Reeleita deputada federal por Minas Gerais com 108 mil votos, Dandara Tonantzin (PT) afirmou que sua permanência na Câmara dos Deputados representa o resultado de uma trajetória de construção e resistência das mulheres negras na política. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a parlamentar também analisou a abstenção no primeiro turno, a votação de candidaturas de direita no estado e os obstáculos enfrentados por mulheres progressistas nas eleições.
“Eu sou a primeira mulher negra que o PT de Minas elege deputada federal e agora a primeira a ser reeleita. O espaço de poder não foi feito nem pensado para nós, então a nossa ocupação é fruto de muita construção e muita resistência”, afirmou.
Para Tonantzin, a renovação da representação negra no Congresso também é um elemento importante para a disputa política do segundo turno. Ela citou nomes como Ana Elisa, Carol Dartora, Anielle Franco, Jones Manoel e Renato Freitas como parte de uma nova geração de lideranças.
“Essa renovação está acontecendo e ela vem com muita qualidade, com gente que está realmente disposta a construir lutas e fazer muitos movimentos importantes”, disse.
Segundo a deputada, a presença dessas lideranças também pode contribuir para mobilizar diferentes setores da população em torno da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno.
Abstenção e disputa política
Tonantzin também comentou o índice de abstenção registrado em Minas Gerais no primeiro turno. Segundo os dados apresentados na entrevista, 22,82% dos eleitores aptos não compareceram às urnas, ante 22,29% no primeiro turno das eleições gerais anteriores.
Devemos apresentar soluções concretas, reesperançar a política.
Para a deputada, o enfrentamento à abstenção passa por aproximar o debate eleitoral dos problemas concretos vividos pela população.
“Nós precisamos construir um movimento cada vez mais de diálogo. Diálogo com a população, as pautas concretas, as demandas reais, os problemas cotidianos”, afirmou.
Tonantzin criticou o que considera uma concentração do debate eleitoral em temas que, segundo ela, afastam a discussão das propostas para áreas como educação, saúde, cultura, emprego e desenvolvimento econômico. “O campo em que a gente deve atuar nesse momento é o campo das ideias, da vida real e das propostas”, disse.
A deputada também defendeu a combinação entre mobilização presencial e atuação nas redes sociais. “A rede alimenta e mobiliza a rua, a rua alimenta e mobiliza a rede. É troca, é simbiose, é conexão. Não é uma coisa ou outra, precisamos construir os dois juntos”, afirmou.
Na avaliação de Tonantzin, a desinformação também contribui para o afastamento de parte do eleitorado das urnas. “O celular virou um território de disputa política e eleitoral”, analisou.
“A nossa arma não tem que ser o medo, não tem que ser dizer que nada é possível, e tudo está ruim, e ninguém presta, pelo contrário. É apresentar soluções concretas, reencantar as pessoas e reesperançar a política”, chamou à atenção.
Mulheres ainda enfrentam desigualdade
Tonantzin também avaliou a presença de mulheres progressistas na política após as eleições. Para ela, a disputa eleitoral ocorre em condições desiguais entre as candidaturas, especialmente em relação ao financiamento e à estrutura de campanha. “As regras do jogo não são as mesmas. Campanha não é um processo de disputa equilibrado.”
A deputada comparou as condições eleitorais a uma partida de futebol em que alguns candidatos disputam com estruturas muito superiores às de outros. Segundo ela, a diferença não estaria restrita aos recursos oficiais de campanha.
“Eu não acredito que é apenas o fundo eleitoral, o fundo partidário, as doações oficiais que mantêm algumas candidaturas. É proporcionalmente impossível a quantidade de materiais, a quantidade de disparos, a quantidade de pessoas contratadas”, disse.
Para Tonantzin, a desigualdade também é atravessada pela misoginia e pela violência política de gênero. Ela relatou ter enfrentado questionamentos sobre sua capacidade dentro e fora do próprio partido durante a campanha.
“As mulheres são o tempo todo desacreditadas, inviabilizadas, são colocadas em xeque. Eu enfrentei isso o tempo todo na minha eleição”, afirmou.
Por fim, a deputada destacou a eleição de Marília Campos (PT) para o Senado como um avanço para a representação feminina progressista em Minas Gerais.
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