A relação construída por deputados federais com prefeituras e bases locais por meio de emendas parlamentares é um dos fatores que ajudam a explicar o crescimento de Flávio Bolsonaro (PL) entre eleitores do Nordeste, na avaliação da historiadora Joana Borges, mestra em sociologia e psicanalista. Em entrevista à transmissão especial do Brasil de Fato sobre o primeiro turno das Eleições 2026, neste domingo (4), ela apontou ainda o peso do eleitorado masculino entre 25 e 45 anos nessa variação.
Para Borges, o Nordeste não está isolado da polarização que se estabeleceu no país, mas a oscilação tem explicações próprias. A principal delas seria o modo como as emendas, sobretudo as da bancada do PL, moldam a política local.
“Um dos mais importantes [elementos é] a relação política que se estabelece a partir das emendas parlamentares dos deputados federais nos seus estados de origem. Isso em todos os estados; aqui no Nordeste não seria diferente”, afirmou.
Segundo ela, esse mecanismo “influencia bastante no modo como a política é feita nos estados e como isso atinge um pouco do eleitorado, especialmente nos médios e pequenos municípios da região Nordeste”.
O recorte de gênero apontado pela historiadora dialoga com a análise de Valério Arcary, que também participou da transmissão. Para ele, parte da resiliência do bolsonarismo vem de uma resistência às mudanças nas relações entre homens e mulheres impulsionadas pela luta feminista. “Há uma reação masculinista”, resumiu.
Lula como referência nas disputas estaduais
Apesar da oscilação, Borges avalia que Lula “continua sendo um fortíssimo cabo eleitoral” na região, a ponto de candidatos de diferentes campos buscarem associar sua imagem à do presidente nas disputas estaduais. Ela citou três corridas acirradas: em Pernambuco, entre Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB); na Bahia, entre Jerônimo Rodrigues (PT) e ACM Neto (União Brasil); e no Ceará, entre Elmano de Freitas (PT) e Ciro Gomes (PSDB).
Nos três casos, segundo a historiadora, o fato de os candidatos serem figuras já estabelecidas, como governadores e ex-prefeitos, acentua a polarização.
O caso cearense, para ela, é exemplar. Ciro Gomes, que foi ministro no primeiro governo Lula, teria evitado vincular sua campanha a Flávio Bolsonaro. “O candidato Ciro Gomes, embora esteja na chapa oficialmente com o Flávio Bolsonaro, tentou manter distância toda a campanha […] e, obviamente, se aproveitou do seu histórico com o presidente Lula”, disse.
Em Pernambuco, Raquel Lyra não se posiciona de nenhum dos lados, e parte do eleitorado lulista deve se dividir entre ela e Campos. Na Bahia, Jerônimo é o candidato de Lula, mas ACM Neto também tem uma base que, segundo Borges, votaria no petista. No Maranhão, Orleans Brandão puxa para si a campanha presidencial de Lula.
“Isso até demonstra como o presidente Lula ainda segue sendo um grande cabo eleitoral, a ponto de alguns candidatos e candidatas preferirem não se aliar a outros para colar a imagem, mesmo que informalmente, a ele”, afirmou.
Senado como ‘centro de energia’ da extrema direita
A historiadora considera que a disputa pelo Senado é, desde antes da pré-campanha, um dos principais focos de investimento da extrema direita. Ela citou pesquisas divulgadas nesta semana que indicam que o PL pode dobrar sua bancada na Casa.
Para Borges, o interesse está ligado à possibilidade de abrir processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Isso reforçaria a narrativa que o bolsonarismo constrói contra a Corte desde o 8 de janeiro, apresentando-a como parte de um “sistema apodrecido”.
“Ainda que Flávio não seja eleito, a entrada massiva deles no Senado garante essa posição de aprofundar uma narrativa que não precisa se encerrar em quatro anos”, avaliou.
Segundo ela, lideranças do PL vêm afirmando, em entrevistas e podcasts, desde 2023 e 2024, que ocupar o Senado seria o grande plano do partido para 2026.
No Ceará, porém, o cenário é mais favorável ao campo governista, segundo a historiadora. Pesquisas divulgadas no sábado (3), com Quaest e Datafolha, mostraram à frente Cid Gomes (PSB) e Luizianne Lins (Rede), ex-prefeita de Fortaleza (CE), que compõem a chapa de Elmano. Do outro lado estão o deputado federal Capitão Wagner (União) e o deputado estadual Alcides Fernandes (PL), pai do deputado federal André Fernandes (PL).
“O Senado é um local que todos nós deveríamos estar muito atentos”, concluiu.

