O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, que levou o senador ultraconservador Flávio Bolsonaro (PL) e o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao segundo turno, marcado para 25 de outubro, repercutiu de forma imediata em toda a América Latina.
O pleito brasileiro, no qual Flávio Bolsonaro alcançou 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, tornou-se o epicentro de uma disputa geopolítica regional que expõe o alinhamento de lideranças da extrema direita com a agenda de Washington. Por outro lado, a resistência de governos do campo progressista em defesa da soberania continental.
As lideranças do campo progressista latino-americano reagiram com cautela e firmeza, denunciando os riscos de retrocesso social e de submissão aos interesses estadunidenses. A presidenta do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que o principal aliado do seu governo é o próprio povo mexicano e destacou que é necessário aguardar o resultado final do segundo turno antes de emitir qualquer parecer definitivo sobre a geopolítica regional.
Ao ser questionada se a eventual vitória de Flávio Bolsonaro significaria que o governo mexicano ficaria sem aliados na América Latina, a presidenta mexicana minimizou possíveis atritos com o ultraconservador.
“Nosso principal aliado é o povo do México; enquanto estivermos próximos do povo, representando o povo e governando pelo povo e para o povo, não haverá problema algum”, declarou Sheinbaum durante a coletiva de imprensa que realiza diariamente. Por outro lado, a líder mexicana afirmou que só emitirá opiniões sobre os resultados após o fim do processo eleitoral.
“É preciso esperar o segundo turno e, uma vez que termine todo o processo, podemos dar uma opinião”, disse a presidenta.
Já o ex-presidente colombiano Gustavo Petro criticou abertamente os discursos das direitas locais e denunciou a ingerência exercida pelo governo de Donald Trump na América Latina. Petro enfatizou que os breves períodos de governos progressistas e humanistas foram os únicos capazes de reduzir a histórica desigualdade social da região, apontando que a estratégia de Washington busca destruir projetos soberanos e promover a instabilidade política.
“O presidente Donald Trump decidiu aceitar a proposta de Marco Rubio e priorizar, em detrimento da agenda de combate ao narcotráfico, uma agenda de destruição do progressismo; vale lembrar que as ideias progressistas estão na origem de todas as repúblicas americanas, inclusive a dos EUA”, escreveu Petro.
“A consequência da política de Donald Trump será o aumento da desigualdade social e econômica, bem como o crescimento do narcotráfico, da violência e da migração em direção ao norte. Aos povos da América Latina, cujas eleições foram fraudadas pela interferência direta de um governo estrangeiro, não resta outra alternativa senão a rebelião”, defendeu o ex-presidente da Colômbia.
Llevan dos siglos gobernando a latinoamérica y ahora se les ocurre que el cambio es que el breve periodo que ha gobernado el progreismo y el humanismo en la historia latinoamericana debe ser cambiado.
— Gustavo Petro (@petrogustavo) October 5, 2026
Es la simple contradicción de Donald Trump y su gobierno que sus títeres en… https://t.co/BfzwpPnltS
Os aliados de Trump e Rubio
Do lado das forças conservadoras e da extrema direita, a votação foi recebida com clima de euforia e celebração. O presidente da Argentina, Javier Milei, usou as redes sociais para comemorar os resultados da direita no Brasil, classificando a eleição como histórica e chamando Lula de “esquerdista comunista”. Milei voltou a exaltar o lema do movimento ultraconservador dos Estados Unidos ao citar a sigla MAGA, abreviação do lema do trumpismo nos Estados Unidos: “Make America Great Again” (“Torne a América Grande Novamente”, em português).
“Um esquerdista comunista perde para alguém de direita e os mercados comemoram com fortes altas…
Esquerdistas empobrecedores, saiam da frente, pois estamos tentando dar brilho ao continente”, escreveu Milei.
DE MANUAL…!!!
— Javier Milei (@JMilei) October 5, 2026
Pierde un zurdo comunista a manos de alguien de derecha y los mercados lo festejan con grandes subas…
Zurdos empobrecedores córranse del medio que estamos intentando darle brillo al continente.
MAGA! https://t.co/u1ByWkHbfz
Em outra publicação, o presidente argentino parabenizou diretamente o candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, e afirmou que “a liberdade avança no Brasil”.
“Parabéns, querido amigo Flávio Bolsonaro, por esta eleição histórica contra o comunista Lula”, publicou Milei, que enfrenta uma das piores crises de popularidade, diante do aumento vertiginoso da pobreza entre a população argentina.
LA LIBERTAD AVANZA EN BRASIL
— Javier Milei (@JMilei) October 5, 2026
Felicitaciones querido amigo @FlavioBolsonaro, por esta histórica elección ante el comunista de Lula.
El continente americano es de ciudadanos que quieren vivir en libertad.
Espero que pronto podamos empezar a trabajar juntos para que la Argentina… pic.twitter.com/JvnpGg7uiu
No mesmo tom, o presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, afirmou que o verdadeiro sentido de mudança está em derrotar a esquerda, manifestando apoio público ao candidato bolsonarista.
“Hoje meu coração está com o Brasil; que Deus tenha misericórdia do país irmão, assim como teve com a Colômbia. A verdadeira mudança é derrotar a esquerda”, escreveu Espriella. “Um grande abraço, amigo Flávio Bolsonaro. Firme pela Pátria!”, publicou o presidente colombiano, que termina a publicação com uma saudação ao “Cristo Rei”.
Hoy mi corazón está con Brasil, que Dios se apiade del hermano país como lo hizo con Colombia. El verdadero cambio es derrotar a la izquierda. 🇧🇷
— Abelardo De La Espriella (@ABDELAESPRIELLA) October 4, 2026
Um grande abraço, amigo @FlavioBolsonaro
¡Firme por la Patria!
¡Que viva Cristo Rey!
(A.D.L.E) 🇨🇴 🐅
A líder opositora venezuelana María Corina Machado também comemorou o resultado da jornada eleitoral, associando o desempenho de Flávio Bolsonaro à tentativa de derrotar o comunismo na região. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, juntou-se às felicitações e expressou desejo de restaurar laços diplomáticos prioritários com o Brasil sob um eventual governo da direita.
“Meu respeito e carinho ao povo do Brasil por uma jornada democrática exemplar, na qual puderam exercer com orgulho a soberania popular por meio do voto. Meu reconhecimento a Flávio Bolsonaro, vencedor deste primeiro turno”, publicou a líder da extrema direita venezuelana.
“Nós, latino-americanos, queremos viver com liberdade, democracia, prosperidade e justiça, e o Brasil tem um peso decisivo no futuro da nossa região”, disse Machado. Na postagem, a política venezuelana disse que “muito em breve, a Venezuela também avançará no caminho da liberdade”.
Mi respeto y cariño al pueblo de Brasil por una jornada democrática ejemplar en la que pudieron ejercer con orgullo la soberanía popular a través del voto.
— María Corina Machado (@MariaCorinaYA) October 5, 2026
Mi reconocimiento a @FlavioBolsonaro, ganador de esta primera vuelta.
Los latinoamericanos queremos vivir con libertad,…
Intervenção explícita
As reações de ambos os blocos ocorrem em um cenário marcado pela intensificação da ingerência de Washington sobre a América Latina, consolidada pela estratégia do governo de Donald Trump conhecida como Escudo das Américas. O histórico recente da região acumula episódios de pressão econômica, sanções e operações desinformativas.
Na Colômbia, a eleição de Abelardo de la Espriella foi cercada por denúncias do uso massivo de inteligência artificial, fazendas de robôs digitais e apoio explícito da Casa Branca e do secretário de Estado Marco Rubio. Na Argentina, o apoio financeiro de 20 bilhões de dólares em swap cambial foi abertamente condicionado ao sucesso eleitoral de Javier Milei. Em Honduras, o escândalo conhecido como Hondurasgate revelou negociações e o indulto concedido por Trump ao ex-presidente Juan Orlando Hernández para reorganizar as forças conservadoras locais.
Brasil na mira do império
No caso brasileiro, os alertas de intervenção estrangeira deixaram o campo das suspeitas e se tornaram objeto de investigações formais. A Polícia Federal abriu uma apuração preliminar sobre a possível ingerência dos Estados Unidos no processo eleitoral de 2026.
O procedimento foi instaurado após representação da Advocacia-Geral da União (AGU), motivada por revelações de que um fundo do Departamento de Estado estadunidense destinou US$ 1 milhão para financiar grupos dedicados a atacar o Supremo Tribunal Federal e minar as instituições democráticas.
Paralelamente, a campanha de Lula acionou o Tribunal Superior Eleitoral para investigar a decisão unilateral da embaixada dos EUA de suspender serviços consulares no Brasil às vésperas da votação, sob a alegação de ameaças de segurança que não foram confirmadas pelas buscas da Polícia Federal.
Historiadores e relatórios de inteligência indicam que as ações de Washington tentam criar um ambiente de caos e instabilidade, enxergando no papel liderante de Lula um obstáculo para os planos de dominação neocolonial e controle dos recursos estratégicos no Hemisfério Ocidental.

