As empresas que compõem o Ibovespa ganharam R$ 372,14 bilhões em valor de mercado nesta segunda-feira (5), no primeiro pregão após Flávio Bolsonaro (PL) terminar à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições presidenciais. A Bolsa brasileira disparou 7,7%, alcançou o recorde de 206.911 pontos e o dólar caiu 4,12%, fechando próximo de R$ 5.
A valorização foi especialmente expressiva entre instituições financeiras: as ações do BTG Pactual subiram 22,52%, as da B3 avançaram 22,63% e os papéis da XP negociados no Brasil ganharam 24,43%.
Para a economista Juliane Furno, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Instituto Tricontinental, a reação não se explica apenas por expectativas econômicas. “O Ibovespa disparou e o dólar caiu porque o mercado está otimista com a vitória do seu representante. Mas muito disso é parte da campanha eleitoral”, afirma.
Segundo ela, o poder dos grandes investidores sobre as expectativas também pode produzir efeitos concretos na economia, inclusive quando apostam em um cenário negativo, como fizeram durante o governo Lula. “Se eu começo a apostar contra as empresas e contra a economia brasileira, é muito provável que a economia brasileira se enfraqueça mesmo, porque a economia é muito refém das incertezas.”
A euforia com Flávio acontece mesmo após quase quatro anos de indicadores econômicos positivos sob Lula, inclusive para o próprio capital financeiro, contrariando as previsões do mercado feitas desde 2022. Até setembro, antes da votação, o Ibovespa acumulava valorização nominal de 69,8% durante o atual governo, contra 24,9% nos quatro anos de Jair Bolsonaro (PL).
Os bancos também registraram lucros recordes. O Itaú encerrou 2025 com R$ 46,8 bilhões de lucro recorrente, enquanto o BTG Pactual alcançou R$ 16,7 bilhões, crescimento de 35% sobre o ano anterior. No agronegócio, as exportações atingiram o recorde histórico de US$ 169,2 bilhões (R$ 846,4 bilhões).
No que diz respeito à atividade econômica, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu, em média, quase 3% ao ano entre 2023 e 2025. O desemprego recuou a 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026, enquanto a inflação acumulada nos primeiros 44 meses do terceiro governo Lula ficou em 17,9%, a menor para o período desde o Plano Real. No intervalo equivalente do governo Bolsonaro, os preços haviam subido 25,3%.
Mas quem é, afinal, o chamado mercado financeiro, frequentemente apresentado pela imprensa como uma entidade abstrata, cujas reações seriam uma espécie de avaliação imparcial sobre os rumos da economia?
Para o economista Pedro Faria, embora milhões de brasileiros tenham alguma aplicação financeira, o poder efetivo sobre os preços e as expectativas está concentrado nas mãos dos grandes detentores de capital.
“Na democracia, cada pessoa tem um voto. No mercado, cada real é um voto”, compara. “Quem tem bilhões tem bilhões de votos; quem tem R$ 100 numa caixinha da sua fintech tem R$ 100 de voto.”
Segundo ele, são grandes investidores, bancos, fundos e instituições que movimentam volumes suficientes para influenciar os mercados. Esse poder também se estende à formação de opiniões, por meio de analistas, representantes de instituições financeiras e veículos especializados.
“O mercado definitivamente não somos nós”, resume Faria, ao distinguir esses agentes dos pequenos poupadores.
O que o mercado espera de Flávio
Na avaliação da economista Juliane Furno, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Instituto Tricontinental, a reação ao resultado eleitoral expressa objetivos que vão além da expectativa de crescimento econômico. “O mercado não é um agente neutro, ele tem interesses e também interfere no jogo eleitoral”, afirma.
“O mercado quer não só a vitória do Flávio, mas também ‘disciplinar’ o Lula caso ele seja eleito”, avalia Furno. Entre os principais interesses, ela identifica cortes de investimentos públicos, redução de direitos trabalhistas e privatizações, medidas que podem ampliar a rentabilidade empresarial ou abrir novos espaços para a atuação do capital privado.
A plataforma econômica de Flávio prevê a retomada de privatizações, a revisão de despesas e um ajuste equivalente a aproximadamente 1,5% do PIB, segundo integrantes de sua equipe. O senador também se posicionou contra a proposta de acabar com a escala de trabalho 6×1, defendendo um modelo alternativo de contratação por hora trabalhada.
Pedro Faria acrescenta que a preferência pelo bolsonarismo não se explica exclusivamente pela expectativa de rendimentos maiores. Há, segundo ele, componentes ideológicos e uma disputa sobre quem determina os rumos da política econômica.
“O capitalista, mais do que lucro, gosta de controle sobre como ele vai lucrar”, afirma. Na avaliação do economista, um eventual governo Flávio ampliaria a influência dos grandes empresários sobre essas decisões, além de oferecer oportunidades de aquisição de patrimônio público por meio das privatizações.
Um exemplo concreto dessas expectativas apareceu nas ações da Petrobras, que avançaram mais de 8% após o primeiro turno. Em relatório divulgado na segunda-feira, analistas do BTG Pactual apontaram como possíveis fatores de valorização uma mudança na política de preços dos combustíveis e a retomada da venda de ativos, inclusive para financiar dividendos extraordinários aos acionistas.
Para Furno, o conflito entre os interesses financeiros e os dos trabalhadores aparece sobretudo na disputa pela distribuição dos resultados das empresas. “Isso é inversamente proporcional ao interesse do trabalhador, porque, se os sócios da empresa querem aumentar seus lucros, a forma mais corriqueira de fazer isso é reduzindo custos, e os custos salariais e a quantidade de trabalhadores são os maiores deles”, explica.
Riqueza financeira não significa novos investimentos
Os R$ 372 bilhões acrescentados ao valor das companhias do Ibovespa em um único pregão não representam dinheiro novo colocado em indústrias, equipamentos ou atividades produtivas. O montante expressa a elevação do preço atribuído às ações existentes.
“O que valorizou foi o papel”, explica Pedro Faria. “A empresa continua a ter as fábricas, o banco continua a ter a carteira de crédito dele. O que você tem é um otimismo sobre a taxa de lucro que esses negócios vão ter.”
Quando uma empresa emite novas ações, pode captar recursos para financiar suas operações e investimentos. Já nas negociações cotidianas do chamado mercado secundário, investidores compram e vendem entre si ações anteriormente emitidas. Essas operações proporcionam liquidez aos ativos, mas não representam, por si mesmas, novos aportes de capital às empresas.
É nesse processo que se manifesta o fenômeno conhecido como capital fictício, conceito associado à valorização e à circulação de direitos sobre rendimentos futuros, que podem crescer ou diminuir de preço sem mudar nada na produção material.
“A lógica atual da financeirização é a lógica de que possa haver um deslocamento, ou uma autonomia relativa da esfera financeira em relação à esfera real”, explica Furno. “Estão sendo negociados direitos de recebimento futuro de renda de empresas que nem produziram ainda, e essas expectativas vão valorizar ou desvalorizar ações, em um movimento completamente especulativo.”
Furno também chama atenção para o poder das expectativas financeiras sobre a própria economia. Segundo ela, avaliações negativas podem desencadear um processo em que empresas adiam investimentos por temerem uma desaceleração e, com isso, acabam contribuindo para produzi-la.
“Quem acha que a economia vai piorar amanhã não irá investir hoje, e se não investirem hoje, aí sim a economia piora”, explica.
Para Pedro Faria, a predominância dos indicadores financeiros no noticiário ajuda a confundir valorização patrimonial com desenvolvimento econômico. A alta da Bolsa pode refletir expectativas sobre lucros futuros, mas não mede diretamente a criação de empregos, a ampliação da capacidade produtiva ou a incorporação de novas tecnologias.
Ele argumenta que, para avaliar a contribuição efetiva do sistema financeiro ao desenvolvimento do país, é necessário observar indicadores como a expansão do crédito produtivo, os financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a emissão de títulos para financiar novos investimentos.
“A gente ouve falar do índice de ações, do Ibovespa, de outros índices, mas a gente ouve muito pouco falar do que foi de fato investido em produção”, conclui.

