Em entrevista à programação especial das Eleições 2026 da Rádio Brasil de Fato, o sociólogo Sérgio Amadeu, professor associado da Universidade Federal do ABC (UFABC), avaliou o comportamento da extrema direita nas redes sociais nos últimos dias de campanha e afirmou que o campo bolsonarista reduziu sua exposição no ambiente digital diante de desgastes provocados por escândalos recentes.
Para Amadeu, o recuo estaria relacionado à dificuldade de sustentar, neste momento, um discurso moralista diante de episódios que atingiram figuras ligadas ao bolsonarismo. Ele citou as controvérsias envolvendo o candidato Flávio Bolsonaro, a publicação com a imagem de Nossa Senhora e os episódios relacionados ao empresário Daniel Vorcaro.
“Nos últimos três dias, o bolsonarismo recuou nas redes. Não é que eles pararam, eles estão envergonhados”, avaliou. Segundo o pesquisador, os acontecimentos recentes deixaram o campo sem condições de sustentar a apresentação de seus candidatos como representantes de uma suposta agenda de defesa da moral e dos bons costumes.
“Eles sofreram com a questão de Nossa Senhora, dos últimos escândalos do Vorcaro, de festinhas sexuais, e eles estão sem condições de dizer que têm uma candidatura de homem de bem”, disse.
A avaliação ocorre na reta final do primeiro turno das Eleições 2026, quando as redes sociais se tornaram um dos principais espaços de disputa política. Para Amadeu, porém, a capacidade de intervenção das plataformas no debate eleitoral vai além do conteúdo produzido por candidatos e militantes: envolve também a forma como as próprias empresas decidem quais publicações terão maior alcance.
Plataformas concentram poder sobre o debate público
O pesquisador criticou o controle privado sobre a distribuição de conteúdos nas redes sociais e afirmou que a falta de transparência dos algoritmos dificulta o acompanhamento de como informações e discursos políticos chegam à população.
“Os únicos que controlam a distribuição de conteúdo são eles; é um perigo para qualquer democracia”, afirmou.
Para Amadeu, as grandes empresas de tecnologia ocupam uma posição central na chamada economia da atenção e têm capacidade de determinar quais conteúdos serão vistos por milhões de pessoas, com que frequência e para quais públicos.
“Elas são o maior destino de publicidade no Brasil e no mundo. Uma empresa é capaz de organizar o conteúdo que milhões de pessoas vão ver, organizar a frequência de vezes”, afirmou.
Segundo o sociólogo, esse mecanismo pode contribuir para a percepção de que uma informação falsa é verdadeira ou, no sentido inverso, para que conteúdos verdadeiros tenham sua circulação reduzida.
Regulação entra na agenda após as eleições
Diante desse cenário, Amadeu defendeu que a regulação das plataformas digitais esteja entre as prioridades do Congresso que será eleito neste domingo. Para ele, o debate deve incluir não apenas as regras de funcionamento das redes, mas também o fluxo de recursos financeiros que alimenta a circulação de conteúdos na internet.
“O segundo turno, se ocorrer, vai ser dentro das regras que estão aí. Nós não vamos conseguir regulamentar as plataformas agora, mas eu faço um apelo aos deputados que defendem a democracia: a regularização das plataformas e o controle do dinheiro que cai nesses lugares é fundamental”, afirmou.
Para o pesquisador, a capacidade de o Brasil estabelecer regras próprias para o ambiente digital está relacionada à soberania do país.
“Sem soberania digital, nós não vamos ter democracia”, concluiu.

