Futuro

Extrema direita se consolida como hegemonia e 2º turno exigirá ‘Lula do Velho Testamento’, avaliam analistas

Paulo Roberto de Sousa e Paulo Niccoli Ramirez avaliam que presidente terá de explicitar diferenças com Flávio Bolsonaro

No audio source provided.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o candidato à presidência Flávio Bolsonaro.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) | Crédito: Mauro Pimentel e Sérgio Lima/AFP

A extrema direita se consolidou como força política hegemônica no Brasil e o segundo turno exigirá uma mudança de estratégia da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na avaliação dos cientistas políticos Paulo Roberto de Sousa e Paulo Niccoli Ramirez. Ao Brasil de Fato, ambos afirmaram que, diante do avanço da extrema direita no Congresso e da vantagem de Flávio Bolsonaro na votação presidencial, o petista terá de explicitar o antagonismo entre os projetos e apresentar uma perspectiva de futuro ao eleitorado.

“Na Câmara, a extrema direita conseguiu tirar um conforto do centrão. No Senado, há 30 cadeiras do PL. A extrema direita é a grande vencedora e se consolida como grande hegemonia do Brasil”, afirmou Sousa.

O cientista político também concluiu que “temos um país conservador”, mas que há nuances entre o eleitorado. “Não é o pacote inteiro. As pessoas que votaram no Flávio não concordam com tudo, mas concordam com questões de sexualidade, questões morais, acreditam que programas sociais criam ‘vagabundos’ e numa força autocentrada de ver o mundo. Isso venceu no Brasil”, disse.

Diante desse cenário, Sousa acredita que a campanha do segundo turno “tem que ser uma campanha de enfrentamento direto, nos seus princípios de antagonismo e de diferença significativa”.

Niccoli foi na mesma direção ao avaliar que Lula precisará adotar uma postura mais contundente no segundo turno. “É preciso que haja uma candidatura de segundo turno agressiva, assim como sempre foi a candidatura de Flávio Bolsonaro”, afirmou o cientista político.

Com 98,97% das urnas apuradas pelo TSE, Lula e Flávio Bolsonaro foram os mais votados com 44,94% e 47,22%, respectivamente, e deverão disputar o 2º turno das eleições, previsto para o dia 25 de outubro.

Congresso muda cenário

A análise dos dois cientistas políticos também leva em conta o avanço da extrema direita nas eleições para o Congresso Nacional. Durante a transmissão, Sousa chamou atenção para o crescimento do PL e para a possibilidade de uma bancada ainda mais alinhada ao bolsonarismo na Câmara dos Deputados e no Senado.

Segundo os dados parciais apresentados durante o programa, o PL chegava a 123 deputados eleitos, enquanto a União Progressista aparecia com 86 e a federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, com 85. No Senado, a projeção apresentada apontava o PL com 30 cadeiras, ante 9 do PT.

Os números ainda estavam sujeitos a alteração durante a apuração. Para o analista, porém, a tendência já indicava uma correlação de forças mais difícil para Lula caso a eleição presidencial fosse para o segundo turno.

Ele avaliou que o cenário reduz o espaço para imaginar o centrão como um bloco independente capaz de funcionar como fiel da balança entre governo e oposição. Partidos como União Progressista e Republicanos, afirmou, tendem a formar uma maioria significativa junto ao PL.

“Uma coisa é quando a gente tinha uma expectativa ainda de um centrão inflado, um centrão que, de certo modo, era o fiel da balança”, disse. “Agora, óbvio que ainda dentro do nosso contexto de presidencialismo de coalizão pluripartidário, bem ainda fragmentado, o PL não consegue uma maioria absoluta, mas ele consegue uma maioria significativa.”

Na leitura de Paulo Roberto, o resultado aumenta a dificuldade de governabilidade para Lula e torna ainda mais importante que a campanha presidencial explicite as diferenças entre os projetos colocados em votação.

Escala 6×1 pode abrir primeiro embate

O cientista político também apontou a votação da proposta de redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6×1 como um dos primeiros testes da nova etapa eleitoral.

A proposta poderia ser pautada no Senado na terça-feira, segundo compromisso mencionado durante a transmissão pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Para Paulo Roberto, caso a votação ocorra, ela poderá criar um constrangimento para partidos alinhados a Flávio Bolsonaro que eventualmente votem contra a medida.

Ao mesmo tempo, avaliou, uma eventual derrota da proposta poderia ser utilizada pela oposição para reforçar a narrativa de que Lula perdeu capacidade de governabilidade.

“O dia a dia começa com segunda-feira de manhã, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro tendo que conversar com o presidente do Senado”, afirmou. Para ele, a votação da 6×1 pode ser um dos primeiros episódios capazes de mostrar como funcionará a correlação de forças no segundo turno.

‘Lula do Velho Testamento’

Niccoli considera que a mudança necessária na campanha passa por uma alteração mais profunda do discurso. Durante a transmissão, ele retomou a ideia de que Lula precisaria ser uma versão mais radicalizada de si próprio, que chamou de “Lula do Velho Testamento”.

“Se o PT não partir para a radicalidade vai perder a eleição, e feio. É preciso colocar essas questões em pauta. É preciso que haja uma candidatura de segundo turno agressiva, como foi a de Flávio Bolsonaro”, disse.

Na avaliação do cientista político, a campanha deveria explicitar o que está em jogo na eleição e caracterizar o projeto de Flávio Bolsonaro como parte da extrema direita. Ele também defendeu que o campo progressista construa uma frente ampla contra esse projeto.

“A candidatura de Flávio Bolsonaro é uma candidatura fascista. É preciso formar uma frente única. Há riscos para a civilização. O fascismo é um retrocesso, e o Lula precisa partir para esse discurso”, afirmou.

Niccoli relacionou essa leitura a temas como democracia, soberania nacional e política econômica. Também mencionou as relações de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master, além da proximidade entre a família Bolsonaro e o governo de Donald Trump.

“Porque o objetivo de Flávio Bolsonaro é ser eleito para ter imunidade no caso Vorcaro. Se Flávio for eleito ele não dura um ano na presidência. Mesmo que ele tente barrar as investigações com a PF”, ponderou.

Para o cientista político, o objetivo de Flávio é “entregar as riquezas do Brasil para os EUA”.

“É preciso lembrar quem é o governo Trump, aliado da família Bolsonaro. Trump age contra os direitos humanos, contra migrantes, contra outras nações, como a Venezuela e o Irã. […] Se Flávio for eleito, o Brasil sequer foi colocado à venda, ele simplesmente será doado aos Estados Unidos”, afirmou.

Editado por: Lucas Estanislau

|

Newsletter