguns eleitores têm a esperança de que algo novo está por vir. Enquanto todos, simultaneamente, sucumbem à convicção de que nada novo está tão próximo de acontecer.
Assim, por mais relutantes que estejamos em eleger novamente o governo que permanece atrelado à política fiscal do teto de gastos, da terceirização e a uma maior articulação interna do que à recuperação de seu vínculo democrático com o povo e suas necessidades domésticas, penso que não há ninguém mais qualificado para enfrentar as ameaças externas à soberania de um dos países mais poderosos da América Latina.
O diagnóstico da política brasileira, neste momento, permite-nos compreender que a enfermidade das crises nunca é neutra. O tratamento da corrupção também não está dissociado de conveniências ideológicas e confidências religiosas, como parte do funcionamento orgânico do Estado e dos partidos.
Crise institucional e disputa de poder
A dimensão internacional e a crise institucional voltam a se encontrar. Os conflitos que atravessam a política brasileira não estão restritos à disputa eleitoral ou à deterioração das instituições: também envolvem a maneira como interesses econômicos, políticos e geopolíticos se articulam em torno do Estado.
Quando há dúvidas, basta verificar o passado dos nomes que vêm surgindo relacionados aos escândalos do Banco Master e do INSS, ligados a Eduardo Bolsonaro.
No STF, tenta-se afastar a deterioração de sua jurisdição e conter o impacto dos acontecimentos em sua autoridade, diante de um espetáculo cada dia mais público. O Supremo procura organizar a condução das investigações em um cenário de quórum prejudicado. Até então, conforme relatório da Polícia Federal, há ministros suspeitos de terem envolvimento direto ou indireto no escândalo do Banco Master.
A interferência do ministro Mendonça, ao conduzir o desentranhamento de evidências do inquérito utilizadas de forma autônoma, retirar o sigilo e submeter confrontos diretos ao plenário do STF para incriminar um colega, também suscita grave responsabilidade.
Diante desses escândalos e crises cíclicas, é preciso compreender como se formam as muitas pistas que nos levam cada vez mais longe de eleger um foco sem cortinas de fumaça.
Em julho de 2025, a Lei Magnitsky Human Rights Accountability foi aplicada contra Alexandre de Moraes, impondo unilateralmente o congelamento de ativos financeiros privados nos EUA e a negação de vistos de entrada no país. Trata-se de mobilizar atos de agentes públicos de outro país como forma de provocar instabilidade jurídica direta em assuntos internos.
A questão da soberania, nesse caso, deixa de ser uma abstração geopolítica e passa a tocar diretamente o funcionamento das instituições brasileiras e a própria capacidade do Estado de conduzir e solucionar seus assuntos internos.
Preocupa o fato de que o governo e a liderança da campanha parecem perder-se ao não denunciar, de forma exaustiva, a dinâmica das relações conspiratórias associadas a Flávio Bolsonaro, antes mesmo da certeza de sua candidatura à presidência. Os exemplos são muitos: financiamento do filme “Dark Horse”, as intermediações de tarifaço, as relações espúrias com a organização mafiosa de Daniel Vorcaro, o Rockbridge Network em torno da família Bolsonaro e outros episódios dignos de cancelamentos pelas big techs na internet.
O que parece confirmar nossas hipóteses é que a defesa mundial do nosso quintal, como diz Lula, exige distinguir as crises institucionais da exposição de escândalos políticos, revelando uma disputa mais profunda em torno da escolha sobre o próprio destino. Quanto à soberania jurisdicional, tratada como recurso do capital, a política se afasta novamente da vida.
Talvez seja justamente aí que a política possa recuperar alguma coisa de sua força: não na fabricação de novos heróis, nem na multiplicação de inimigos, mas na capacidade democrática de reconhecer, pelo voto, a insatisfação com a vida concreta de quem elege.
* Tainá Vargas é escritora, professora, advogada e mestra em Sociologia do Direito pela Universidade La Salle (Unilasalle/RS).
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

