Letalidade nas urnas

Eleição de responsáveis pela chacina da Penha confirma ‘policialização da política’ no Rio de Janeiro

Ex-secretários do governo Cláudio Castro tiveram mais de 180 mil votos para a Câmara dos Deputados e Alerj

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A chacina ocorreu em 28 de outubro na cidade do Rio de Janeiro, nos morros da Penha e do Alemão
A chacina ocorreu em 28 de outubro na cidade do Rio de Janeiro, nos morros da Penha e do Alemão | Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O resultado eleitoral no Rio de Janeiro, no último domingo (4), seguiu um rastro macabro da chacina dos complexos da Penha e do Alemão. Os dois responsáveis pela operação policial mais letal da história vão compor a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa (Alerj) por partidos de extrema direita.

Os ex-secretários de Polícia Civil e da Polícia Militar do governo Cláudio Castro (PL), Felipe Curi (PP) e Marcelo de Menezes (PL), foram eleitos deputado federal e deputado estadual, respectivamente. A chamada Operação Contenção deixou 122 mortos, entre eles cinco policiais. Desde então, especialistas em direitos humanos e movimentos populares apontavam que a ação teve objetivo eleitoral.  

“A eleição dos chefes de polícia da PM e da Civil que participaram do massacre da Penha é a confirmação de que vivemos no fascismo, não existe outra forma de nomear isto. No fascismo não existe qualquer tipo de humanidade para determinadas classes e raças. É a barbárie”, afirma ao Brasil de Fato o historiador Fransérgio Goulart, diretor-executivo da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJ-Racial).

A moradora do Complexo da Penha Ana Tobossi é uma das muitas vozes que alertaram para o uso da chacina como capital político para a extrema direita se promover nas eleições. “Vinte anos de política de terror desenharam o mapa político do Rio de Janeiro. A cada novo massacre, o roteiro se repete: a operação é vendida como vitória, os mortos viram estatística, e o comando que a conduziu é promovido a candidato”, disse.

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A ativista é fundadora do Mulherio Ancestral, organização dedicada à formação política de mulheres negras no território. Para Tobossi, o desempenho dos responsáveis pela megaoperação nas urnas sinaliza uma falha estrutural do que é considerado eficiente no combate ao crime organizado.

“Isso acontece enquanto o Rio teve e tem parlamentares que defendem a dignidade humana e a segurança com inteligência, investigação e direitos. Se esse trabalho não encontra eco, a falha não é só de quem governa. É de uma sociedade que ainda confunde força com eficácia. E muitos desses sequer conseguiram ser reeleitos. Falhamos enquanto sociedade!”, lamenta.

Para Goulart, o resultado vai além da “ascensão de candidatos fascistas” na política. “Estamos diante da policialização da própria política: problemas sociais passam a ser tratados como problemas de segurança, conflitos políticos como ameaças à ordem e populações vulnerabilizadas como inimigos a serem controlados”, reflete.

Segurança pública e eleições

Para se promoverem, as candidaturas utilizaram referências à chacina nas campanhas, inclusive relacionadas ao número de vítimas no massacre. A megaoperação mobilizou 2,5 mil policiais e, no dia seguinte, moradores ainda resgataram corpos abandonados na área de mata da Serra da Misericórdia.

Felipe Curi e Marcelo de Menezes comandaram a operação em 28 de outubro. Devido à forte repercussão da chacina, eles tiveram destaque ao lado de Claudio Castro. A ação foi considerada “um sucesso” pelo governo do Rio. 

Curi foi eleito com 133.626 votos para o Congresso, enquanto Menezes conquistou uma cadeira na Alerj com 46,7 mil votos. Os dois são aliados do candidato ao governo do Rio pelo PL, Douglas Ruas.

“O mais difícil de encarar é que esse modelo segue sendo premiado nas urnas. Quem entrega o veneno se apresenta como a cura, e o eleitor, acuado pelo medo real da violência, aceita o remédio que nunca funcionou. Duas décadas de letalidade não trouxeram segurança. Trouxeram mais mortes, mais luto concentrado nas mesmas favelas e uma política refém do espetáculo”, completa Ana Tobossi, moradora da Penha. 

Cúpula da segurança pública do governo Cláudio Castro, Felipe Curi (à esquerda) e Marcelo de Menezes (à direita), durante entrevista coletiva sobre Operação Contenção | Crédito: Rafael Wallace/Alerj

Outro nome que ficou marcado pela chacina e garantiu eleição foi o delegado Bernardo Leal (PP), que conquistou uma cadeira na Alerj com 57.254 votos. A centralidade da segurança pública no debate eleitoral motivou o lançamento da plataforma “Voto sem Farda” pela IDMJ-Racial. 

O site reúne as propostas e um painel comparativo dos candidatos ao Executivo fluminense com foco no tema. “Essa chave ajuda inclusive a analisar por que projetos progressistas também podem reproduzir políticas de segurança semelhantes às da direita, mesmo quando seus discursos sobre direitos humanos são diferentes”, explica Goulart.

A plataforma também apresenta ao eleitor uma “escala da morte” a partir das fichas de cada candidato. Para o 2º turno das eleições, o projeto vai ampliar para confrontar os projetos de Lula (PL) e Flávio Bolsonaro (PL) para a segurança pública. Acesse neste link.

Editado por: Juliana Passos

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