Ficou de fora

Após ser acusado de forçar companheira a abortar, Guto Zacarias não consegue se eleger em São Paulo

O caso foi revelado pelo Brasil de Fato em abril deste ano e fez o parlamentar despencar de 152 mil para 41 mil votos

No audio source provided.

O deputado Guto Zacarias é ligado ao MBL
O deputado Guto Zacarias é ligado ao MBL | Crédito: Alesp

Em 2022, Guto Zacarias (Missão-SP) foi eleito deputado estadual com 152.481 votos. Agora, em 2026, perdeu a eleição para deputado federal e teve 41.423. Entre uma corrida eleitoral e outra, o parlamentar foi acusado de ter coagido sua ex-companheira (que terá seu nome ocultado na matéria) a abortar um filho do casal.

O caso, revelado pelo Brasil de Fato em abril deste ano, teria acontecido no primeiro semestre de 2024. A informação consta em uma denúncia oferecida pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), no dia 17 de julho de 2025, contra o parlamentar por violência psicológica contra a mulher no âmbito da Lei Maria da Penha.

Na época da denúncia, o parlamentar já era filiado ao Missão, partido fundado pelo Movimento Brasil Livre (MBL). Antes do caso, a sigla tinha a esperança de que Guto Zacarias fosse um dos puxadores de voto, ao lado do deputado federal Kim Kataguiri (Missão-SP), ajudando para que o partido conseguisse extrapolar a cláusula de barreira.

Kim Kataguiri conseguiu sair das urnas com 520.071 votos. No entanto, Guto Zacarias não teve votos suficientes para se eleger, e o Missão enfrentará a próxima legislatura com apenas um deputado federal eleito em todo o território nacional.

Entenda

O Brasil de Fato teve acesso ao processo, que corre em segredo de Justiça, e ao Boletim de Ocorrência protocolado pela ex-companheira, no dia 12 de fevereiro de 2025, contra Zacarias por violência psicológica.

De acordo com a denúncia, o deputado, que teve uma relação amorosa com a vítima entre 2021 e abril de 2024, teria, inclusive, sugerido clínicas clandestinas para a jovem realizar o aborto. Zacarias é pré-candidato a deputado federal por São Paulo e faz uso de um discurso conservador em suas plataformas. Na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), ele já foi vice-líder do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Na denúncia, o Ministério Público afirma que Zacarias teria tentado controlar as ações da jovem por meio de “manipulação, chantagem emocional e constrangimentos reiterados, inclusive durante o estado gestacional da vítima”.

Trechos da denúncia apontam que a ex-companheira de Zacarias passou a enfrentar crises durante a gestação após as ameaças do denunciado. Segundo o documento, “a vítima sofreu com episódios de pânico, insônia, sensação de perseguição e medo constante de que o denunciado pudesse invadir sua residência para forçá-la a interromper a gestação”. O texto também afirma que “a violência psicológica praticada por AUGUSTO foi constante e devastadora”, e que a mulher vivia sob tensão. De acordo com a denúncia, o acusado teria atuado para intimidar e controlar a vítima, provocando abalo emocional.

Em um dos depoimentos à polícia, a vítima chega a afirmar que Zacarias teria sugerido, além de clínicas, outros caminhos para realizar o aborto. “Durante toda a gestação, [houve] essas conversas dele tentando me convencer a não ter [o bebê], a interromper a gravidez”, disse a vítima. “Ele sugeriu que eu tomasse um comprimido e ai eu fiquei com muito medo porque eu falei: ‘Eu não vou tomar nenhum comprimido’ porque acho que eu não queria.” Em outro momento, Zacarias teria sugerido o método de “sucção”.

Ao registrar o Boletim de Ocorrência, a vítima pediu medidas protetivas. Ela relata que, durante a gravidez, passou a temer pela própria vida diante de ameaças frequentes. Em alguns momentos, acordava durante a madrugada com medo de que ele invadisse a casa. O documento ainda indica que houve abandono financeiro durante a gestação, sem apoio à vítima e ao bebê que nasceu no início do ano passado. Diante das ameaças, da pressão psicológica e da ausência de suporte, a vítima solicitou medidas protetivas de urgência por temer por sua integridade e pela segurança da filha.

Outro lado

Na época, a ex-companheira de Guto, em contato com a reportagem, saiu em defesa do deputado estadual. “Guto jamais tentou me forçar a nada. Houve uma briga, houve instabilidade, atravessamos um período difícil e, orientada por um advogado, com quem hoje já não atuo, agi por impulso”, disse. “O que prevaleceu foi o amor e a proteção à nossa filha”, afirmou. A jovem concluiu dizendo que o parlamentar é “um grande pai” e que sua “filha tem uma mãe presente, amorosa e determinada a defender a dignidade e o futuro dela contra qualquer tentativa de destruição”.

Dias após a publicação da denúncia, Guto Zacarias foi às redes sociais se defender. “Eu já pedi perdão para a família da Giovana e já pedi perdão para a Giovana também, porque eu me envergonho”, declarou. O parlamentar também afirmou que o aborto foi um “pensamento pecador” e uma “hipótese absurda”, que teria passado poucas horas depois, “graças a Deus”.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter