Mobilização

O futuro não se espera, o futuro se ocupa

É preciso se preparar para construir a sociedade que desejamos

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Criança participa da edição de 2026 do Julho das Pretas em defesa da democracia, do combate ao racismo, da reparação e do bem viver realizada na orla da Praia de Copacabana, zona sul do Rio
Criança participa da edição de 2026 do Julho das Pretas em defesa da democracia, do combate ao racismo, da reparação e do bem viver realizada na orla da Praia de Copacabana, zona sul do Rio | Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Tenho pensado muito, nestes últimos dias, sobre uma questão aparentemente simples: quem fará a sociedade que desejamos?

A pergunta voltou a mim com força ao assistir à entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Flow Podcast. Já no final da conversa, dirigindo-se especialmente à juventude, Lula fez uma provocação que merece permanecer para além da disputa eleitoral: “O político honesto que você quer está dentro de você.”

Em seguida, desenvolveu o raciocínio: se você não gosta da política, se não acredita nos políticos, se considera que ninguém o representa, por que não entrar na política? Por que não participar da comunidade, de um partido, de uma organização social? Por que permanecer paralisado?

Em outro momento da conversa, resumiu: “A única coisa que a gente não pode é ser passivo.”

Essa fala me atravessou porque tenho pensado muito sobre isso: é preciso fazer aquilo que desejamos ver realizado na sociedade.

Não podemos terceirizar indefinidamente a construção do futuro.


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Poucos dias antes, na entrevista concedida pelo presidente a um grupo de comunicadores, entre eles a professora, escritora e intelectual negra Bárbara Carine, experimentei uma dessas pequenas alegrias que nos lembram que as ideias também caminham. Bárbara trouxe à conversa a noção das maiorias minorizadas, conceito que desenvolvi em meu livro Maioria Minorizada: um dispositivo analítico de racialidade.

Quando formulei essa categoria, procurava nomear uma contradição fundamental da sociedade brasileira: grupos que podem ser demograficamente numerosos e socialmente decisivos, mas permanecem sub-representados nos lugares em que poder, prestígio, riqueza, conhecimento e representação são distribuídos.

Minorização, portanto, não é necessariamente uma questão de quantidade. É uma tecnologia de poder.

E é justamente por isso que a política importa.

Uma eleição não trata apenas dos nomes inscritos numa urna. Ela também coloca diante da sociedade uma discussão sobre representação: quem ocupa o Estado? Que experiências sociais chegam aos espaços de decisão? Que grupos permanecem sub-representados? Que projeto de país será disputado nos anos seguintes?

São perguntas particularmente importantes quando pensamos a presença negra na política institucional brasileira.

Não basta, porém, reduzir representação à aparência dos corpos. A presença negra nos espaços institucionais pode ser analisada também a partir dos projetos políticos que esses sujeitos defendem, de suas relações com movimentos sociais e de suas posições diante do racismo, da desigualdade, da democracia e das políticas de reparação.

É nesse ponto que essa discussão encontra aquilo que venho chamando de Economia da Reparação, conceito que desenvolvo no meu novo livro, que chega às livrarias em novembro pela Editora Telha, por meio do Selo Pensamento Negro Contemporâneo.

A Economia da Reparação parte de uma premissa: reparar não significa simplesmente pagar uma dívida pelo passado.

Reparar significa reorganizar o futuro

Significa perguntar quem acumulou e quem foi expropriado; quem herdou patrimônio e quem herdou vulnerabilidades; quem ocupou historicamente os espaços de decisão e quem permaneceu do lado de fora deles.

Mas significa também ir além do diagnóstico.

Reparação é reconstrução econômica, territorial, educacional, institucional e política. É discutir soberania nacional. É perguntar que desenvolvimento queremos, para quem ele será produzido e quem participará das decisões sobre seus caminhos.

E aqui há uma dimensão que considero incontornável: não existe reparação sem redistribuição de poder. Podemos discutir renda, território, educação, memória, patrimônio e reconhecimento — e precisamos discutir tudo isso —, mas a reparação permanecerá incompleta enquanto os lugares onde se decide o orçamento, se produzem as leis, se definem prioridades e se desenha o futuro continuarem reproduzindo a arquitetura racial do passado. O Parlamento também é território. O ministério é território. A universidade é território. A direção de uma empresa pública é território. Os espaços de produção de conhecimento e comunicação são territórios. Disputá-los não significa substituir uma elite racial por outra; significa democratizar radicalmente as possibilidades de decidir. Uma maioria permanentemente afastada dos centros de poder continuará sendo uma maioria minorizada.

Por isso, penso que a representação política precisa ser incorporada ao debate sobre reparação.

Charles W. Mills nos ofereceu uma chave fundamental para compreender esse problema quando formulou a ideia do Contrato Racial. Por trás do universalismo proclamado pelas democracias modernas, determinadas sociedades organizaram historicamente diferentes graus de humanidade, cidadania e acesso ao poder.

O contrato dizia “todos”, mas nem todos estavam realmente incluídos nesse todos.

Desmontar as estruturas históricas associadas a esse contrato exige transformar instituições, oportunidades e formas de representação. Exige perguntar quem continua falando pelo país e quem ainda precisa lutar simplesmente para chegar à mesa onde as decisões são tomadas.

É aí que Maioria Minorizada encontra Economia da Reparação.

Uma descreve o mecanismo que transforma maiorias sociais em minorias políticas.

A outra procura pensar os caminhos pelos quais podemos reconstruir as condições materiais e institucionais dessa cidadania.

Entre as duas está a política

E talvez seja por isso que aquela frase dita no final do Flow tenha me chamado tanto a atenção.

Há algo poderoso quando um homem de 80 anos, depois de décadas de vida pública, olha para jovens e lhes diz, em essência: não esperem que alguém faça tudo por vocês.

Em determinado momento, Lula transforma essa mensagem quase numa passagem de bastão:

“A pessoa boa que você quer que eu seja, talvez seja você”

E conclui:

“Seja eu amanhã, porque eu já fui você ontem”

Independentemente das escolhas eleitorais individuais, existe aí uma provocação democrática que merece ser considerada.

Talvez uma das grandes questões colocadas ao Brasil seja justamente essa: quem serão os próximos personagens da nossa democracia?

Quem serão os jovens que decidirão entrar numa associação comunitária, num movimento cultural, num sindicato, numa universidade, num partido ou numa disputa eleitoral porque compreenderam que política não é uma atividade reservada aos outros?

E quantos desses novos personagens virão das periferias, dos quilombos, dos terreiros, dos movimentos negros, das aldeias, das universidades públicas, do Hip Hop e dos territórios historicamente tratados apenas como destinatários de políticas formuladas por terceiros?

Conheço essa pergunta também pela minha própria trajetória.

Venho de uma geração formada pelo Hip Hop. Antes do professor universitário, do pesquisador, do escritor e do gestor público, existiu — e continua existindo — o Big Richard. Aprendi nas ruas, nos palcos, nos movimentos sociais e na comunicação que ocupar a palavra é disputar o mundo.

Talvez a democracia também precise reaprender isso.

Não existe futuro esperando por nós numa prateleira.

O futuro é produzido. E, muitas vezes, o futuro precisa ser ocupado.

A cada geração cabe decidir se permanecerá apenas descrevendo as estruturas que recebeu ou se participará de sua transformação.

É por isso que soberania, representação e reparação pertencem à mesma conversa. Um país soberano precisa ser capaz de decidir seu próprio destino; uma democracia substantiva precisa ampliar as condições de participação daqueles historicamente afastados dos centros decisórios; e uma sociedade comprometida com a reparação precisa enfrentar os mecanismos que reproduzem desigualdades de geração em geração.

A política que desejamos não nascerá espontaneamente.

Ela dependerá das pessoas que decidirem fazê-la.

Talvez seja esse o sentido mais profundo da frase que ficou comigo depois daquela entrevista:

“Seja eu amanhã, porque eu já fui você ontem.”

Porque nenhuma geração recebe o futuro pronto. Recebe disputas, contradições, conquistas incompletas e caminhos abertos por aqueles que vieram antes. Cabe aos que chegam decidir o que farão com essa herança.

E talvez a pergunta fundamental do nosso tempo não seja apenas quem desejamos que nos represente, mas algo ainda mais profundo:

que sociedade estamos dispostos a construir para que as maiorias deixem, finalmente, de ser minorizadas?

*Richard Santos é escritor, pesquisador, docente e extensionista da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde atua como professor nos Programas de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais e em Estado e Sociedade. Possui Pós-doutorado em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e Mestrado em Comunicação pela Universidade Católica de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo. Diretor Regional Nordeste da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Autor do livro “Maioria Minorizada: um dispositivo de racialidade”.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Juliana Passos

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