O dirigente nacional do MST Gilmar Mauro avalia que a eleição de 2026 foi marcada por baixa politização da sociedade, apesar de colocar em jogo, em sua leitura, uma disputa entre fascismo e democracia. Voz do campo popular, ele relaciona o esvaziamento do debate político ao avanço do individualismo e à perda de consciência de classe.
Para Gilmar, a perda de interesse não significa que as contradições tenham desaparecido. Ao contrário, a eleição coloca em primeiro plano uma contradição que ele considera conjuntural: a disputa entre fascismo e democracia. “Agora há uma contradição aqui conjuntural. É a contradição entre fascismo e democracia. Essa contradição é que está sendo colocada nessas eleições aqui, agora”, afirmou neste domingo (4) em participação na Rádio Brasil de Fato.
O dirigente relaciona a dificuldade de politização ao avanço de uma lógica individualista na sociedade. Segundo ele, a ideia de que cada pessoa deve resolver individualmente seus problemas enfraqueceu a percepção de que as condições de vida também são resultado de relações sociais e de disputas coletivas.
“Esse processo do eu resolvo, do eu, ele não politiza. E a meritocracia esfarelou tudo isso”, afirmou. Na avaliação de Gilmar, a consolidação dessa lógica está ligada ao avanço do pensamento liberal nas últimas décadas. “Não existe sociedade, existem indivíduos”, disse, recuperando uma formulação associada à ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. “Nesse sentido, o liberalismo venceu.”
A consequência, segundo ele, aparece na própria campanha eleitoral. Gilmar observa que houve menos conversas sobre a eleição em espaços cotidianos, como famílias, bares e ruas, enquanto a propaganda se concentrou em grande medida nas candidaturas proporcionais. O resultado seria uma eleição com pouca participação no debate público, mesmo diante de questões que, para ele, têm impacto direto sobre a vida da população.
Fascismo e democracia
É nesse cenário que Gilmar situa a principal contradição política do momento. Para ele, a eleição não pode ser compreendida apenas a partir das diferenças entre candidaturas ou programas de governo, porque está inserida em uma disputa mais ampla entre projetos políticos.
O dirigente diferencia essa contradição conjuntural de outras que considera estruturais. De um lado, está o conflito entre capital e trabalho; em uma escala internacional, a relação entre imperialismo e soberania dos países periféricos; e, no campo brasileiro, o confronto entre o modelo do agronegócio e a proposta de reforma agrária popular.
Na conjuntura eleitoral, porém, é a oposição entre fascismo e democracia que ganha centralidade, segundo sua análise. É por isso, afirma, que uma frente democrática pode reunir setores que mantêm divergências profundas entre si.
“Comunistas, socialistas, social-democratas, reformistas, inclusive capitalistas que tiverem os parafusinhos mais ou menos ajustados”, afirmou, podem fazer parte desse campo diante da ameaça representada pelo avanço da extrema direita.
Para Gilmar, a construção dessa frente não elimina as diferenças entre os grupos que a integram. Ao contrário, ela reúne interesses conflitantes e pode produzir tensões durante um eventual governo. Ainda assim, ele considera que preservar esse espaço é necessário para enfrentar a conjuntura atual.
Pressão por ajuste fiscal
A contradição também aparece, segundo o dirigente, na relação entre o governo e setores do grande capital. Gilmar afirma que setores das classes dominantes, especialmente do capital financeiro e dos grandes meios de comunicação, têm interesse na continuidade da disputa eleitoral porque poderiam pressionar por uma política de ajuste fiscal.
“Eles querem enfiar a faca no Lula. Eles querem ajuste fiscal de 3%. 3% significa 300 bilhões. 300 bilhões que vão sair de algum lugar, de onde vão sair? Da saúde, da educação, da reforma agrária e assim por diante”, afirmou.
Na leitura de Gilmar, essa pressão não desapareceria com o resultado eleitoral. O dirigente avalia que o país atravessa uma crise do capitalismo que deve se aprofundar nos próximos anos, independentemente de quem esteja no governo. Nesse contexto, ele associa a pressão por ajuste fiscal à atuação do capital financeiro e também à influência dos Estados Unidos sobre os países latino-americanos.
A análise leva Gilmar a considerar que a eleição pode apenas abrir uma janela para uma disputa política mais longa. Para ele, uma eventual vitória do campo democrático não resolveria as contradições acumuladas, mas poderia criar tempo para que organizações populares se reorganizassem.
“Final de um ciclo”
É nesse ponto que aparece outra dimensão de sua análise. Gilmar afirma que o país está chegando ao “final de um ciclo”, mas ressalta que isso não significa uma ruptura automática ou imediata.
“Eu acho que nós estamos chegando ao final de um ciclo. De verdade, mas não é aquela coisa automática, um dia terminou, no outro começa. A dialética não nos diz isso”, afirmou.
O que existe, segundo ele, é um processo de desgaste que pode abrir espaço para diferentes caminhos. “É um processo de desgaste que vem até criarmos as condições para um outro, seja ele para um projeto popular, progressista, seja ele para um projeto de direita. E essa disputa tá em jogo nesse momento histórico e ela vai estar nos próximos quatro anos.”
Para o dirigente, a dificuldade enfrentada pelas organizações populares está justamente em responder a esse novo período. Estruturas construídas em uma etapa anterior, quando o capitalismo ainda permitia a conquista e a ampliação de determinados direitos sociais, já não seriam suficientes para responder às condições atuais.
“As organizações que foram produzidas para aquele tempo histórico, elas não estão dando conta hoje”, disse. Por isso, defende que as organizações populares façam um “salto de qualidade” para enfrentar o próximo período.
A eleição, nesse sentido, seria apenas uma parte de uma disputa que continuará depois da votação. “As organizações desse nosso tempo histórico precisam dar um salto de qualidade”, afirmou.

