O resultado eleitoral no primeiro turno é parte constituinte de uma onda reacionária que abateu a América Latina em 2025-2026. Os aliados da Casa Branca venceram processos eleitorais no Equador, Bolívia, Chile, Peru, Colômbia, Argentina, Costa Rica, além da absurda agressão militar contra a Venezuela. Agora só falta o Brasil, e os números impressionam e são inéditos. Desde o fim da ditadura militar, nenhum partido conseguiu alcançar uma influência tão ampla no Senado e na Câmara dos Deputados. Somando as duas casas, são 150 parlamentares, 36 a mais que em 2022. Uma força política capaz de articular projetos nocivos à classe trabalhadora brasileira e ao futuro do país com muita facilidade.
Caso o representante da Casa Branca no Brasil seja eleito no 2º turno, ele vai indicar quatro ministros ao STF, que, somados a dois ministros que o seu pai já indicou, passarão a ter maioria absoluta na Suprema Corte. Além de indicarem os novos chefes das Forças Armadas, Bolsonaro provavelmente vai ganhar liberdade, o caso Master será arquivado, Daniel Vorcaro também deve ganhar liberdade e teremos instalado, na Praça dos Três Poderes, uma organização neofascista criminosa com uma concentração de poder inacreditável.
Essa é a arquitetura de uma contrarrevolução que tem potencial para operar mudanças estruturais no estado brasileiro, capaz de desfigurar a ordem democrática e fazer o país ser uma colônia estadunidense, aumentando a drenagem de riqueza para os cofres do norte global e destruindo as articulações que o Brasil construiu nos últimos anos com o sul global, especialmente o Brics.
O impacto da eleição brasileira na geopolítica global
Estamos num ciclo de baixo crescimento global do sistema capitalista. A estrutura tecno-industrial do ciclo anterior não responde mais ao diferencial de produção desejado pelos grandes monopólios. Novas estruturas estão surgindo no marco de uma feroz disputa entre estados-nações para ver quem vai liderar um novo ciclo de crescimento econômico capitalista quando essas tecnologias de última geração se generalizarem. Essa disputa está se desdobrando no desmantelamento da ordem imperialista criada ainda no século 20, com duas grandes guerras regionais com impactos globais, que estão afetando fundamentalmente a produção e distribuição de energia no mundo, com a destruição do aparato petroquímico tanto no Oriente Médio como no Leste Europeu.
Essa situação está elevando o preço da energia em todo o mundo e, consequentemente, o custo de vida fica mais inflacionado. Na tentativa de controlar a inflação, os bancos centrais de vários países estão aumentando as taxas de juros. Essa dinâmica cria um labirinto econômico, no qual o aumento dos juros eleva o endividamento em várias dimensões e, em geral, os governos de plantão têm como política promover ajustes fiscais cortando programas sociais, as empresas lançam planos de demissões e a vida da classe trabalhadora fica ainda mais insuportável.
Esse cenário está intensificando a insatisfação popular em várias regiões do mundo, tem causado instabilidades políticas e, muitas vezes, são as forças de extrema direita que estão capitalizando o desespero do povo por meio de métodos demagógicos, usurpando a fé religiosa ou construindo narrativas que apontam os “alvos inimigos” causadores de todas as desgraças. Nos EUA, o inimigo são os comunistas, a cultura “woke” e etc.; na Europa, são os imigrantes; na América Latina, os “narcoterroristas”; e, especialmente no Brasil, a esquerda e o petismo estão entre os “inimigos” que precisam ser destruídos para “salvar” o país.
O resultado da eleição no Brasil vai impactar as articulações dos países do Sul Global que estão tentando se defender e construir caminhos independentes do imperialismo liderado pelos EUA. Não há dúvida de que a derrota de Lula poderá paralisar as ações do governo brasileiro em fortalecer o Brics, vai dificultar o processo de desdolarização, bem como parcerias autônomas que podem ampliar o comércio exterior e a construção de infraestrutura e tecnologias para projetos industriais que promovam o desenvolvimento de países da periferia. Um governo da família Bolsonaro, com tanto poder concentrado, vai alinhar o Brasil com os interesses dos EUA, transformando o país numa plataforma de livre usufruto do império para seus interesses econômicos, políticos e para suas guerras eternas.
A eleição de Lula no 2º turno será uma vitória da resistência
Em maio deste ano, escrevemos um artigo com o título: “Os 4 fatores que ameaçam a candidatura de Lula, mesmo Flávio Bolsonaro estando em seu pior momento”. Era o auge do vazamento dos áudios reveladores da relação promíscua entre Flávio e Vorcaro e, nesse momento, havia um forte otimismo de que Lula ganharia, com muita gente apontando a possibilidade de vitória no primeiro turno. Na ocasião, apontávamos como os principais fatores: a resiliência bolsonarista em relação às denúncias de corrupção, o anti-petismo consolidado no Brasil, as guerras e o El Niño como promotores do aumento do custo de vida e o fator Trump. Desgraçadamente, esses fatores incidiram com mais força do que imaginávamos na realidade brasileira, e a possibilidade de reeleição de Lula está ainda mais ameaçada.
Os números do resultado eleitoral no país e nos estados causaram uma profunda tristeza na militância e em muitas pessoas que estão em choque com a vitória de tantos candidatos bolsonaristas que não possuem absolutamente nenhum projeto de interesse do povo trabalhador brasileiro. Pelo contrário, são agentes ligados ao crime organizado, às milícias e a uma burguesia parasita e submissa que, na primeira chance, vão fazer desse país um lugar ainda mais insuportável para se viver e ainda vão tentar fazer você acreditar que a miséria que você vive é culpa sua.
Mas acontece que o desânimo e o derrotismo nunca venceram nenhuma batalha, e a consciência de que a vitória de Lula será um imenso obstáculo para que eles não consigam concretizar seus planos por completo será a energia que vai mobilizar milhões de brasileiras e brasileiros a imporem uma vitória da resistência à contrarrevolução. Nas próximas semanas, nossa tarefa é salvar o Brasil, elegendo, pela quarta vez, Luiz Inácio Lula da Silva presidente.
*Gibran Jordão é historiador, mestrando da UFRJ e analista de geopolítica.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

