Porto Alegre e Belo Horizonte: duas capitais, 1400 km de distância e mais proximidades do que a gente pode imaginar. Mais de 30 dias em Belo Horizonte, mais uma etapa do meu desterro voluntário, mais um ângulo pelo qual aprendo a ver a vida.
Nômade? Não: refugiada climática.
Enquanto caminho pelas ruas movimentadíssimas do centrão belorizontino, meu peito rebate saudades e meus olhos captam similaridades.
Belo Horizonte me recorda muito o que eu chamo de sentir portoalegrense.
É que a cidade aqui que se faz semelhante à cidade lá, e isso é meu prazer e também a minha dor.
Escrevo num fim de tarde, enquanto assisto o sol se pôr pela janela e o alaranjado reluzir nas janelas dos prédios do centro. O famoso edifício JK se mistura ao mar de construções. O barulho do trânsito aumenta – por aqui ele nunca cessa.
Estou hospedada no centro. Correção: baixo centro. Aquela região das metrópoles que costuma ter botecos de higiene questionável e é mais perto da rodoviária. Ruas apinhadas, comércio popular, muitas linhas de ônibus. E neste caso: muitas, muitas, muitas pessoas vivendo em situação de rua.
Aqui, os ‘doidão’ são ‘muito doidão’
O centro de Belo Horizonte é gigantesco. Tem pelo menos três vezes o tamanho do centro de Porto Alegre e abrangeria facilmente a região do gaúcho Centro Histórico, Cidade Baixa e Floresta. A população belorizontina é quase o dobro da capital gaúcha. E aparentemente a desigualdade social aqui é muito, muito mais explícita.
Diariamente eu subo a avenida Olegário Maciel e é nítida como seu entorno muda em menos de 1km. O baixo centro tem os sacolões de frutas e verduras, lixo por todos os lados e passeio lambuzado de resíduos de vida humana. Alguns metros acima, um dos bairros mais ricos da cidade apresenta uma estética completamente diferente.
Todos os dias eu contorno uma imensa sede da Igreja Universal. Faz muito calor todos os dias. E todos os dias presencio pessoas tomando banho e lavando roupas no chafariz da Praça Raul Soares, o ponto específico de virada da paisagem.
Não estão lá de maneira recreativa, como fazem os foliões da famosa Praia da Estação (evento onde grupos carnavalescos fazem batucada e tomam banho no chafariz da Praça da Estação, e que foi responsável pela retomada do Carnaval de rua de BH).
São pessoas que fazem sua higiene corporal e de utensílios num aparato público. A polícia não vê, e se vê, não interfere.
Algumas delas são as mesmas pessoas que pedem dinheiro aos turistas em frente ao Mercado Novo. As mesmas que montam suas barracas nas esquinas e sob as marquises dos prédios. As mesmas que não são socialmente autorizadas a subir a mesma rua que eu, em direção ao bairro Lourdes, que seria aqui o equivalente ao ‘Moinhos de Vento’ de BH.

‘Até a direita de MG é melhor que a direita do RS’
Vim passar meu aniversário de 40 anos, em fins de agosto.
Mas Minas Gerais me chamou com força no final do ano passado, quando eu tentava com afinco me estruturar psicoemocionalmente depois do abalo das enchentes no RS. Dentre tantas experiências, queria estar em Mariana – que junto com Brumadinho, viveu uma catástrofe semelhante ao que passamos e poderia nos dar um pouco de ensinamento a respeito. Fui.
Voei para BH no Carnaval, com um grupo de amigos e muita vontade de conhecer o estado. Muitos turistas, especialmente gaúchos, muitos blocos na rua e muito acolhimento. A receptividade do mineiro realmente fez jus à sua fama.
‘Aqui, até a direita é melhor’. A frase foi dita por um amigo, gaúcho, e tem um certo fundamento: Belo Horizonte se consagrou como o terceiro maior Carnaval do Brasil em 2026. Os blocos tinham espaço, segurança, recursos, estrutura. Ainda que seja pelo viés econômico, a cidade reconhece a festa como sua e faz bonito.
A mesma coisa se repetiu em agosto: Honk BH, Virada Cultural, Festivais diversos. Tudo preparado para receber a folia urbana. Foi lindo, sim.
Mas o carnaval passa.
A fanfarra acaba.
E quando o último trompete silencia, o que ecoa nas ruas de BH é uma imensa desigualdade social. São 16.115 pessoas sem casa, de acordo com dados do CadÚnico em 2026, tornando Belo Horizonte a terceira capital do país com o maior número de pessoas nessa condição, ficando atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro. O curioso é que a direita aqui realmente parece ser mais competente em manter as estruturas que sedimentam a desigualdade social.
O mineiro é educado, polido e conservador – o que faz tanto sua cultura de boteco permanecer, assim como a pegada da exploração e da mineração faz a manutenção do abismo entre as classes.
(Como pode uma cidade que é conhecida por sua gastronomia generosa ter tanta gente passando fome? Como pode um lugar que se faz tão hospitaleiro não ter casa pra tanta gente?)
Um lugar que é reconhecido por seus bares, onde o povo pode sentar despreocupado, tem inúmeras camadas de preocupações. O queijo e a goiabada combinam no prato. Mas a política em terras mineiras é azeda.
Belo Horizonte também é terra de contradições.
Na segunda semana aqui, precisei utilizar a UPA, numa questão de saúde.
Me senti num cenário que poderia tranquilamente ser de uma reportagem de saúde pública do Jornal Nacional em 1992. O posto de saúde sem médicos, a UPA do bairro apinhada de gente. Pessoas jogadas nos corredores. Depois de seis horas de espera fui (mal) atendida por um médico que mal olhou na minha cara, não me examinou e inventou respostas para as perguntas de uma anamnese que não foi feita. A saúde pública agoniza.
Os cruzamentos não são cruzes: são asteriscos
Ainda no posto de saúde, a televisão local passava candidaturas das eleições desse ano: Eduardo Cunha concorre a deputado federal. Nikolas Ferreira à reeleição, também como deputado. Romeu Zema, aquele que tem “políticas contra as mulheres”, foi governador aqui e agora concorre à presidência.
BH me oferece uma configuração de trânsito bem peculiar. Não tem esquinas retas, mas um emaranhado curvo de caminhos e avenidas que contornam a cidade, onde quase nada é paralelo. Talvez essa ordem urbana explique o motivo que as pessoas não ligam fatos com personagens. O desvio mental acontece assim como o contornar de uma praça: se abre num leque de rotas distintas. Cada uma tem um bar, no mínimo. É difícil não se perder.
No meu trecho diário para a academia, eu contorno uma estrutura gigantesca: uma sede da Igreja Universal. No bairro vizinho ao centro, o mesmo que fui no posto de saúde, fica a Igreja da Lagoinha – agora muito famosa pela participação no escândalo do Banco Master.
Faz muito calor, desde cedo, todos os dias. Meu corpo relaxa, mas minha mente aguça: veja bem, o Nikolas aqui pediu ajuda a Daniel Vorcaro para liberar ativos de mineração em um lugar perto de Ouro Preto – cidade que visitei – colocando milhares de pessoas em risco de um novo desastre ambiental.
Juiz de Fora sofreu com alagamentos semelhantes ao RS em março e abril deste ano. A própria pegada da mineração leva embora pedaços imensos da paisagem montanhosa e aniquila a qualidade de vida da população. O colapso climático é real.
Nisso, RS e Minas também se assemelham: ambas tem ‘meninos mimados’ na regência dos estados. São homens covardes, sem um pingo de escrúpulos nem vergonha que se lançam na vida pública para tomar decisões em prol de pessoas que eles nunca viram. Sim, no Brasil, o pobre é invisível. As mulheres são invisíveis. As populações atingidas por barragens, enchentes e mineradoras são invisíveis aos olhos gananciosos. A natureza é invisível.
(h)á resistência
A esquerda festiva resiste, apesar de tudo… E se aglomera entre gritos e glitter nas praças. É bonito de ver – e agora, na reeleição de Lula, vamos ver se é possível de sustentar. Há pontos de resistência nas ruas. Mulheres, ciclistas, trabalhadores. Uma massa que me conforta e estimula a seguir lançando meu corpo no mundo.
Gente que entendeu que o caminho da política é longo, exigente e pulsante.

Lula não governará sozinho. A extrema direita mira o Senado e ali é onde nós também precisamos nos defender. Eu saio de Minas Gerais para votar em Porto Alegre e essa eleição é o evento que vai garantir que meus caminhos sejam mais ou menos tortuosos a partir de agora.
Seja em Minas Gerais ou o Rio Grande do Sul: vale lembrar quem está nas ruas toda vez que o Carnaval acaba.

* ana c, de carolina, é comunicadora por vocação, produtora cultural por capricho e multiartista por essência. mulher lésbica, feminista e latinoamericana, escreve para dar sentido ao que sente.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


