Reação internacional

Rússia adota cautela sobre eleições brasileiras, mas monitora futuro do Brics, diz analista

Questionado sobre o impacto das eleições para Moscou, porta-voz do Kremlin evitou comentários antes do fim do pleito

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Lula e Putin, durante visita do brasileiro a Moscou, em maio de 2025.
Lula e Putin, durante visita do brasileiro a Moscou, em maio de 2025. | Crédito: Maxim Shemetov/Pool/AFP

Após o resultado do primeiro turno das eleições no Brasil, a Rússia monitora com cautela o processo eleitoral brasileiro, evitando maiores comentários. Durante coletiva de imprensa nesta segunda-feira (6), o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, se limitou a dizer que é preciso esperar o fim das eleições com a conclusão do segundo turno.

Ao ser questionado por uma repórter do jornal russo Kommersant sobre a inclinação favorável aos EUA por parte do candidato Flávio Bolsonaro, o porta-voz do Kremlin lembrou que as eleições ainda estão em andamento e só após a conclusão do pleito Moscou fará suas avaliações.

“As eleições estão em andamento. O processo eleitoral no Brasil não terminou. Vamos esperar os resultados e então fazer nossas avaliações”, disse Dmitry Peskov.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o especialista em América Latina e professor de Relações Internacionais da Universidade de São Petersburgo, Victor Jeifets, avalia que a cautela de Moscou diante das eleições brasileiras está relacionada à percepção de que uma eventual mudança de governo poderia alterar a posição do Brasil em temas estratégicos, especialmente em relação aos Estados Unidos, ao Brics e à agenda de construção de um mundo multipolar.

Ao mesmo tempo, segundo ele, o governo russo considera que os interesses econômicos e comerciais entre os dois países funcionam como um importante limite para mudanças mais profundas. Para ilustrar seu argumento, a analista usa como comparação o tom pragmático adotado pelo Kremlin durante disputas presidenciais brasileiras anteriores.

“As condições são um pouco diferentes agora, porque Trump não estava presente naquela época. Agora temos Trump e uma nova estratégia de segurança nacional [da Casa Branca]. Por um lado, isso significa que haverá mais pressão dos EUA sobre o Brasil”, afirma.

Os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) irão disputar o segundo turno da eleição para presidente da República em 25 de outubro. O senador de extrema direita terminou a apuração em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, o equivalente a 56.103.033 votos. Lula ficou em segundo, com 45,16%, com 53.870.724 votos.

Papel do Brasil no Brics

Para Victor Jeifets, a influência dos Estados Unidos sobre a política brasileira é um dos fatores que Moscou acompanha com atenção, considerando os impactos geopolíticos de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro.

Um dos pontos de atenção para Moscou é o futuro papel do Brasil no Brics e, de forma mais ampla, sua participação na construção de uma ordem internacional multipolar. Jeifets afirma que uma mudança na orientação da política externa brasileira poderia reduzir o peso político de Brasília dentro do bloco, sobretudo em debates relacionados à multipolaridade e ao Sul Global. Ainda assim, segundo ele, a dimensão econômica do Brics e os interesses comerciais brasileiros tendem a preservar a participação do país.

Para Jeifets, a postura cautelosa russa neste momento também está relacionada a uma tradição de não interferência direta nos processos eleitorais latino-americanos. O especialista afirma que Moscou parte do princípio de que precisa manter canais de diálogo com diferentes governos brasileiros, mesmo quando existem divergências políticas. Nesse sentido, a cautela manifestada pelo Kremlin após o primeiro turno seria menos sinal de indiferença do que uma tentativa de preservar margem de negociação diante de qualquer resultado.

“A Rússia sempre tentou evitar interferir nas eleições latino-americanas. Nunca vi nenhum fato concreto ou evidência de interferência russa em eleições importantes. As autoridades russas presumem que podem chegar a um acordo com qualquer presidente brasileiro”, completa.

Editado por: Geisa Marques

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