Ainda que a eleição presidencial vá para o segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o pleito deste domingo (4) consolida o crescimento da extrema direita no Brasil.
O cientista político Mateus de Albuquerque avalia que o país nunca teve forte identificação partidária, mas, sim, com determinadas figuras políticas, e dá como exemplo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, eleito duas vezes em primeiro turno. “As pessoas não tinham identificação necessariamente com o PSDB ou o PFL. O PR trazia essa identificação e foi, por muitos anos, o maior partido do país”, pontua. Nesse sentido, Albuquerque defende que “talvez estejamos testemunhando a formação de um novo partido orgânico, que é o PL”, lugar que o PT ocupou por décadas. “O PL tem uma identificação partidária e uma base social e orgânica sólida”, afirma.
Para ele, o grande derrotado da eleição foi o Centrão. “O centro político foi esvaziado nessas eleições, porque o PL conseguiu vitórias nominais e não necessariamente de aliados do Bolsonaro. Ele cresceu enquanto partido, enquanto sigla, e isso representa um avanço muito profundo, porque antes a direita no Brasil não tinha uma estrutura partidária com elo social orgânico”, avalia, ao reforçar que, portanto, neste momento o Brasil tem dois partidos com base social orgânica de espectros políticos totalmente diferentes: PT e PL.
Sobre o questionamento com relação às pesquisas indicarem tendência divergente do que foi visto nas urnas, com Flávio terminando o primeiro turno, ainda que com margem pequena, em primeiro lugar, Mateus de Albuquerque lembra que, em 2022, a votação para Jair Bolsonaro também foi subestimada. “O que dá essa inversão é provavelmente a incapacidade de pegar esse voto constrangido em Flávio Bolsonaro. Muita denúncia, muitas marcações negativas em Flávio ao longo da campanha, mas parece que parte do eleitor se constrange diante desses marcadores a ponto de não se manifestar publicamente, mas não a ponto de não votar nele, por achar menos pior que o PT”, pondera. Ainda na noite de domingo, após o término da apuração, inclusive, a própria campanha de Flávio já adiantou que a estratégia central dessas próximas semanas é reforçar o antipetismo.
“A aposta de 2022 do PT foi pelo sistema político, de representar a normalidade contra a anormalidade, que seria Bolsonaro. Não deu certo no longo prazo. Embora a família Bolsonaro esteja assentada na política há tantos anos, eles conseguem capturar essa representação de mudança”, afirma.
Para o professor, “o caminho é o de disputar a mudança e existe esse horizonte. Há uma gestão das desesperanças” a ser encarada.
Sul: reduto bolsonarista?
O desempenho da extrema direita no Sul do país consolida uma tendência bastante evidenciada em 2022, de acordo com o cientista político Benedito Tadeu César. Para os governos estaduais, em Santa Catarina, Jorginho Melo (PL) foi reeleito; no Paraná, Sérgio Moro (PL) venceu e, no Rio Grande do Sul, Zucco (PL), desbancou Juliana Brizola (PDT). A região também fez importantes dobradinhas para o Senado.
“Em Santa Catarina, já eram favas contadas. No Paraná, havia alguma possibilidade de segundo turno entre Moro e Requião Filho, mas não aconteceu. No Rio Grande do Sul é que houve surpresa. Óbvio que há uma onda marrom no mundo todo. Aqui na América do Sul, apenas Brasil e Uruguai resistem. O que aconteceu aqui no RS passa por feridas não cicatrizadas entre PT, PDT e Psol. E uma campanha equivocada, que deixou o candidato de extrema direita correndo solto”, avalia. Por essa razão, César avalia que não se trata de uma onda bolsonarista no Rio Grande do Sul. “Foi o voto conservador do interior que não foi bem trabalhado [pela campanha de esquerda]. Em Porto Alegre, Lula e Juliana teriam ganhado”, aponta.
Na avaliação do analista político, as chuvas no Rio Grande do Sul e o que foi feito diante da tragédia foram pouco capitalizadas pelos partidos da Frente Popular, e isso inclui o PT. “Você deixa o adversário ter a narrativa e não consegue ter a sua narrativa própria, ou não consegue ser convincente. Não conseguiram mostrar o que vinha sendo feito no estado”, avalia. “O Lula sempre foi maior que o PT no Rio Grande do Sul.”
Aparte as rusgas presentes no Rio Grande do Sul entre os partidos de esquerda, Benedito Tadeu César reforça que a candidata ao governo, Juliana Brizola, desprezou o capital político do avô. “Havia o legado do Brizola, que sempre foi muito forte no RS, sendo que em 1989 ele teve 60% de votos. No segundo turno, esses votos migraram totalmente para Lula. Juliana Brizola não soube trabalhar esse legado junto ao eleitorado. Outra questão é que o terceiro mandato de Lula trabalhou mal um projeto de Brasil. Não basta ter esperança. É preciso mostrar para o jovem e para o eleitor de classe média que existe um projeto e que ele tem possibilidade de crescimento”, pontua.
O cientista político Mateus de Albuquerque comenta a composição do Congresso, que, no Sul do país, conseguiu derrotar as candidaturas progressistas, fazendo com que nomes importantes, como Manuela D’Ávila, não conseguissem chegar ao Senado.
Albuquerque aponta que houve dobradinhas do PL que conseguiram promover a transferência de votos perfeita, ou seja, sem titubear o eleitor escolheu as duas opções do PL para o Senado. “A transferência perfeita é um sinal de máquina partidária azeitada. Valdemar da Costa Neto fez uma aposta e venceu a aposta. Não é mais sobre um bolsonarismo difuso, mas é o PL que se tornou um partido enraizado”, avalia.
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