Ensino médio

Mudança no calendário de avaliação escolar interfere na autonomia pedagógica no Distrito Federal

Professoras relatam transtorno para seguir orientação da Secretaria e associam medida ao baixo desempenho no Ideb

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Sala de aula da rede pública do Distrito Federal
Escola de ensino fundamental da rede pública do Distrito Federal | Crédito: Ascom/SEEDF

A antecipação das avaliações do terceiro bimestre do Ensino Médio na rede pública do Distrito Federal tem provocado críticas de professores e questionamentos sobre o planejamento pedagógico das escolas. A mudança, relacionada ao Plano de Acompanhamento das Aprendizagens do Ensino Médio (Paaem), foi comunicada no mês de setembro, com o semestre em andamento, e levou unidades de ensino a reorganizarem a rotina das aulas.

A Comissão de Educação e Cultura da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), presidida pelo deputado Gabriel Magno (PT), encaminhou, no dia 11 de setembro, um ofício à Secretaria de Educação questionando a antecipação das avaliações e os impactos da medida sobre o planejamento das escolas. Em outro documento, enviado ao Conselho de Educação do DF (CEDF) também no dia 11, a comissão questionou a alteração do calendário e a implementação do Paaem.

No ofício encaminhado à Secretaria de Educação, a comissão argumenta que o calendário já havia sido estabelecido e divulgado à comunidade escolar. “Assim, a sua antecipação, comunicada com o semestre em curso, com o cronograma já estabelecido e amplamente divulgado para a comunidade escolar, desconsidera todo o planejamento pedagógico da equipe bem como a organização dos estudantes”, enfatiza.

A comissão também afirma que a redução do período destinado ao desenvolvimento das atividades pode afetar o processo de aprendizagem. “Além do mais, reduzir o prazo estabelecido para a consolidação da aprendizagem e para o estudo dos discentes pode acarretar prejuízos na aprendizagem e no rendimento dos estudantes”, afirma a comissão.

Outro ponto levantado foi a falta de informações para os profissionais responsáveis pela execução do plano. “Impuseram a antecipação do encerramento do bimestre, sem considerar o planejamento e a realidade das unidades de ensino e sem dar, àqueles de fato envolvidos na implementação do Plano, o conhecimento efetivo”, afirma a Comissão de Educação e Cultura.

Escolas reorganizam rotina

A mudança também teve efeitos na organização de algumas escolas. Uma professora da rede pública do DF, que pediu para não ser identificada, relatou ao Brasil de Fato DF que a unidade em que trabalha decidiu seguir a orientação recebida pela Secretaria e interromper temporariamente o planejamento que vinha sendo executado.

Segundo ela, a partir de outubro, os professores retornaram às turmas e à organização do semestre anterior para realizar atividades de recuperação. “A gente volta para as salas de aula que já tinha encerrado tudo para aplicar essa recuperação para quem não passou e aprofundamento para quem passou. O horário volta a ser o horário antigo e a gente pausa todas as disciplinas e o conteúdo que está dando até o momento”, relata a professora.

“Os alunos vão ficar essa semana sem conteúdo novo e a gente vai voltar para as turmas antigas. Vou pausar minhas aulas nas turmas em que estou agora para fazer recuperação e aprofundamento com as turmas do semestre passado”, explica.

A professora também questiona a efetividade da medida para os estudantes que já foram aprovados nas disciplinas. “Vai ser um caos, porque quem passou não vai querer fazer, a gente não tem como obrigá-los a fazer, só tem como obrigá-los a ficar na sala de aula. Isso vai ser um inferno”, relata a professora.

Autonomia pedagógica

Para Edileuza Fernandes, coordenadora-adjunta do Fórum Distrital de Educação (FDE), a antecipação interfere na autonomia das escolas para organizar o trabalho pedagógico. “Quando os gestores do nível central, como a Secretaria de Educação, atropelam esse processo, alterando esse calendário com essa antecipação das avaliações do terceiro bimestre, isso fere sim o princípio da autonomia pedagógica das escolas para poderem pensar, planejar e desenvolver o seu trabalho pedagógico”, afirma Edileuza.

Ela também critica a forma como a avaliação está sendo conduzida e defende que o processo avaliativo considere o desenvolvimento dos estudantes ao longo do período. “Essa medida da Secretaria de Educação confronta essa ideia da avaliação formativa, porque sugere que a avaliação é um momento pontual, no final de um período apenas. Mas ela precisa considerar todo o processo”, afirma Edileuza.

Na avaliação da coordenadora-adjunta, alterações no calendário interferem em um planejamento construído previamente pelos professores. “Toda a organização didático-pedagógica, a organização do trabalho pedagógico, as avaliações, o próprio planejamento do currículo, visando à garantia das aprendizagens dos estudantes, é planejado pelos professores na semana pedagógica no início do ano, a cada bimestre, a cada semestre”, explica.

Edileuza também relacionou a mudança no calendário ao desempenho do Distrito Federal no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). “Eu estou imaginando que essa ação tem muita relação com a queda do Ideb. […] Estou analisando essa alteração como uma estratégia do governo e, a meu ver, uma estratégia que não se justifica”, afirma Edileuza.

Ideb avalia o desempenho dos estudantes em língua portuguesa e matemática no Sistema de Avaliação da Educação Básica
Ideb avalia o desempenho dos estudantes em língua portuguesa e matemática no Sistema de Avaliação da Educação Básica | Crédito: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O Brasil de Fato DF procurou a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF) para esclarecer os critérios de escolha dos materiais e as mudanças no terceiro bimestre. Até a publicação desta matéria, não houve resposta.

Sinpro questiona novo cronograma

Em reunião com gestoras e gestores de escolas realizada em 24 de setembro, o Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) voltou a questionar as mudanças no cronograma do terceiro bimestre. “Às escolas, tem sido dito que, embora seja uma ‘proposta’, elas ‘têm que cumprir’. Acontece que o calendário atual foi aprovado pelo Conselho de Educação e, na ausência de manifestação dele em contrário, o calendário continua vigente”, afirma o Sinpro-DF.

O sindicato também relacionou a mudança à busca por resultados no Ideb. Em publicação, a diretora do Sinpro-DF, Márcia Gilda, criticou a condução da Secretaria de Educação. “Nossos professores, professoras, orientadores e orientadoras educacionais desenvolvem um trabalho de excelência, com muito compromisso com a escola pública e com os estudantes. Quem não faz a parte dele é o governo”, destacou em publicação.


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Editado por: Clivia Mesquita

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