DEMOCRACIA

O Brasil votou em Genebra

Brasileiros de todas as classes e profissões votaram no primeiro turno; Lula teve 2.496 votos; Flávio, 2.226

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Brazil's President and presidential candidate Luiz Inacio Lula da Silva holds a red star during a campaign rally at the Sao Miguel Paulista neighbourhood in Sao Paulo, Brazil, on September 26, 2026. Brazil will hold presidential election on October 4, 2026. (Photo by Miguel SCHINCARIOL / AFP)
O presidente Lula é candidato à reeleição | Crédito: Miguel Schincariol/AFP

Há algo de simbólico em cobrir uma eleição brasileira numa cidade que fez da negociação entre diferenças o seu ofício. Genebra sedia a Organização das Nações Unidas (ONU) europeia, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização Mundial das Saúde (OMS) e dezenas de organismos multilaterais; é uma cidade construída sobre a ideia de que adversários podem sentar-se à mesma mesa. No domingo passado, esse princípio saiu dos salões de conferência e ganhou o chão do Palexpo – Centro de Conferência da cidade, onde milhares de brasileiros foram votar.

Os números ajudam a dimensionar o que estava em jogo. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 918.876 brasileiros estavam aptos a votar no exterior em 2026 — crescimento de 31,82% em relação a 2022. Na Europa, cerca de 413 mil eleitores distribuíram-se por 43 cidades de 35 países. A Suíça integra esse cenário como um dos polos da diáspora brasileira no continente. Com cerca de 27 mil eleitores aptos a votar, o país mantém apenas dois centros eleitorais — Genebra e Zurique —, encarregados de cobrir as três regiões linguísticas do país. Genebra responde pela Suíça francófona, de Genebra a Neuchâtel, do Jura ao Valais, e reúne sozinho aproximadamente 12 mil eleitores. A Zurique cabe a germanófona e a italiana: para os brasileiros do Ticino, votar significa, na prática, pegar o trem até Zurique.

Mas quem passou o dia no Palexpo, como eu, viu algo que as estatísticas não capturam. A cada ônibus que parava, descia um cortejo que era o próprio retrato do Brasil: empregadas domésticas e médicos, garçons e enfermeiros, pedreiros e pesquisadores do CERN e das universidades, motoristas e funcionários das Nações Unidas, cozinheiros, cabeleireiras, dentistas, comerciários, auxiliares de limpeza. Gente que saiu de casa antes do amanhecer para pegar o trem de Neuchâtel, de La Chaux-de-Fonds, de Sion ou de Friburgo. Famílias inteiras com crianças no colo e todos traziam, na mão ou na memória, um pedaço de país que não caberia em nenhuma planilha.

Por algumas horas, aquele pavilhão de exposições virou um Brasil em escala reduzida e as diferenças estavam à vista. Num canto, um grupo montou um espaço com imagens de Nossa Senhora Aparecida, um retrato de Frida Kahlo, uma estrela vermelha e uma bandeja de brigadeiros. Em outro, brasileiros usavam a camisa 10 da seleção como declaração de patriotismo. Muitos preferiam não exibir símbolo algum em suas vestimentas ou atitudes — escolha, também ela, política.

Crédito: Mônica Cabañas 

Passei o dia conversando com as pessoas que estavam ali, e fiz a todas a mesma pergunta: por que você está votando? As respostas não coincidiam. Umas falaram do medo do retrocesso. Outras, da democracia. Houve quem dissesse votar por esperança, por patriotismo, por amor ao Brasil — e que, por isso, usaria a camisa da seleção, para retomá-la como símbolo de todos os brasileiros, e não de um segmento só. Outras ainda mencionaram a fé, o que se fala na sua igreja e nos grupos de comunicação. Houve quem votasse para mudar o que está aí, para evitar uma catástrofe, para permitir que o filho da empregada estude na mesma escola e universidade que o filho da patroa. Para mim ficou uma certeza: palavra “democracia” apareceu em quase todas as respostas, mas não queria dizer a mesma coisa para todo mundo.

O contraste com 2022 era inevitável para mim, pois naquele ano, votei em Genebra, como qualquer eleitora, e a polarização atravessou o dia. Houve relatos de tensão e episódios que exigiram presença policial e muitos brasileiros que vivem aqui ainda se lembram disso. Em 2026, as divergências continuavam — e os símbolos também. O que mudou foi o modo de conviver com elas: grupos de posições opostas dividiram os mesmos corredores, as mesmas filas e o mesmo ritual democrático sem que a diferença virasse conflito.

Crédito: Mônica Cabañas 

Por trás daquele domingo havia uma engrenagem que o eleitor não vê e no Consulado-Geral do Brasil em Genebra, os preparativos começaram ainda em 2025: escolha do local, campanhas de regularização eleitoral, treinamento promovido pela Justiça Eleitoral, testes das urnas e planejamento logístico. Ao todo, 73 pessoas participaram diretamente da operação — funcionários do consulado e demais representações diplomáticas da cidade, voluntários, mesários, coordenadores e equipes de apoio. O objetivo era permitir que milhares de brasileiros votassem com o mínimo de transtorno possível. E, pelos relatos que recolhi, foi o que aconteceu: a organização, a rapidez no atendimento e a fluidez das filas, mesmo nos momentos de pico, foram elogiadas pela maioria dos brasileiros com quem conversei.

Quando as urnas foram fechadas neste primeiro turno, o Brasil presente no Palexpo começou a desmontar o palco de um dos processos mais importantes para o país. Horas antes, aquele mesmo espaço havia sido erguido para receber milhares de eleitores — e, por um dia, foi o palco de um dos maiores espetáculos que uma democracia pode viver. Os 73 funcionários que haviam trabalhado na operação retiraram cabines, urnas e faixas. Os responsáveis pela fiscalização dos partidos receberam os resultados urna a urna e os conferiram, voto a voto, até chegar ao número final. A apuração foi acompanhada por um grupo pequeno, que esperou até o fim. O resultado em Genebra: Lula teve 2.496 votos; Flávio, 2.226.

Haverá um segundo turno e em 25 de outubro os brasileiros voltarão às urnas — em Genebra e em centenas de cidades pelo mundo. O palco será montado outra vez. E nós estaremos lá, como estivemos no domingo, para viver um dos mais importantes espetáculos que um país pode oferecer: a democracia.

*Mônica Cabañas é jornalista.

Editado por: Vivian Virissimo

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