ELEIÇÕES 2026

‘Vimos o mesmo fenômeno’: vitória de Zucco no RS acompanha avanço global da extrema direita

O cientista político Jorge Branco analisa o resultado e aponta perspectivas de atuação da oposição no Parlamento

No audio source provided.

Luciano Zucco (PL) foi eleito governador do Rio Grande do Sul no primeiro turno, com 58,05% dos votos válidos
Luciano Zucco (PL) foi eleito governador do Rio Grande do Sul no primeiro turno, com 58,05% dos votos válidos | Crédito: Mateus Raugust

A vitória de Luciano Zucco (PL) na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul, no primeiro turno das eleições deste domingo (4), com 58,05% dos votos válidos, marca, na avaliação do doutor em Ciência Política e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Jorge Branco, uma mudança no cenário político do estado. Para ele, o resultado expressa o fortalecimento da extrema direita no Rio Grande do Sul e acompanha um movimento mais amplo de crescimento desse campo político no Brasil e no mundo.

Zucco recebeu 3.516.048 votos e terá como vice a deputada estadual Silvana Covatti (PP). Juliana Brizola (PDT) ficou em segundo lugar, com 1.917.374 votos (31,65%). O governador eleito conta com o apoio do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL).

Além da vitória no Executivo, o PL elegeu a maior bancada da Assembleia Legislativa, com 12 dos 55 deputados que assumirão os mandatos a partir de 1º de fevereiro de 2027. Na sequência aparecem a federação formada por PT, PCdoB e PV, com 10 cadeiras, e a federação entre PP e União Brasil, com oito. MDB e PSD elegeram cinco deputados cada; PDT e Republicanos, quatro cada; Psol, em federação com a Rede, três; Podemos, dois; e Novo e PSDB, um cada.

A abstenção no estado foi de 21,36%. Os votos em branco somaram 6,56% e os nulos, 2,22%, conforme os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Uma mudança no cenário político gaúcho

Para Branco, o resultado eleitoral representa uma mudança em uma disputa política que historicamente teve presença tanto da direita quanto da esquerda no estado. “O Rio Grande do Sul sempre teve uma direita clássica, desde antes do golpe de 1964, assim como sempre teve uma esquerda igualmente forte, um estado com bastantes definições, delineamentos na disputa política”, afirma.

Conforme pontua o pesquisador, o que há de novo na eleição do Zucco, assim como uma possível eleição do Flávio Bolsonaro, é a aglutinação de setores que, por diferentes motivos, inclusive por desinformação, passaram a rejeitar conquistas do período democrático iniciado em 1984.

Na avaliação de Branco, esse processo também está relacionado à construção de uma determinada imagem do Rio Grande do Sul, que não corresponderia à realidade econômica e social do estado. “Fazem uma construção de imagem da própria sociedade gaúcha como uma sociedade que não corresponde exatamente à realidade, uma sociedade conservadora agrário pastoril quando na verdade é uma sociedade com relativo dinamismo econômico relativo à modernidade.”

Branco destaca a presença de universidades, centros tecnológicos e de inovação, empresas de informática e de aviônica como exemplos da diversificação econômica gaúcha. Para ele, o estado apresenta uma economia cada vez menos agrária e uma estrutura marcada também pela indústria, pelos serviços e pela produção acadêmica. “Rio Grande do Sul é um estado mais forte, mais diversificado, mais industrializado, com mais serviços, mais produção acadêmica e que, portanto, não corresponde à imagem de um estado atrasado e primário”, ressalta.

Na avaliação do pesquisador, a eleição de Zucco expressa “uma construção de uma narrativa reacionária, portanto, de reagir aos tempos modernos, de reagir à modernidade”. Ele relaciona esse movimento ao crescimento da extrema direita também entre vereadores, prefeitos e deputados.

Segurança pública entre as principais disputas

Entre as pautas defendidas por Zucco estão as escolas cívico-militares, o endurecimento das políticas de segurança pública e a valorização das forças de segurança. Para Branco, essas propostas fazem parte de uma agenda recorrente de candidaturas de extrema direita no Brasil e em outros países. “Essas propostas como a escola cívico-militar, endurecimento das polícias e segurança pública, e valorização das forças de segurança é um certo lugar comum, sem muita contribuição, que todas as candidaturas de extrema direita no Brasil e até no mundo, têm aplicado”, destaca.

O pesquisador cita o modelo de El Salvador e políticas de encarceramento como referências de uma abordagem que, segundo ele, não teria alterado de maneira estrutural o cenário da segurança pública nos estados brasileiros.

Para Branco, a repressão concentrada na ponta final do crime não enfrenta as estruturas das organizações criminosas. Segundo ele, o combate deveria priorizar investigação, inteligência e o enfrentamento dos mecanismos de lavagem de dinheiro.

“O crime tem que ser combatido desde a sua cabeça. Do seu comando, do seu estado maior, do seu setor de inteligência, que são as organizações criminosas, os chefes dessas organizações criminosas e até setores da economia formal, principalmente a economia financeira, que dão guarida e que, vamos dizer assim, lavam o dinheiro do crime”, frisa.

Na avaliação do cientista político, a agenda de segurança do novo governo poderá resultar em aumento da repressão e de prisões de jovens envolvidos em conflitos de menor escala, enquanto as estruturas do crime organizado permaneceriam menos atingidas. “Então, eu espero mais do mesmo, aliás, de todo o governo Zucco, mas em especial na segurança, eu acho que nós vamos ter muita repressão, muita prisão de jovens em pequenos conflitos e o crime organizado passando ao largo do combate.”

Maioria na Assembleia

A composição da Assembleia Legislativa também deverá favorecer o novo governo, segundo Branco. O PL terá 12 deputados, enquanto a federação PT, PCdoB e PV terá 10 e a federação PP e União Brasil, oito. MDB e PSD terão cinco parlamentares cada; PDT e Republicanos, quatro; Psol/Rede, três; Podemos, dois; e Novo e PSDB, um cada.

Para ele, além dos partidos diretamente vinculados à candidatura de Zucco, o governador eleito poderá contar com apoio de setores do chamado centrão. “Essa composição, da nossa Assembleia Legislativa, indica que o Zucco vai ter maioria até com folga na Assembleia Legislativa, porque dos partidos mais diretamente vinculados à sua candidatura, elegeu 27.”

De acordo com Branco, a possibilidade de apoio do centro político poderá ampliar essa maioria. “Ocorre que deste centro político, o centrão, é possível que ele obtenha apoio em quase todos os temas dos 11 deputados e, eventualmente, um ou outro deputado do bloco de esquerda. Então, me parece que ele vai ter uma maioria folgada.”

A questão, segundo o pesquisador, será saber quais temas serão priorizados pela nova composição da Assembleia. Ele cita desenvolvimento, inovação e modernização como áreas que, na sua avaliação, deveriam estar no centro da agenda estadual.

“A questão é saber se o Zucco ou alguma dessas bancadas vai pautar assuntos de desenvolvimento, de inovação, de modernização para a Assembleia Legislativa, ou se vai ficar nessa pauta tradicional da extrema direita que é vender ativos, aumentar a repressão ao crime menor, ao crime de calçada, sem investigar, como falamos anteriormente, as grandes organizações criminosas, retirar direitos de servidores públicos”, afirma.

Branco também relaciona sua avaliação às políticas adotadas pelos governos anteriores. “Tem sido a pauta dos governos Sartori e Eduardo Leite, os últimos 12 anos tem sido uma pauta extremamente pobre, de retrocessos, sem pautar e inclusive ficando aquém do dinamismo da economia gaúcha que existe, mas que não é narrada, não é espelhada, expressada na Assembleia ou por ações do governo do estado.”

O desafio da oposição

Com a vitória de Zucco e a nova composição da Assembleia, Branco avalia que a oposição deverá enfrentar inicialmente uma agenda de defesa de direitos e políticas públicas. Ele cita servidores públicos, saúde e educação estaduais. “A oposição, que nesse caso é uma oposição democrática, de centro, centro-esquerda e de esquerda, ela, obviamente, e não tem como escapar disso, vai trabalhar uma pauta defensiva, de defesa dos direitos dos servidores públicos, da rede de saúde estadual, da rede de ensino estadual”, analisa.

Conforme o pesquisador, essa atuação será necessária diante da possibilidade de mudanças em políticas e direitos acumulados ao longo das últimas décadas. “O governo Zucco vai atacar algumas conquistas, algumas acumulações que se teve no Rio Grande do Sul ao longo de décadas, um estado que tem uma larga trajetória de qualidade no ensino público, na própria saúde pública.”

Ao mesmo tempo, Branco defende que a oposição dialogue com setores ligados à inovação e à economia contemporânea do estado. Ele cita universidades públicas federais, a universidade estadual, universidades comunitárias, startups, empresas de tecnologia e a indústria. “Eu acho que alguém tem que abrir um canal de conversação para que se expresse politicamente este Rio Grande do Sul mais moderno, inclusive como forma de contrabalançar esse RS atrasado e irreal que o Zucco tende a expressar.”

Para ele, esse diálogo poderia fazer frente ao que classifica como um projeto de “volta ao passado”. “Com esse seu programa reacionário de volta ao passado, que efetivamente ele expressa.”

Um fenômeno que ultrapassa o estado

Para Branco, o resultado gaúcho também precisa ser compreendido dentro de um movimento nacional e internacional de crescimento da extrema direita. “A subida, o crescimento dessa extrema direita, em especial a eleição do Zucco ao governo do estado, é uma expressão quase que direta do crescimento, da ascensão da extrema direita brasileira.”

O pesquisador aponta fatores econômicos e culturais que, na sua avaliação, contribuíram para esse avanço no Rio Grande do Sul. Entre eles, cita a presença de pequenos empreendedores e pequenos proprietários rurais que, segundo ele, já estiveram vinculados ao campo progressista e à esquerda e que passaram a ser influenciados por discursos de meritocracia e individualismo.

“Objetivamente, está assentado num crescimento, uma presença muito forte de um setor médio, de pequenos empreendedores, pequenos proprietários rurais, que inclusive já foram vinculados, base eleitoral do campo progressista, da esquerda, e que hoje, muito hegemonizados por esse discurso da meritocracia, do individualismo, foram capturados por essas ideias neoliberais e transitaram para a extrema.”

Outro elemento apontado por ele é a distância, na sua avaliação, entre a imagem política do estado e sua estrutura econômica. “É uma economia diversificada, com vários produtos, onde a indústria é muito forte, onde o setor de serviço é muito forte, mas o peso da agricultura econômica é menor que o peso da agricultura no campo da política”, pontua.

Segundo Branco, setores empresariais ligados à indústria e aos serviços possuem pouca expressividade política, enquanto o agronegócio e setores ligados ao rentismo teriam maior influência. “Parece que há uma rendição da elite empresarial mais moderna para a elite empresarial, proprietária, mais reacionária, mais conservadora. Isso, para mim, explica a ascensão da extrema direita no Rio Grande do Sul.”

O pesquisador ressalta, porém, que o fenômeno gaúcho está inserido em uma tendência mais ampla. “Mas, obviamente, o grande motivo é a ascensão até mundial da extrema direita. E aqui, na nossa pequena aldeia, vimos o mesmo fenômeno.”

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter