Eleições 2026

Recorde de candidaturas, três reeleições e alerta da Apib: o raio-X da bancada indígena em 2026

Eleição consolida oito parlamentares e um governador indígenas, mas entidades alertam para um congresso mais hostil

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Sônia Guajajara (Psol-SP) foi reeleita deputada federal
Sônia Guajajara (Psol-SP) foi reeleita deputada federal | Crédito: Divulgação/Câmara dos Deputados

O resultado do primeiro turno das eleições de 2026 consolidou a eleição de sete parlamentares e um governador autodeclarados indígenas em todo o país. O balanço das urnas confirmou a eleição de três deputados federais (uma cadeira a menos do que as quatro conquistadas em 2022) e a conquista de quatro mandatos em Assembleias Legislativas estaduais, em um pleito que registrou o recorde histórico de 191 candidaturas autodeclaradas indígenas deferidas perante a Justiça Eleitoral.

Uma das cadeiras perdidas na Câmara foi de Célia Xakriabá (Psol-MG), que recebeu 35.119 votos, sendo a quarta mais votada da Federação Psol-Rede, mas ficou apenas com a vaga de suplente. Nas redes sociais, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) disse que “todo o Brasil perdeu um pouco de voz” sem o mandato no legislativo de Célia. 

“Agradecemos por ter sido a voz e a força do nosso movimento indígena dentro do Congresso Nacional. Enquanto nossas florestas queimam, nossos rios adoecem e nós seguimos lutando para proteger a vida, bolsonaristas operam para entregar o Brasil aos EUA”, disse a Apib. “Mas nossa luta não acaba aqui. Seguimos de cabeça erguida e organizados para continuar demarcando o Brasil. Uma eleição não derrota 526 anos de resistência indígena”, complementou a nota.

Na disputa para a Câmara dos Deputados, Paulo Guedes (PT-MG) foi reeleito para seu terceiro mandato como deputado federal com 126.974 votos, registrando a 11ª maior votação do estado de Minas Gerais; Juliana Cardoso (PT-SP), com 111.904 votos, e Sônia Guajajara (Psol-SP), com 54.207 votos, também foram reeleitas em São Paulo para o segundo mandato como deputadas federais. Além dos parlamentares, o autodeclarado indígena Jerônimo Rodrigues (PT-BA) foi reeleito ao governo da Bahia no primeiro turno.

Apesar de compartilharem a autodeclaração indígena no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o pertencimento ao campo progressista, apenas Sônia Guajajara e Juliana Cardoso disputaram o pleito integrando formalmente a Campanha Indígena, articulação política organizada pela Apib. O deputado Paulo Guedes disputou a eleição de forma independente, sem vínculo com as indicações das organizações de base da entidade.

Congresso agressivo

Em nota publicada na segunda-feira (5), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) avaliou que o resultado do primeiro turno das eleições de 2026 desenhou um Congresso Nacional “ainda mais agressivo aos direitos dos povos indígenas”.

A entidade apontou o avanço de bancadas de direita e de setores ligados a pautas contrárias às demarcações de terras e aos direitos territoriais conquistados.

A articulação ressaltou que a nova composição na Câmara dos Deputados e no Senado amplia a pressão sobre os territórios tradicionais, que voltam a ser alvo direto de ofensivas legislativas no próximo ciclo.

Em publicação lançada no âmbito da Campanha Indígena, a Apib caracterizou a nova bancada parlamentar como o “Congresso mais inimigo dos povos da história”, convocando a mobilização unida de suas organizações de base regionais.

Em relação à disputa pelo segundo turno presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a Apib manifestou posição contrária ao projeto representado pelo candidato do PL, apontando que a proposta transforma territórios em mercadoria.

A entidade defendeu a conversão da resistência em voto e reafirmou seu compromisso com a defesa da vida e com o fortalecimento da presença indígena nos espaços de decisão política do país.

Trajetória de lideranças

O pleito de 2026 também testou o desempenho eleitoral de lideranças indígenas de projeção nacional com histórico em mandatos anteriores ou na gestão do governo federal. Joenia Wapichana (PT-RR), primeira mulher indígena eleita deputada federal na história do país (em 2018), disputou o retorno à Câmara dos Deputados por Roraima, mas não alcançou a votação necessária para ser eleita.

“Cada voto que recebemos foi livre e consciente, conquistado no diálogo, na presença e no olho no olho. Fizemos uma campanha limpa, sem compra de votos e sem promessas vazias, acreditando em uma política séria, construída coletivamente e comprometida com aquilo que realmente precisa chegar às pessoas”, disse Joenia, que recebeu 9.998 votos.

O secretário de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde, Weibe Tapeba (PT-CE), concorreu a uma vaga de deputado federal pelo Ceará e, com 18.502 votos, conquistou a suplência na federação do partido.

“Saio dessa eleição ainda mais comprometido com o nosso povo. A luta continua, e podem ter certeza de que seguirei trabalhando pelo Ceará, pelos nossos territórios e por todas as causas que trouxemos conosco até aqui”, disse Weibe após o resultado das apurações.

No Pará, a secretária de Estado dos Povos Indígenas, Puyr Tembé (Avante-PA), disputou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) e também ficou na condição de suplente. Já em São Paulo, a ex-codeputada estadual Chirley Pankará (Psol-SP) concorreu à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), ficando como suplente de sua federação.

Candidaturas da Apib

Os dados consolidados do TSE indicam que os 191 candidatos autodeclarados indígenas distribuíram-se por quase todos os cargos em disputa no pleito de 2026. O maior volume concentrou-se nas disputas proporcionais estaduais e federais:

  • Deputado Federal: 73 candidaturas
  • Deputado Estadual: 100 candidaturas
  • Deputado Distrital: 3 candidaturas
  • Senador: 4 candidaturas
  • 1º Suplente de Senador: 3 candidaturas
  • 2º Suplente de Senador: 3 candidaturas
  • Governador: 3 candidaturas
  • Vice-governador: 2 candidaturas

A representação partidária espalhou-se por 24 siglas. O PT liderou o número de registros indígenas, com 38 candidaturas, seguido pelo Psol, com 21, e pela Rede Sustentabilidade, com 19. O PDT somou 18 registros, o MDB registrou 13, o PCO apresentou 11 e a DC teve 10 candidaturas. Partidos como Novo (9), PSB (9), PL (8) e PSD (7) também registraram postulantes autodeclarados.

Das 27 unidades federativas brasileiras, 26 apresentaram candidatos indígenas nas urnas, com exceção apenas do estado de Alagoas.

Dentro desse universo, a Campanha Indígena da Apib articulou 56 candidaturas chanceladas por suas organizações regionais de base. Lançada sob o projeto “Nosso Território, Nossa Vida”, a plataforma política da Apib estabeleceu como diretriz o conceito de “aldear a política”, priorizando pautas como a demarcação e proteção das Terras Indígenas, o combate à tese do marco temporal, o enfrentamento às mudanças climáticas e o fortalecimento da autonomia dos povos nos espaços formais do Poder Legislativo.

Comparativo histórico

O volume de 191 candidaturas indígenas em 2026 reafirma a trajetória ascendente da participação indígena na política institucional do Brasil. Desde que o TSE passou a incluir o quesito cor e raça nos registros eleitorais, em 2014, o número de postulantes indígenas saltou de 85 naquele ano para 133 em 2018, 186 em 2022 e 191 na presente eleição.

Nos resultados eleitorais das vagas em disputa no primeiro turno, o desempenho manteve-se estável em comparação com o pleito geral anterior. Em 2022, oito candidatos autodeclarados foram eleitos diretamente nas urnas (quatro deputados federais, dois deputados estaduais e dois senadores), além do avanço de Jerônimo Rodrigues ao segundo turno, em que confirmou a vitória ao governo baiano. Em 2026, registraram-se novamente oito eleitos (um governador no primeiro turno, três deputados federais e quatro deputados estaduais).

Nenhum candidato indígena conquistou vaga de senador em 2026, disputa que contou com postulantes como Ismael Munduruku (Rede-AM) e Bartô Macuxi (Psol-RR). O Senado segue com dois senadores autodeclarados indígenas que conquistaram mandatos de oito anos em 2022 e seguem no exercício do cargo até 2030: Wellington Dias (PT-PI) e Hamilton Mourão (Republicanos-RS).

Eleição histórica de Clóvis Curubão

No Amazonas, a apuração das urnas registrou um feito inédito para a política local: a eleição do ex-prefeito de São Gabriel da Cachoeira, Clóvis Curubão (PT-AM), como o primeiro deputado estadual indígena da história da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam).

Da etnia Tariana e com 53 anos, Curubão somou 34.869 votos no estado, dos quais 17.563 foram obtidos diretamente em seu município natal, cidade onde a população é majoritariamente indígena e da qual foi prefeito eleito em 2016 e reeleito em 2020.

O Amazonas abriga a maior população indígena do Brasil em números absolutos. Segundo os dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE, o estado concentra 490.935 pessoas indígenas, o que representa 28,97% de toda a população indígena do país. O estado cresceu de 20 candidaturas indígenas em 2022 para 23 candidaturas em 2026.

Das 23 candidaturas amazonenses no último pleito, 12 integraram a Bancada Indígena da Apib. Entre os nomes apoiados pela articulação no estado, esteve Vanda Witoto (MDB-AM), candidata a deputada federal que obteve a suplência, além de Cláudia Tikuna (MDB-AM) e Neuriane Munduruku (MDB-AM), que ficaram como suplentes na disputa para a Assembleia Legislativa.

Estado mais indígena

Se o Amazonas lidera em números absolutos, o estado de Roraima registra a maior proporção de população indígena em relação ao total de habitantes no país. Conforme o IBGE, 15,29% da população roraimense se declara indígena (97.320 pessoas), o que equivale a uma em cada sete pessoas no estado. O município de Uiramutã destaca-se nacionalmente com 96,6% de moradores indígenas.

Nas eleições de 2026, Roraima somou 23 candidaturas autodeclaradas indígenas, ante 32 registros contabilizados no pleito de 2022. Das 23 candidaturas disputadas no estado em 2026, oito fizeram parte da Bancada Indígena da Apib.

Além de Joenia Wapichana (PT-RR) para a Câmara dos Deputados e Bartô Macuxi (Psol-RR) para o Senado, a lista da Apib no estado incluiu nomes para a Assembleia Legislativa de Roraima (Ale-RR) como Aldenicia Cadete (PT), Daniel Sampaio (PT), Professor Telmo Macuxi (PT) e Zelandes Patamona (PT). Na apuração final, o candidato Enock Taurepang (Agir-RR) garantiu a suplência no parlamento estadual.

Candidatura vetada pelo PL

Fora do rol de candidaturas deferidas na eleição de 2026, a ex-deputada federal Silvia Waiãpi (PL-AP) teve sua participação vetada pela própria convenção do Partido Liberal no Amapá. Eleita deputada federal em 2022 com 5.062 votos, a ex-parlamentar bolsonarista teve seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral após ser acusada de utilizar R$ 9 mil do fundo eleitoral de campanha para custear um procedimento estético de harmonização facial em Macapá e falsificar a nota fiscal para burlar a fiscalização.

Silvia Waiãpi apresentava-se como pré-candidata à reeleição para a Câmara dos Deputados em 2026, mas o PL do Amapá retirou seu nome da nominata oficial do partido. A comissão jurídica da legenda justificou a medida com base na Lei da Ficha Limpa, apontando que a condenação proferida pela Justiça Eleitoral gerou a inelegibilidade da filiada pelo prazo de oito anos a contar da eleição de 2022.

Reeleição no Poder Executivo

No Poder Executivo estadual, o governador Jerônimo Rodrigues (PT-BA) confirmou sua reeleição no primeiro turno para o comando do Estado da Bahia. Nascido em Aiquara e autodeclarado indígena, Jerônimo obteve a vitória na urna e permanece como o único governador indígena à frente de um estado no Brasil para a gestão 2027-2030, consolidando a presença de lideranças originárias também na chefia de governos estaduais.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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