O maior doador pessoa física da campanha do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), à reeleição é um empresário de Mato Grosso, herdeiro de uma família que mantém há décadas propriedades rurais na região da Terra Indígena (TI) Piripkura, onde vivem indígenas isolados. Parte desses imóveis aparece em levantamentos técnicos com áreas sobrepostas ao território indígena.
Celso Ferreira Penço Filho doou R$ 600 mil à campanha, no dia 11 de setembro. Até esta sexta-feira (2), ninguém havia contribuído como pessoa física com valor superior. Na sequência aparecem os irmãos bilionários Hélio e Salo Seibel, controladores do Grupo Ligna, com R$ 575 mil cada.
Nascido em Cuiabá em 1989, Penço Filho atua nos setores agropecuário, florestal e de energia. Estudou Engenharia de Produção na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, onde se tornou sócio de uma pizzaria.
Seus principais negócios conhecidos, todavia, estão em Mato Grosso. O empresário não mantém atuação política pública relevante identificada pelo Brasil de Fato e não explicou publicamente por que decidiu financiar a campanha de Tarcísio em São Paulo.
A família Penço mantém há décadas propriedades e empresas no noroeste mato-grossense, na região onde a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) iniciou, ainda nos anos 1980, os trabalhos para localização e proteção dos Piripkura.
Um dos principais imóveis do grupo familiar era a Fazenda Mudança, então pertencente a Celso Ferreira Penço, pai do doador de Tarcísio e falecido em 2016, quando recebeu homenagens como “pioneiro da mineração em Mato Grosso”.
Um relatório da Operação Amazônia Nativa (Opan) sobre povos indígenas isolados em Mato Grosso registra que os trabalhos de localização dos Piripkura começaram em 1984, com uma expedição à Fazenda Mudança e a outras propriedades da região.
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Patrimônio familiar na região
A Fazenda Mudança tinha cerca de 400 mil hectares e deu origem ou estava relacionada a outras propriedades administradas pela família, entre elas as fazendas Central e Madeirinha.
A presença empresarial dos Penço na região remonta aos anos 1970. A Empresa de Mineração Aripuanã (Emal), fundada pelo patriarca em 1973, realizou pesquisas de cassiterita na área da Fazenda Mudança nos primeiros anos de atividade.
Décadas depois, fazendas e empresas da família continuaram aparecendo em levantamentos sobre imóveis com áreas incidentes na TI Piripkura.
O relatório técnico da Operação Amazônia Nativa (OPAN) identificou as fazendas Mudança, Mutum, Central, Madeirinha e Céu Aberto, administradas por Júlia Tretel Penço, irmã de Celso Filho, entre imóveis com áreas sobrepostas à TI Piripkura.
Ao menos dois Cadastros Ambientais Rurais (CARs) da Agropecuária Paralelo 10 permanecem ativos sobre a terra indígena, segundo consulta feita pelo Brasil de Fato ao sistema ambiental de Mato Grosso. Os cadastros correspondem às fazendas Mutum e Bem-Te-Vi. Levantamento técnico identificou 4.967,71 hectares de sobreposição em cada registro, mas os dois CARs incidem sobre o mesmo polígono.
A empresa é atualmente controlada por integrantes da família Penço. Celso Filho não aparece no quadro societário atual da Paralelo 10. O Brasil de Fato solicitou à Junta Comercial de Mato Grosso o histórico completo da sociedade para verificar sua composição em períodos anteriores.
Celso Filho também é sócio, com a irmã Júlia, da Trindade Participações, ligada à Trindade Florestal, que chegou a manter um CAR com cerca de 4.967 hectares sobrepostos à TI Piripkura. O cadastro, feito quando ele já integrava a empresa, está atualmente cancelado.
Outras empresas ligadas aos irmãos do empresário mantêm atividades rurais e florestais na região, entre elas a Agropecuária Mudança e a Agropecuária Ferreira Penço.
Pai foi investigado na Operação Curupira II
Celso Filho não foi investigado na Operação Curupira II, deflagrada pela Polícia Federal em 2005. Seu pai, Celso Ferreira Penço, esteve entre os principais alvos da investigação.
PF e Ministério Público Federal investigavam um esquema de exploração e comercialização ilegal de madeira no noroeste de Mato Grosso. Entre as práticas apuradas estavam fraudes em planos de manejo, grilagem de terras e utilização irregular de autorizações para transporte de produtos florestais.
Penço foi apontado nas investigações como um dos beneficiários do esquema. Entre as propriedades e empresas ligadas à família na região estava a Agropecuária Paralelo 10, associada à Fazenda Mudança e a outros imóveis que aparecem nos levantamentos sobre a TI Piripkura.
O processo criminal contra Celso Penço não chegou a uma decisão final sobre as acusações: sua punibilidade foi posteriormente extinta, após sua morte, em 2016.
Anos após a operação, a Agropecuária Paralelo 10 também recebeu, em 2008, três autos de infração ambiental que somavam cerca de R$ 3,1 milhões.
Agro e energia
A atuação empresarial de Celso Filho hoje vai além dos negócios rurais herdados pela família. Ele é sócio-administrador da Agropecuária Chão Duro, que mantém fazendas em Diamantino e Paranatinga, e diretor da KLN1 Geradora de Energia.
A KLN1 desenvolve a Pequena Central Hidrelétrica (PCH) Pucon 2, projetada para o rio Culuene, um dos principais formadores do rio Xingu, em Mato Grosso. Em junho deste ano, uma carta-consulta da empresa foi enquadrada pelo governo estadual para financiamento de R$ 60,1 milhões pelo Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO).
O Brasil de Fato perguntou a Celso Ferreira Penço Filho o que motivou a contribuição de R$ 600 mil a Tarcísio, se mantém relação pessoal, política ou empresarial com o governador e se ele ou empresas das quais participa atualmente possuem ou reivindicam direitos sobre áreas incidentes na TI Piripkura.
O empresário também foi questionado sobre eventual patrimônio herdado do pai na região. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.
