“Uns países se especializam em ganhar e outros em perder”. Assim se referia o escritor uruguaio Eduardo Galeano à profunda relação de dependência, sobretudo econômica, dos países latino-americanos em relação ao “primo rico” norte-americano, os Estados Unidos.
A reflexão, plasmada no premiado best-seller “As veias abertas da América Latina”, lançado em 1971, retrata um continente tomado por ditaduras civis e militares, consolidadas a partir da operação denominada Plano Condor, que tinha o objetivo de garantir a hegemonia estadunidense sobre aquele que era considerado seu quintal.
Aquela realidade, que para muitos parecia um destino trágico dos povos subalternos, deu lugar, décadas depois, a governos progressistas que desafiaram a influência imperialista na região e advogaram por uma política de integração, soberania e autodeterminação.
Mas o jogo começou a mudar novamente a partir da última década. Uma sucessão de golpes, derrotas eleitorais e a reinauguração de uma doutrina de ingerência explícita dos Estados Unidos, incluindo uma intervenção armada inédita na Venezuela em janeiro de 2026, tem redesenhado o mapa político latino-americano.
Às vésperas das eleições no Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou ao plenário da ONU denúncias de tentativas de intervenção estadunidense. O historiador indiano e diretor executivo do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Vijay Prashad, menciona relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e uma carta assinada por um grupo de senadores do Partido Democrata dirigida ao Departamento de Estado. Ambos os documentos alertam para o alto risco de interferência do governo Trump nas eleições brasileiras. Ao Brasil de Fato, Prashad afirma que a intervenção já começou.
“A avaliação confidencial da Abin e a carta dos senadores estadunidenses são alarmantes. Elas mostram que os EUA utilizarão pressão econômica sobre eleitores e empresas para votarem na extrema direita. Trump já declarou que aplicará tarifas caso seu candidato preferido, Flávio Bolsonaro, não vença. Washington já sancionou o ministro Alexandre de Moraes em julho de 2025 para enviar um recado a altas autoridades no Brasil. Embora essas sanções tenham sido retiradas sob pressão em dezembro, a mensagem foi transmitida claramente”, avalia o historiador.
“Trata-se de uma forma grave de interferência. Há também o receio de operações digitais ou encobertas. Desinformação coordenada, financiamento oculto ou ataques cibernéticos são mecanismos possíveis. A remoção de Lula das redes sociais é um indício precoce desse tipo de comportamento”, complementa.
Eleições no Brasil, segurança nos EUA
Para Prashad, “devido à sua escala continental, capacidade industrial e agrícola, recursos energéticos e minerais, posição no Atlântico Sul e capacidade de apoiar a cooperação regional independente de Washington”, o resultado das eleições terá impacto direto sobre a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, que “exige explicitamente a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, vincula assistências e alianças à redução da influência de potências rivais e identifica infraestruturas e recursos estratégicos como prioridades”. “Os EUA querem os minerais críticos do Brasil, o petróleo na foz do Amazonas e seus outros minerais e metais”, avalia o historiador.
“Washington não deseja que o Brasil seja um líder na criação de uma ordem mundial multilateral ancorada no Sul Global. Uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro poderia retirar o país do Brics+, normalizar relações com Israel e cortar laços com projetos progressistas globais, como a Parceria para o Multilateralismo recentemente lançada por Lula”, aponta Prashad.
Para ele, Washington usará “alavancagem financeira e tecnológica” para dissuadir o próximo governo brasileiro de suas relações com a China, que é hoje parceiro comercial do Brasil, bem como de grande parte dos países latino-americanos, mesmo aqueles que se alinham politicamente aos Estados Unidos, o que não deve ser tarefa fácil. “Washington quer eliminar o papel da China nas Américas, o que é algo absolutamente impossível”, reitera.
Embora representem contextos e níveis de intervenção absolutamente diferentes, outros países latino-americanos passaram por processos semelhantes de ingerência externa coordenados pelo imperialismo estadunidense, todos parte de um mesmo projeto de ocupação regional que não carece de revisita à historiografia, mas de uma simples pesquisa virtual pelas páginas dos jornais da América Latina nos últimos anos.
Colômbia: Operação Espriella
A eleição presidencial de 2026 na Colômbia foi marcada por graves denúncias de ingerência externa vinda dos Estados Unidos. Donald Trump declarou abertamente apoio ao candidato de extrema direita Abelardo De la Espriella, o que gerou forte reação do governo colombiano e, inclusive, de parlamentares estadunidenses e eurodeputados.
Além do apoio público a Espriella, Trump classificou o candidato da coalizão progressista Pacto Histórico, Iván Cepeda, como um representante da esquerda radical.

O então presidente colombiano, Gustavo Petro, rejeitou de forma categórica a postura do governo estadunidense e afirmou que o apoio direto de Washington a uma das candidaturas desrespeitava acordos prévios de não intervenção, além de violar a soberania do povo colombiano.
Em um discurso proferido durante a campanha eleitoral, Petro denunciou o papel ativo de Trump e do senador Marco Rubio no processo eleitoral colombiano.
“Não acredito que Trump não saiba como foi o seu apoio: ele o deu e o admitiu, e descobrimos como foi o apoio que Netanyahu ofereceu para se impor sobre a vontade majoritária legítima do povo da Colômbia”, disse Petro. “Receio que ele tenha dito a Marco Rubio: ‘Cuide da Colômbia’, e Marco Rubio cuidou”, completou.
Após as eleições, o presidente da Colômbia denunciou que a intervenção estrangeira envolveu recursos e apoio externo na manipulação digital do sistema de contagem de votos. Segundo Petro, a alteração de algoritmos nos formulários de votação comprometeu a legitimidade dos resultados oficiais que deram a vitória a De la Espriella.
O mandatário apresentou ações judiciais pedindo a anulação do pleito e apontou que o país enfrenta uma severa perda de soberania nacional perante os interesses de Washington. Depois disso, em uma publicação feita na rede social X, Petro denunciou a derrubada da plataforma que continha os dados técnicos da fraude.
“Acabaram de derrubar a página onde estão as provas que apresentei sobre a fraude eleitoral algorítmica ocorrida nos EUA. Assim que publicarmos as provas novamente, todos os que tiverem o material devem salvá-lo, para que derrubar a página se torne inútil. Isso demonstra que realmente houve fraude eleitoral”, declarou Petro. “As eleições foram roubadas por israelenses ricos, liderados por um genocida, e isso foi feito do exterior, alterando a votação.”
A ingerência também provocou contestação dentro do próprio Congresso dos Estados Unidos. Um grupo de 20 parlamentares da Câmara dos Representantes, liderado pelo deputado do Partido Democrata Jim McGovern, divulgou uma declaração conjunta em 12 de junho de 2026 repudiando as ações da gestão Trump. No documento, os legisladores afirmaram que a tentativa de favorecer um candidato específico é prejudicial aos direitos democráticos da população e apelaram pelo respeito à autodeterminação da Colômbia.
No âmbito europeu, eurodeputados encaminharam uma carta à Presidência da Comissão Europeia e à chefia da diplomacia do bloco. O texto condenou os pronunciamentos de Trump e solicitou que os órgãos europeus rejeitem qualquer tentativa de interferência política, diplomática ou econômica nas eleições colombianas.
“Tais declarações constituem uma interferência direta no processo democrático da Colômbia e minam tanto o pluralismo democrático quanto a soberania nacional. […] Os processos eleitorais devem pertencer exclusivamente aos cidadãos, os únicos a deter o direito legítimo de determinar seu futuro político, livres de qualquer forma de interferência ou coerção externa”, diz o comunicado. “A comunidade internacional deve apoiar as instituições democráticas e não interferir nelas”, completa.
Argentina: a chantagem como método
A poucas semanas das eleições legislativas na Argentina, ocorridas em 26 de outubro de 2025, Donald Trump declarou apoio direto ao presidente argentino Javier Milei. Em encontro promovido na Casa Branca no dia 14 de outubro, o líder estadunidense foi além e condicionou uma ajuda financeira a Buenos Aires ao resultado das urnas, sustentando que não “haveria generosidade” caso a base parlamentar de Milei fosse derrotada na disputa.
A chantagem envolvia um acordo de troca cambial no valor de US$ 20 bilhões com a Argentina, que foi formalizado seis dias antes da votação.

“Os EUA forneceram uma linha de swap cambial de US$ 20 bilhões para estabilizar os problemas enfrentados pelo partido de Javier Milei. O Secretário do Tesouro de Trump, Scott Bessent, vinculou o apoio contínuo de Washington à vitória da direita nas eleições”, lembra Prashad. “O padrão consiste em apoiar a extrema direita e prometer acesso aos mercados de crédito em caso de vitória, o que caracteriza abertamente uma interferência eleitoral”, aponta o historiador indiano.
Na votação, o partido governista, Libertad Avanza, obteve 40,8% dos votos na disputa para a Câmara dos Deputados e garantiu 13 das 24 vagas no Senado. O resultado deu sobrevida ao governo de extrema direita na Argentina, à revelia do agravamento da crise econômica e dos índices de pobreza, além da perda vertiginosa de popularidade entre os argentinos.
Hondurasgate: relações estreitas entre Trump e o narcotráfico
Um escândalo político de grandes proporções expôs as engrenagens da interferência estadunidense nas eleições de Honduras. Conhecido como “Hondurasgate”, o caso veio à tona após o vazamento de 37 áudios com conversas privadas que revelam como setores da extrema direita internacional atuaram para manipular o resultado do pleito e garantir a ascensão do candidato conservador Nasry Asfura ao poder. As gravações expõem negociações diretas que envolvem o governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, aliados de Israel e operadores de campanhas digitais.
A principal manobra para desestabilizar o processo democrático incluiu a libertação do ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández. Condenado pela Justiça estadunidense a 45 anos de prisão por narcotráfico, Hernández recebeu um indulto assinado por Trump em 30 de novembro de 2025, dois dias antes do pleito.
Segundo o material divulgado, o perdão judicial serviu como moeda de troca política financiada por grupos conservadores do exterior para reagrupar as forças da direita no país centro-americano e viabilizar a vitória de Asfura.

A ofensiva de Washington não se limitou ao perdão do ex-mandatário. Em declarações públicas e mensagens nas redes sociais, o próprio Donald Trump ameaçou abertamente cortar o envio de remessas financeiras ao país caso a candidata progressista Rixi Moncada saísse vitoriosa.
No campo digital e operacional, as investigações apontam a participação central do estrategista argentino Fernando Cerimedo, braço direito da extrema direita na América Latina. Cerimedo comandou o centro de dados do Partido Nacional e utilizou algoritmos e canais de desinformação para espalhar falsas projeções de vitória de Asfura antes do encerramento oficial do escrutínio.
Os áudios também mostram orientações para fraudar urnas e barrar a contagem voto a voto. A manobra impediu a checagem de 306 atas que somavam mais de 132 mil votos, em uma disputa cuja diferença declarada foi de apenas 27 mil sufrágios.
Venezuela: no limite, a violência
Em 28 de julho de 2024, os venezuelanos reelegeram Nicolás Maduro, com 51,95%, para um novo mandato presidencial de seis anos. Tempo demais para os planos de Washington.
A contestação do pleito e a recusa em reconhecer a vitória foram as primeiras e previsíveis reações do governo estadunidense. Mas o desfecho político foi além do que a disputa eleitoral deixava prever.
Diante da validação dos resultados pela máxima corte do país e da impossibilidade de promover uma mudança de regime pela via eleitoral, em 3 de janeiro, o governo de Donald Trump determinou o bombardeio de Caracas e outras regiões do país, e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Após o ataque, Washington vem impondo um regime de tutela sobre o governo venezuelano, sobretudo no acesso ao petróleo do país por empresas estadunidenses.
“Em seu discurso na ONU em 22 de setembro, Trump mencionou a operação para capturar Nicolás Maduro como evidência da disposição estadunidense de atuar em todo o hemisfério”, recorda Vijay Prashad. “Ele ameaçou usar força militar onde quer que Washington considere que seus interesses vitais estejam em perigo”, agrega.
Nesse sentido, o historiador considera que Brasil e México se tornam alvo central da ação ingerencista estadunidense, na medida em que são pontos de resistência à escalada dos Estados Unidos na região. Por outro lado, pondera Prashad, ainda restam aos estadunidenses outros mecanismos de pressão contra esses países, antes de uma opção militar.
“O corolário de Trump para a Doutrina Monroe declara que os EUA devem ter domínio sobre todas as Américas, incluindo o Brasil”, afirma.
“Brasil e México permaneceram fora da coalizão Escudo das Américas, portanto, ambos estão sob ameaça. Mas a escalada militar permanece como um risco a ser avaliado, e não como um plano estabelecido. O tamanho do Brasil, suas instituições e suas relações internacionais tornam uma operação militar direta uma proposição substancialmente diferente. Para o Brasil, antes de uma opção militar como a utilizada na Venezuela, os EUA utilizarão coerção econômica, diplomática e institucional”, argumenta o historiador.

