REAÇÕES

Eleição no Brasil expõe disputa geopolítica e ingerência dos Estados Unidos na América Latina

Avanço de Bolsonaro no primeiro turno gera euforia em governos conservadores da região e alerta governos progressistas

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Da esquerda para a direita: Gustavo Petro (ex-presidente da Colômbia), Claudia Sheinbaum (presidenta do México), Abelardo de la Espriella (presidente da Colômbia) e Javier Milei (presidente da Argentina).
Da esquerda para a direita: Gustavo Petro (ex-presidente da Colômbia), Claudia Sheinbaum (presidenta do México), Abelardo de la Espriella (presidente da Colômbia) e Javier Milei (presidente da Argentina). | Crédito: Raul Arboleda-Yuri Cortez-Nelson Almeida/AFP

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, que levou o senador ultraconservador Flávio Bolsonaro (PL) e o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao segundo turno, marcado para 25 de outubro, repercutiu de forma imediata em toda a América Latina. 

O pleito brasileiro, no qual Flávio Bolsonaro alcançou 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, tornou-se o epicentro de uma disputa geopolítica regional que expõe o alinhamento de lideranças da extrema direita com a agenda de Washington. Por outro lado, a resistência de governos do campo progressista em defesa da soberania continental.

As lideranças do campo progressista latino-americano reagiram com cautela e firmeza, denunciando os riscos de retrocesso social e de submissão aos interesses estadunidenses. A presidenta do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que o principal aliado do seu governo é o próprio povo mexicano e destacou que é necessário aguardar o resultado final do segundo turno antes de emitir qualquer parecer definitivo sobre a geopolítica regional. 

Ao ser questionada se a eventual vitória de Flávio Bolsonaro significaria que o governo mexicano ficaria sem aliados na América Latina, a presidenta mexicana minimizou possíveis atritos com o ultraconservador. 

“Nosso principal aliado é o povo do México; enquanto estivermos próximos do povo, representando o povo e governando pelo povo e para o povo, não haverá problema algum”, declarou Sheinbaum durante a coletiva de imprensa que realiza diariamente. Por outro lado, a líder mexicana afirmou que só emitirá opiniões sobre os resultados após o fim do processo eleitoral.

“É preciso esperar o segundo turno e, uma vez que termine todo o processo, podemos dar uma opinião”, disse a presidenta. 

Já o ex-presidente colombiano Gustavo Petro criticou abertamente os discursos das direitas locais e denunciou a ingerência exercida pelo governo de Donald Trump na América Latina. Petro enfatizou que os breves períodos de governos progressistas e humanistas foram os únicos capazes de reduzir a histórica desigualdade social da região, apontando que a estratégia de Washington busca destruir projetos soberanos e promover a instabilidade política.

“O presidente Donald Trump decidiu aceitar a proposta de Marco Rubio e priorizar, em detrimento da agenda de combate ao narcotráfico, uma agenda de destruição do progressismo; vale lembrar que as ideias progressistas estão na origem de todas as repúblicas americanas, inclusive a dos EUA”, escreveu Petro.

“A consequência da política de Donald Trump será o aumento da desigualdade social e econômica, bem como o crescimento do narcotráfico, da violência e da migração em direção ao norte. Aos povos da América Latina, cujas eleições foram fraudadas pela interferência direta de um governo estrangeiro, não resta outra alternativa senão a rebelião”, defendeu o ex-presidente da Colômbia.

Os aliados de Trump e Rubio

Do lado das forças conservadoras e da extrema direita, a votação foi recebida com clima de euforia e celebração. O presidente da Argentina, Javier Milei, usou as redes sociais para comemorar os resultados da direita no Brasil, classificando a eleição como histórica e chamando Lula de “esquerdista comunista”. Milei voltou a exaltar o lema do movimento ultraconservador dos Estados Unidos ao citar a sigla MAGA, abreviação do lema do trumpismo nos Estados Unidos: “Make America Great Again” (“Torne a América Grande Novamente”, em português). 

“Um esquerdista comunista perde para alguém de direita e os mercados comemoram com fortes altas…

Esquerdistas empobrecedores, saiam da frente, pois estamos tentando dar brilho ao continente”, escreveu Milei.

Em outra publicação, o presidente argentino parabenizou diretamente o candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, e afirmou que “a liberdade avança no Brasil”. 

“Parabéns, querido amigo Flávio Bolsonaro, por esta eleição histórica contra o comunista Lula”, publicou Milei, que enfrenta uma das piores crises de popularidade, diante do aumento vertiginoso da pobreza entre a população argentina.

No mesmo tom, o presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, afirmou que o verdadeiro sentido de mudança está em derrotar a esquerda, manifestando apoio público ao candidato bolsonarista. 

“Hoje meu coração está com o Brasil; que Deus tenha misericórdia do país irmão, assim como teve com a Colômbia. A verdadeira mudança é derrotar a esquerda”, escreveu Espriella. “Um grande abraço, amigo Flávio Bolsonaro. Firme pela Pátria!”, publicou o presidente colombiano, que termina a publicação com uma saudação ao “Cristo Rei”. 

A líder opositora venezuelana María Corina Machado também comemorou o resultado da jornada eleitoral, associando o desempenho de Flávio Bolsonaro à tentativa de derrotar o comunismo na região. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, juntou-se às felicitações e expressou desejo de restaurar laços diplomáticos prioritários com o Brasil sob um eventual governo da direita.

“Meu respeito e carinho ao povo do Brasil por uma jornada democrática exemplar, na qual puderam exercer com orgulho a soberania popular por meio do voto. Meu reconhecimento a Flávio Bolsonaro, vencedor deste primeiro turno”, publicou a líder da extrema direita venezuelana. 

“Nós, latino-americanos, queremos viver com liberdade, democracia, prosperidade e justiça, e o Brasil tem um peso decisivo no futuro da nossa região”, disse Machado. Na postagem, a política venezuelana disse que “muito em breve, a Venezuela também avançará no caminho da liberdade”.

Intervenção explícita

As reações de ambos os blocos ocorrem em um cenário marcado pela intensificação da ingerência de Washington sobre a América Latina, consolidada pela estratégia do governo de Donald Trump conhecida como Escudo das Américas. O histórico recente da região acumula episódios de pressão econômica, sanções e operações desinformativas. 

Na Colômbia, a eleição de Abelardo de la Espriella foi cercada por denúncias do uso massivo de inteligência artificial, fazendas de robôs digitais e apoio explícito da Casa Branca e do secretário de Estado Marco Rubio. Na Argentina, o apoio financeiro de 20 bilhões de dólares em swap cambial foi abertamente condicionado ao sucesso eleitoral de Javier Milei. Em Honduras, o escândalo conhecido como Hondurasgate revelou negociações e o indulto concedido por Trump ao ex-presidente Juan Orlando Hernández para reorganizar as forças conservadoras locais.

Brasil na mira do império

No caso brasileiro, os alertas de intervenção estrangeira deixaram o campo das suspeitas e se tornaram objeto de investigações formais. A Polícia Federal abriu uma apuração preliminar sobre a possível ingerência dos Estados Unidos no processo eleitoral de 2026. 

O procedimento foi instaurado após representação da Advocacia-Geral da União (AGU), motivada por revelações de que um fundo do Departamento de Estado estadunidense destinou US$ 1 milhão para financiar grupos dedicados a atacar o Supremo Tribunal Federal e minar as instituições democráticas. 

Paralelamente, a campanha de Lula acionou o Tribunal Superior Eleitoral para investigar a decisão unilateral da embaixada dos EUA de suspender serviços consulares no Brasil às vésperas da votação, sob a alegação de ameaças de segurança que não foram confirmadas pelas buscas da Polícia Federal. 

Historiadores e relatórios de inteligência indicam que as ações de Washington tentam criar um ambiente de caos e instabilidade, enxergando no papel liderante de Lula um obstáculo para os planos de dominação neocolonial e controle dos recursos estratégicos no Hemisfério Ocidental.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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