QUAL O CAMINHO?

Ouvir os 33 milhões: única chance de lula vencer no segundo turno

'Quem são essas pessoas senão trabalhadores que, de tão desiludidos, sequer se mobilizam para sair para votar?'

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Multidão ouviu Lula e aliados no Marco Zero
Multidão ouviu Lula e aliados no Marco Zero | Crédito: Ricardo Stuckert

O campo progressista sofreu uma profunda derrota estratégica no primeiro turno das eleições. Há muito o que se discutir sobre esse resultado e suas consequências. Creio que fazer um balanço sóbrio, autocrítico e radical é tarefa de qualquer pessoa que leva a sério a luta política contra a extrema direita e o imperialismo. Mas agora, uma tarefa urgente bate à porta: derrotar Flávio Bolsonaro no segundo turno. E se não podemos fazer os balanços com a profundidade necessária imediatamente, também é verdade que não podemos reincidir em erros básicos, correndo o risco de tornar vão qualquer esforço de conquistar novos eleitores.

Lula chega ao segundo turno com uma desvantagem de 2,5 milhões de votos, numa eleição cujas abstenções somaram mais de 33 milhões. Lideranças da esquerda já apontam para este número como a esperança de que é possível virar o jogo. De fato, aí mora a única possibilidade de vitória. Mas quem são essas pessoas senão trabalhadores que, de tão desiludidos e distantes da política, sequer se mobilizam para sair de casa para votar?

Tenho certeza de que a assessoria profissional do Partido dos Trabalhadores disponha de inúmeros levantamentos sobre o perfil desse eleitor. Mas, quem vê de cima, só enxerga números. A tarefa mais difícil está na mão de quem vai fazer a conversa na rua, olho no olho, onde a militância é desafiada a lidar com as mais diferentes percepções políticas do povo: suas desilusões, suas teorias conspirativas, sua indiferença, seu cansaço, sua desinformação. E é justamente aí, diante da dificuldade de convencimento, que a militância costuma entrar em pane.

À esperança dos 33 milhões, soma-se a frieza de outro dado: 49% da população desaprova o terceiro governo Lula. Apenas 44% aprovam e, não coincidentemente, 45% votaram em Luís Inácio no primeiro turno. Portanto, a pergunta que vale uma eleição e pode impedir a entrega do país para Trump e Marco Rubio é: como convencer 33 milhões de desiludidos e rejeitosos do governo a votar neste mesmo governo? Ora, para entender um desiludido, antes é preciso entender a ilusão – tarefa difícil para quem se habituou a defender acriticamente o governo. Mas, este escritor otimista crê que o seu leitor dispõe do senso de responsabilidade necessário para preferir desiludir-se a correr o risco de ver Flávio Bolsonaro na presidência.

Não é e não será fácil convencer as pessoas a votarem em Lula, porque a vida praticamente não melhorou neste último governo, em especial para os 70% dos brasileiros que recebem até 2 salários-mínimos por mês. Em 2022, Lula assumiu o governo com uma inflação de alimentos e aluguéis nas alturas, com destaque para as grandes metrópoles do Sul e Sudeste. Bolsonaro tinha acabado com a valorização real do salário-mínimo e com a política de controle de preços dos alimentos, enquanto os aluguéis explodiram durante a pandemia.

Somando os dados do Dieese, em São Paulo, o preço da cesta básica essencial (arroz, feijão, café, batata etc.) acumulou alta de 80,3% de 2019 a 2022. Os aluguéis, no mesmo período, somando dados da IVAR/FGV, acumularam alta de cerca de 22%. O salário-mínimo teve 0% de aumento real, sendo reajustado apenas de acordo com o INPC, cujos critérios de cálculo não correspondem aos gastos dos 70% que sobrevivem com dois salários-mínimos. Em resumo, para essa parte da população, com Bolsonaro, o seu poder de compra em itens básicos para sobrevivência (comida e moradia) diminuiu quase 20%.

Lula assume e retoma a política de valorização real do salário-mínimo. Foi mais de 33% de aumento nominal. A inflação dos alimentos e aluguéis desacelerou. Mas isso não significa que houve uma deflação capaz de retomar o mesmo patamar de preços anterior. Por mais que o salário tenha crescido de forma consistente, não foi suficiente para restabelecer o poder de compra pré-Bolsonaro. Tomando São Paulo como referência, se o salário-mínimo comprava 2,17 cestas básicas em 2018, e ao final do governo Bolsonaro comprava 1,50 cestas, hoje, ele compra cerca de 1,90 cestas básicas. Se trouxer a inflação dos aluguéis para o cálculo, o resultado é que, em relação ao poder de compra de bens essenciais, comparado a 2018, ainda há uma defasagem de mais ou menos 10% no poder de compra de itens básicos.

Ou seja, apesar de ter havido uma melhora no Lula 3, ainda é sensível que o custo de vida está alto e que a vida não se tornou melhor do que ela já foi há menos de 10 anos atrás. Lula não foi capaz de entregar isso. É preciso frisar que sequer estamos considerando o alto endividamento e, consequentemente, o aumento da parcela de juros na renda mensal dos trabalhadores, que também tem enorme peso sobre o orçamento familiar. Também não se está considerando a asfixia dos serviços públicos, que pioram constantemente com as terceirizações, privatizações e falta de investimentos. Em resumo, sob o governo Lula 3, a vida não melhorou, apenas deixou de piorar. Ignorar essa realidade é ignorar parte fundamental do que influencia a consciência das pessoas. É ignorar as demandas de milhões de trabalhadores desiludidos com o potencial deste governo lhes entregar algum futuro diferente do que é o presente.

Mas então, como isso ajuda a disputar os votos dos 33 milhões nas ruas? Primeiro, porque a própria militância precisa se desiludir com o governo para poder estabelecer uma conexão mínima com quem já está desiludido há tempos. A coisa mais desprezível na política é o cinismo e a demagogia – e os 33 milhões não são ignorantes para acreditar nos seus elogios ao governo enquanto o cheque especial fala mais alto no final do mês. Por isso, guiando-se pela ideia de que “com Lula a vida não melhora muito, mas com Bolsonaro ela piora demais”, aponto as seguintes sugestões a todos que farão campanha nestes 20 dias:

1) Antes de falar tentando convencer alguém, pergunte e tente entender genuinamente as angústias daquela pessoa. Aborde a pessoa com respeito e tranquilidade. Peça com gentileza a atenção dela para conversar sobre as eleições. Questione se ela pretende votar no segundo turno e em quem. Não despreze se a resposta for abstenção ou Bolsonaro. Respeite a inteligência do seu interlocutor e questione o porquê daquela escolha. Antes de tentar enfiar “goela abaixo” o voto no Lula, pergunte o que a pessoa espera de um futuro presidente e o que ela entende que é prioritário mudar para melhorar a vida da classe trabalhadora. Dialogue com o pensamento dela, ao invés de despejar nela o seu desespero por voto;

2) Não tente vender um projeto que não existe. Respeite a desilusão, pois ninguém será convencido por uma realidade fantasiosa. Seja honesto e assuma a insuficiência e os erros deste governo com o povo. É mais fácil convencer que Bolsonaro não tem nada de bom a entregar para a classe trabalhadora do que dizer que o futuro com Lula é brilhante. Como disse no início do texto, não me proponho a discutir os profundos problemas do governo e do programa eleitoral apresentado. Mas não é demais lembrar que nenhum projeto político apoiado pelos bilionários brasileiros pode ser bom para a maioria do povo. Então, se não houver uma mudança radical no programa para este segundo turno, leve muito a sério esta sugestão;

3) É claro que nas panfletagens nos grandes centros urbanos é difícil de estabelecer uma conversa mais duradoura e por isso a energia da campanha tem que ser bem direcionada. Priorizar lugares em que é possível conversar com as pessoas, como praças onde trabalhadores descansam nos intervalos do almoço, parques aonde vão aos finais de semana, paradas de ônibus, entrada das empresas na troca de turno etc., são preferíveis a panfletagens impessoais no meio da multidão. Proponha a discussão de forma franca e fraterna, seja aonde for: na barbearia, no supermercado, no posto de gasolina, no ônibus, na sala de aula, no intervalo do trabalho, nos grupos de família, no churrasco com amigos;

4) Caso se depare com alguém que votará no Bolsonaro por rejeição ao Lula (ou seja, alguém que não é um bolsonarista fanático, com quem sequer vale a pena discutir nesse momento), questione como esta pessoa acredita que Bolsonaro vai resolver os principais problemas da vida dela. Prefira tentar dissuadir o voto em Flávio em vez de convencer a votar no Lula. É melhor um voto nulo do que um voto em Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro é um miliciano corrupto, totalmente lambuzado no dinheiro de Daniel Vorcaro. Defende a escala 6×1, o fim dos direitos trabalhistas (pejotização) e a entrega de toda nossa riqueza natural para os Estados Unidos. Ele flerta com a ditadura militar, com grupos supremacistas brancos dos EUA e é contra todo tipo de organização dos trabalhadores. Ele mente que defende a família e vai fazer um governo contra os pobres. Ele é um golpista que quer um regime autocrático para perseguir quem luta. Mas nenhum desses fatos garante qualquer convencimento. A questão é o quanto eles dialogam ou não com as demandas dos 33 milhões. É preciso ouvi-las.

Por fim, não posso deixar de pontuar. Findada essa eleição, independente do resultado, será necessário olhar com atenção para o buraco em que estamos. Nada garante que, com Lula eleito, teremos 4 anos de governo. A decadência dos Estados Unidos exige garantir sua supremacia sobre a América Latina. Eles precisam do mercado e dos recursos naturais brasileiros para continuarem vivos por mais tempo, para atrasarem ainda mais sua inevitável ruína. E estão dispostos a tudo para isso. 

Para a esquerda brasileira, isso significa um desafio sem tamanho. É tarefa da nossa geração encarar isso de frente se quisermos sonhar com alguma vida diferente da desgraça que nos assola. Será necessário dedicar toda a energia para, a partir da crítica do nosso passado recente, reorganizar a esquerda e construir um projeto político capaz de mobilizar as pessoas não pelo desespero de um Bolsonaro ganhar a eleição, mas pela certeza de que outro futuro é possível. Essa é a tarefa de quem está comprometido com o que chamamos Revolução Brasileira.

* Theo Dalla, militante comunista e jornalista.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Katia Marko

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