América Latina

Morena faz 15 anos: do protesto eleitoral à disputa pelas consciências no México

Movimento que levou Obrador e Claudia Sheinbaum à presidência busca transformar avanços sociais em políticas permanentes

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A presidente do México, Claudia Sheinbaum, fala durante sua coletiva de imprensa diária no Palácio Nacional, na Cidade do México, em 28 de novembro de 2025.
A presidenta do México, Claudia Sheinbaum | Crédito: Yuri Cortez/AFP

O Movimento de Regeneração Nacional (Morena) completa 15 anos de sua constituição como associação civil nesta sexta-feira (2), depois de levar dois presidentes ao governo do México e formar maioria nos governos estaduais, no Senado e na Câmara de Deputados, se consolidando como a principal força política mexicana hoje. 

O Morena possui 254 dos 499 assentos ocupados da Câmara dos Deputados. Com os 60 do Partido Verde Ecologista do México (PVEM) e os 49 do Partido do Trabalho (PT), a coligação tripartidária conta com 363 deputados, quase três quartos da Casa. No Senado a situação é parecida, com o Morena ocupando 66 das 128 cadeiras e 86 com a coligação.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Oscar Lemus, internacionalista e coordenador-geral do Instituto Nacional de Formação Política (INFP) do Morena, aponta a formação ideológica  dos militantes e a unidade como os principais desafios internos do movimento que elegeu Andrés Manuel López Obrador (AMLO), em 2018, e Claudia Sheinbaum, em 2024. “Somos uma grande frente progressista”, afirma. 

O crescimento reuniu diferentes posições ideológicas, e a conquista de cargos trouxe disputas sobre quem deveria ocupá-los. Para Lemus, a continuidade do projeto depende de uma militância capaz de compreender por que luta, além de saber quem apoiar em uma eleição.

A ambição do atual partido é sintetizada na expressão “revolução das consciências”. O dirigente a associa à construção de uma visão de sociedade em que o combate à pobreza, a defesa da soberania e dos direitos sociais sejam assumidos pela população como seus horizontes principais. “Não para que um partido político como o Morena continue no governo, mas para que o processo cultural que implica uma mudança de visão sobre a vida possa permanecer neste país”, explica.

Para o dirigente, transformar conquistas de governo em convicções populares é o que permitirá defendê-las. O trabalho de formação procura fazer com que o princípio de colocar os pobres em primeiro lugar saia dos discursos partidários. A tarefa, afirma, é que a população “o entenda e o assuma como seu”.

Avanços

O balanço do período de López Obrador encontra expressão nos indicadores. Entre 2018 e 2024, a proporção de mexicanos em pobreza multidimensional caiu de 41,9% para 29,6%, uma redução de 13,4 milhões de pessoas, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi). A recuperação salarial também marca a mudança de orientação. O salário mínimo geral passou de 88,36 pesos diários, em 2018, para 315,04 pesos em 2026. Segundo a Comissão Nacional dos Salários Mínimos (Conasami), o piso definido para este ano representa uma recuperação acumulada de 154,2% do poder de compra durante os governos da Quarta Transformação.

Outra área de sucesso do governo é na habitação popular. O programa Vivienda para el Bienestar visa garantir 667 mil moradias, estabelecendo a moradia digna como um direito durante o mandato de Sheinbaum, representando 1,2% do PIB anual investidos, com expectativa de que possam gerar 2,4 milhões de postos de trabalho nos 766 projetos em curso em todo o país, além de generosas renegociações sobre financiamentos adquiridos para a compra de casas de maneira abusiva. 

O avanço na mobilidade também foi uma aposta do governo. A recuperação das ferrovias tornou-se uma das marcas das duas administrações morenistas. Concebido na gestão de López Obrador e concluído sob Sheinbaum, o Trem Maia percorre 1.554 quilômetros em cinco estados do sudeste, conectando cidades de uma região historicamente afastada dos principais centros de investimento do país. No istmo de Tehuantepec, a reabilitação de 308 quilômetros de trilhos entre Salina Cruz e Coatzacoalcos restituiu o transporte de passageiros e reforçou uma ligação para cargas entre o Pacífico e o Golfo do México.

Desafios

Esses resultados, porém, não encerram o balanço. Lemus identifica saúde e segurança como duas das áreas mais difíceis de transformar. Ao tratar da saúde, atribui os obstáculos ao longo desmonte neoliberal e ao impacto da pandemia sobre os recursos e os planos do governo López Obrador. Os dados mostram a dimensão do problema ainda existente: em 2024, o Inegi registrou carência de acesso aos serviços de saúde para 34,2% da população, ou 44,5 milhões de pessoas. O indicador melhorou em relação a 2022, mas a proteção social permanece uma tarefa para além da elevação dos rendimentos.

Para a segunda questão, a segurança, Oscar identifica a guerra contra o narcotráfico, lançada por Felipe Calderón em 2006 e mantida sob Enrique Peña Nieto, como uma das raízes da crise de segurança que herdaram. “A militarização do combate às drogas aprofundou a violência sem eliminar as estruturas do crime organizado”, avalia. Esse legado se cruza com uma nova pressão externa. 

Em fevereiro de 2025, o governo de Donald Trump classificou seis cartéis mexicanos como organizações terroristas estrangeiras, enquadrando o narcotráfico na agenda de combate ao terrorismo. A medida ampliou a pressão sobre o México e acompanhou propostas de atuação militar estadunidense em seu território, rejeitadas por Claudia Sheinbaum. Para a presidenta, a cooperação no enfrentamento aos cartéis deve respeitar a soberania mexicana, impondo um limite diante da tentativa de Washington de transformar um problema de segurança em justificativa para intervir no país vizinho.

Uma organização para quem não cabia nos partidos

Em 2 de outubro de 2011, quando o Morena se constituiu como associação civil no Auditório Nacional, na Cidade do México, López Obrador ainda integrava o Partido da Revolução Democrática (PRD). A criação de uma organização própria respondia a um descompasso, já que setores que apoiavam sua candidatura presidencial já não se reconheciam no partido, rodeado de denúncias de corrupção e de traição política.

“Havia um setor muito amplo de movimentos sociais que não via bem o PRD, mas apoiava Andrés Manuel López Obrador”, recorda Lemus. Segundo ele, a associação ofereceu um espaço a pessoas que não estavam necessariamente interessadas em candidaturas ou na vida partidária, mas queriam participar do projeto político proposto por AMLO. Para Lemus, essa experiência foi anterior a criação do Morena, mas também expôs limites que a nova organização procurou superar. O dirigente descreve um partido que era atravessado por grupos internos, conhecidos como “tribos”, que negociavam candidaturas conforme sua força e divergiam sobre alianças com o centro e a direita.

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A disputa ficou mais evidente depois da eleição presidencial de 2012. Enquanto López Obrador contestava o resultado que deu a vitória a Enrique Peña Nieto, a direção do PRD decidiu se distanciar de Obrador, enquanto sinalizou abertura para negociações com o Partido Ação Nacional (PAN) e o Partido Revolucionário Institucional (PRI), de Peña Nieto, que voltou ao poder depois de duas administrações do PAN. Em dezembro, os três principais partidos do país firmaram o “Pacto por México”, acordo que sustentou uma agenda de apoio às reformas do novo governo, incluindo a abertura do setor energético ao capital privado, considerada como um marco na perda de soberania energética do país, com consequências que seguem até hoje.

López Obrador havia anunciado sua saída do PRD em setembro. A divergência sobre o rumo da oposição aprofundou a separação. Lemus situa nesse processo a decisão de transformar o Morena em partido, após consultas à militância em assembleias pelo país. O registro foi aprovado pelo Instituto Nacional Eleitoral (INE) em 9 de julho de 2014.

A Quarta Transformação

Ao chamar seu projeto de “Quarta Transformação”, López Obrador o apresenta como uma nova ruptura na história mexicana, que deve enfrentar a corrupção gerada por relações questionáveis entre o Estado e a grande burguesia, junto do combate à concentração do poder político e econômico, recuperando a atuação do Estado em favor da maioria. Em sua formulação, superar o período neoliberal, iniciado em 1982 no governo de Miguel de la Madrid, exige recuperar a atuação do Estado em favor da maioria da população, combatendo a corrupção, os privilégios e colocando os pobres no centro do debate.

Diferentemente das anteriores, marcadas por conflitos armados, AMLO propõe uma mudança por meios pacíficos e democráticos, disputando a consciência popular. O combate ao neoliberalismo aparece como parte dessa tarefa: reorganizar um Estado que passou a servir às minorias, colocando os pobres no centro das decisões de governo.

A primeira transformação foi a luta pela Independência, iniciada em 1810 e concluída em 1821, que rompeu com o domínio colonial espanhol. Na leitura de AMLO, o movimento reuniu a busca pela soberania nacional e o combate à escravidão. 

A segunda foi a Reforma, conduzida pelos liberais sob a figura de Benito Juárez, em meados do século 19, que enfrentou os privilégios da Igreja Católica, estabeleceu a separação entre poder religioso e Estado e defendeu a República contra a intervenção francesa.

A terceira foi a Revolução Mexicana, iniciada em 1910 contra a ditadura de Porfirio Díaz. A luta incorporou reivindicações por terra, democracia e direitos trabalhistas, que ganharam expressão na avançada Constituição de 1917. Para López Obrador, a justiça social e a participação popular são os legados que ligam esse processo ao projeto do Morena.

Editado por: Juliana Passos

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